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O procurador Vladimir Aras concede uma entrevista à AFP em Brasília

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A investigação do esquema de corrupção na Petrobras, que revelou negócios ilegais bilionários entre construtoras e funcionários públicos no Brasil, irá se expandir além das fronteiras nacionais, afirmou nesta segunda-feira o procurador da área internacional do caso, Vladimir Aras.

Em uma entrevista à AFP, Aras adiantou que haverá novas revelações no exterior, principalmente em países da América Latina e da África, onde as empresas brasileiras fizeram grandes obras públicas, e que as ramificações internacionais da Lava Jato continuarão mesmo depois que a investigação no Brasil for concluída.

Os procuradores-gerais de 11 países decidiram na semana passada formar equipes multilaterais para investigar a maquinaria de corrupção da construtora Odebrecht, que teve um papel central no desvio de verbas para políticos.

Ante a perspectiva da divulgação da delação de 77 ex-executivos da Odebrecht, Aras revelou que há pelo menos 10 empresas estrangeiras na mira da Justiça brasileira.

A seguir, os destaques da entrevista realizada na Procuradoria-Geral da República (PGR), em Brasília.

Pergunta: O impacto internacional do caso vai aumentar?

Resposta: Vai aumentar muito (...). Se contamos com a independência e autonomia dos ministérios públicos na nossa região, como temos aqui no Brasil, é possível esperar que essas investigações sigam diante e que revelem outros esquemas corruptos paralelos àqueles atos ilícitos que teriam sido praticados por empresas brasileiras, sobretudo construtoras, nesses países.

Essa interação indevida entre o setor público e o setor privado não é uma marca apenas do Brasil ou de empresas brasileiras. Há corrupção em toda parte.

P: Pode haver mais pessoas em nível presidencial envolvidas?

R: Isso seria mais difícil de dizer, "a nível presidencial". Mas seguramente haverá envolvimento de autoridades desses países porque foram contratadas grandes obras públicas, e esses grandes contratos dependem de negociações em alto nível. Então é muito provável que se, realmente, as práticas corruptas que vimos no Brasil foram reproduzidas, exportadas pelas nossas empresas, evidentemente o método também pode ter sido exportado.

[Ndlr: o ex-presidente peruano Alejandro Toledo é buscado pela Justiça por este caso, e houve relatos sobre o envolvimento presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e de Michel Temer. Todos negaram as acusações.]

P: As empresas estrangeiras estão sendo investigadas?

Muitas empresas estrangeiras que operaram no Brasil e contrataram com a Petrobras merecem e estão sendo investigadas nos países de origem (...) São empresas que normalmente fizeram contratos com a Petrobras no segmento de exploração e transporte. É esperado que, além do Brasil, o MPF cumpra com o seu papel na investigação e a persecução criminal dos delitos praticados por nossas empresas no exterior, que os ministérios públicos europeus e de outras regiões também façam sua parte e investiguem e processem a essas empresas pelos crimes transnacionais que praticaram.

P: Quais são?

R: Não podemos mencionar os nomes (...), temos a ideia de que cerca de uma dezena de empresas, pelo menos, estão nesse grupo de empresas estrangeiras sob investigação, ou que já deveriam estar sendo investigadas pelos países onde operam, onde têm as suas sedes.

P: Por quanto tempo a investigação ainda deve continuar?

R: Vai durar mais um ou dois anos, imagino (...). Do ponto de vista internacional, acredito que mesmo quando as investigações encerrarem em Curitiba e em Brasília, continuaremos recebendo vários pedidos do exterior em função de repercussões que continuarão ocorrendo nesses países a partir da expansão internacional que se viu em 2015, mais fortemente em 2016, e agora intensificando-se em 2017.

P: Na reunião da semana pasada, os procuradores da América Latina falaram sobre a possibilidade de os políticos investigados tentarem se proteger, ditando leis em benefício próprio?

R: Isso se viu aqui no Brasil (...) Em outros países é possível que haja reações semelhantes e temos notícias, por exemplo, de que em Angola já se aprovou uma legislação, não sei exatamente quando, que de certo modo anistia certas condutas ilícitas que foram praticadas.

AFP