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Investidores apostam em empresas biotech na corrida por uma vacina

De acordo com a OMS, 168 projetos de vacina contra a COVID-19 estão em desenvolvimento afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 18. agosto 2020 - 10:05
(AFP)

A corrida frenética para descobrir uma vacina contra a COVID-19 provocou a disparada nos preços das ações de vários laboratórios no mundo, ao mesmo tempo que jovens empresas inovadoras estão roubando o protagonismo dos pesos-pesados do setor.

Ainda não há uma vacina pronta para ser comercializada, mas 168 projetos de vacina estão em desenvolvimento, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), muitos deles liderados pelas jovens empresas "biotechs".

Um exemplo emblemático é a americana Moderna, que desenvolve um dos projetos mais avançados, já na "fase 3", ou seja, em testes clínicos em humanos, a última etapa antes da comercialização. Depois de registrar alta de 250% em suas ações, a empresa está avaliada em quase 30 bilhões de dólares em Wall Street.

As concorrentes não ficam para trás: 350% e 3.580% de alta para as também americanas Inovio e Novavax, 103% para a alemã BioNTech.

Outras batem à porta da Bolsa: o setor captou mais de nove bilhões de dólares este ano em Wall Street, segundo a agência Dealogic. Algo nunca visto.

A alemã CureVac vale mais de 10 bilhões de dólares após sua entrada espetacular na sexta-feira na Bolsa eletrônica americana Nasdaq.

Em comparação, as ações dos grandes laboratórios como Pfizer, Sanofi ou GlaxoSmithKline apresentam um crescimento menor. Mas as empresas valem muito mais: 219 bilhões, 128 bilhões e 101 bilhões de dólares, respectivamente.

- Taxa de sucesso "improvável" -

O dinheiro corre em direção às biotechs. "Mas várias estão além de onde deveriam estar realmente", afirma Chris Redhead, analista financeiro da área de Saúde para a consultoria Goetzpartners.

"O que me preocupa é a reação dos investidores, que dão como certa uma taxa de sucesso muito elevada entre estas empresas e o fato de que cada uma vai embolsar milhões de dólares graças às vacinas", declara Daniel Mahony, gestor de fundos da indústria farmacêutica para a empresa Polar Capital em Londres.

"Isto me parece simplesmente improvável".

Em alguns momentos bastam resultados preliminares positivos em uma potencial vacina para provocar a disparada dos preços das ações.

"Mas em um cenário clássico, e uma pandemia não é diferente, as probabilidades de que uma vacina avance sem problemas da fase 1 até o fim da fase 3 são de algo por volta de 10%", recorda Adam Barker, analista da Shore Capital.

- Governos aumentam a concorrência -

Muitos investidores apontam um 'modismo' e a forte especulação a respeito das biotechs. O que muda a questão no momento, afirma, é o nível de envolvimento dos governos e das fundações.

A pandemia já matou mais de 770.000 pessoas e provocou o colapso da economia mundial. Ao mesmo tempo, os países destinam centenas de milhões de dólares de subsídios às empresas e encomendam enormes quantidades de potenciais vacinas.

Para a Moderna, por exemplo, o Natal chegou mais cedo quando o governo dos Estados Unidos decidiu investir 2,48 bilhões de dólares, entre a pesquisa e a encomenda antecipada de doses.

"Em períodos normais, uma empresa do setor farmacêutico desenvolve a cadeia de produção quando tem a autorização para a vacina, pois esta custa muito caro. Com milhões de dólares sobre a mesa, isto torna as coisas mais simples", destaca Daniel Mahony.

Ao investir de maneira pesada, os governos "aumentam a concorrência entre os pequenos e os grandes", completa, o que justifica parcialmente o aumento na Bolsa das ações do primeiro grupo.

Os "grandes" grupos estabelecidos, como AstraZeneca e Johnson & Johnson, desejam comercializar suas potenciais vacinas a preço de custo durante a crise, o que limita seu avanço na Bolsa.

- Aceleração do ritmo de pesquisa -

Os grandes valores injetados nas empresas inovadoras permitirão, no entanto, avanços em outras áreas: "as doenças infecciosas ou a próxima geração de vacinas por exemplo", aponta Chris Redhead.

Outro fator promissor é a aceleração do ritmo das pesquisas.

"Tradicionalmente são necessários entre 10 a 15 anos para desenvolver uma nova vacina. Neste momento algumas empresas estão fazendo testes de fase 3, seis meses depois da chegada da pandemia aos Estados Unidos", observa Andy Acker, gestor de fundos e especialista em biotecnologia da Janus Henderson.

Porém, as biotechs continuam sendo investimentos de risco.

"Quando se compra uma biotech, compramos uma espécie de bilhete de loteria", afirma Gregori Volokhin, gerente da carteira de ações da Meeschaert Financial Services, de Nova York. "Sempre existem investidores que tentam dar o grande golpe. Aconteceu o mesmo com a bolha da internet, com a energia solar, o carro elétrico e agora com a COVID-19", completa.

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