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Justiça processa vice-presidente da Argentina por corrupção

Um juiz indiciou o vice-presidente da Argentina, Amado Boudou, por "suborno" e "negociações incompatíveis" em um caso de corrupção relacionado com a impressão de papel oficial quando ele era ministro da Economia, indicaram fontes judiciais sexta-feira à noite. afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 28. junho 2014 - 11:21
(AFP)

O vice-presidente da Argentina, Amado Boudou, de 51 anos, foi indiciado por "suborno" e "negociações incompatíveis" em um caso de corrupção relacionado com a impressão de papel oficial quando ele era ministro da Economia, anunciaram fontes judiciais na sexta-feira à noite.

O segundo principal nome no governo de centro-esquerda da presidente Cristina Kirchner se torna, dessa forma, o primeiro vice-presidente no exercício do cargo da história da Argentina a ser processado em um caso de corrupção.

Por sua condição de vice-presidente e de titular do Senado, Boudou goza de imunidade, a qual pode perder se renunciar, ou se for destituído do cargo.

Boudou está em viagem a Cuba e pretende retornar ao país na próxima semana. Na terça-feira, ele é esperado na posse do presidente panamenho recém-eleito, Juan Carlos Varela, mas sua agenda detalhada não foi divulgada.

Neste sábado, o advogado de Boudou, Diego Pirota, antecipou que apelará à Câmara Federal "provavelmente na próxima sexta". Pirota denunciou a "animosidade" do juiz contra seu cliente.

"Falei com Boudou, e o indiciamento não nos surpreendeu em nada", disse o advogado à rádio América, criticando que "o (aspecto) jurídico não interessa a ninguém aqui, (a sentença) parece um conto de fadas contado de forma fantástica".

Na visão do analista Rosendo Fraga, da consultoria Nueva Mayoría, em entrevista ao canal Todo Noticias, "para o governo é um golpe muito duro, porque há muita atenção ao contexto político".

O juiz federal Ariel Lijo acusou Boudou de usar sua influência para ajudar a empresa Ciccone a evitar a falência em 2010, quando era ministro da Economia, e de comprá-la por meio de um misterioso fundo de investimento chamado The Old Fund.

Antes de viajar, o vice-presidente pediu ao juiz na sexta-feira à tarde uma audiência para estender o seu testemunho em uma corte federal que investiga a compra da empresa Ciccone Calcográfica, única a emitir cédulas e documentos oficiais do país.

"Boudou, aproveitando sua posição como funcionário público, e Nuñez Carmona, teriam acordado com Nicolás e Héctor Ciccone e William Reinwick a transferência de 70% da empresa Ciccone Calcográfica em troca da realização de atos necessários para que a empresa pudesse voltar a operar e assinar contratos com a administração pública", afirma o texto da sentença, de 333 páginas.

Além de Boudou, o juiz Lijo também acusou um sócio e um suposto laranja da operação, assim como outros três envolvidos no caso, segundo o Centro de Informação Judicial (CIJ), o site oficial das notícias do Judiciário na Argentina.

A decisão do juiz impõe aos seis envolvidos um "processo sem prisão preventiva" e ordena o embargo de 200.000 pesos (cerca de US$ 25.000) sobre os bens de Boudou, de acordo com a mesma fonte, que divulgou o indiciamento à meia-noite.

Boudou declarou inocência durante uma audiência que se estendeu por mais de sete horas no dia 9 de junho pela compra da empresa que emite papel-moeda. Ele diz ser vítima de uma campanha da imprensa e de setores econômicos, que buscam ofuscar o êxito do acordo alcançado no mês passado com o Clube de Paris.

O juiz determinou que Boudou deverá ampliar sua defesa em 16 de julho, conforme solicitado pelo próprio vice-presidente. Nessa data, ele chefiará o Executivo, já que a presidente Cristina deve estar no Brasil como convidada para a cúpula do Brics (acrônimo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Boudou tem recebido o apoio do governo, mas Cristina não deu qualquer declaração sobre o caso nas últimas horas.

- A origem do caso -

A intimação judicial indica que o vice-presidente, junto "com José María Núñez Carmona, teria adquirido a empresa falida e Ciccone Calcográfica (que opera em monopólio) quando era ministro da Economia (durante o primeiro mandato de Cristina Kirchner), por meio da sociedade The Old Fund e de Alejandro Vandenbroele, com o objetivo final de obter um contrato do Governo Federal para a impressão de documentos oficiais".

O ex-ministro da Economia, que se tornou vice-presidente em 2011, havia sido intimado a depor em 15 de julho. Ele pediu que a data fosse antecipada, alegando querer esclarecer o seu papel no caso o mais rápido possível.

No depoimento ao juiz, Boudou negou qualquer relação com Vanderbroele. Na resolução de sexta-feira, o juiz Lijo considera evidente a ligação entre Boudou e Vanderbroele.

Os outros réus no caso são Jose Maria Nuñez Carmona, Rafael Brenner Resnick, William e Nicholas Ciccone Reinwick. Tanto Boudou como Nuñez Carmona e Vanderbroele são acusados ​​de "corrupção passiva em concorrência fraudada", enquanto Ciccone e Reinwick foram processados ​​por "corrupção ativa".

Vários políticos da oposição elogiaram o indiciamento e pediram que Boudou seja afastado do cargo.

"Um processo contra o número dois do país não é uma boa notícia", declarou o presidente do partido União Cívica Radical (UCR), Ernesto Sanz.

Ele destacou que a decisão "fala bem da Justiça, mas não dos funcionários escolhidos pela presidente".

"Foi ela (Cristina) que o escolheu como vice-presidente. Ela é, politicamente, responsável por essa situação", acusou Sanz.

O peronista dissidente Felipe Solá garantiu que "vai propor que Boudou abra mão de sua imunidade, porque (se continuar no cargo) o governo pagará o preço político mais alto que já pagou".

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