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O presidente venezuelano Nicolás Maduro, no Panamá, no dia 11 de abril de 2015

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O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, completa neste domingo dois anos no poder, marcados pela deterioração gradativa da qualidade de vida de seus compatriotas, que teve como último episódio o corte na liberação de dólares subsidiados para viajantes e compras no exterior.

Quando o herdeiro do falecido Hugo Chávez assumiu o cargo, em 19 de abril de 2013, após eleições impugnadas pelo opositor Henrique Capriles, a inflação anual era de 20,1%, a escassez de produtos básicos, de 20%, e a pobreza, de 25,1%.

Dois anos depois, a inflação disparou para 68,5%, a escassez se tornou um mal crônico e a pobreza - cujo combate foi uma das maiores bandeiras da luta da Revolução Bolivariana - atinge 32,1% dos venezuelanos.

Enquanto isso, o dólar no mercado negro, um marcador quase onipresente dos preços na cada vez mais desvalorizada moeda local, passou de 22 bolívares por dólar, quando Chávez morreu, para 275 bolívares nesta sexta-feira.

Tudo isso mina a moral dos venezuelanos, cada vez mais submetidos a longas filas para conseguir leite, óleo, farinha ou remédios, sem recorrer ao mercado negro, onde - quando se consegue o produto - os preços disparam até 1.000%.

"É muito evidente que o venezuelano perdeu qualidade de vida em todos os níveis sociais, mas sobretudo entre os mais pobres", explicou à AFP o economista Maxim Ross, fundador do Centro de Estudos de economia venezuelana da Universidade Monte Ávila.

Como ele, muitos economistas consideram que a situação atual é consequência o modelo socialista centralizador - implantado por Chávez e seguido à risca por Maduro - de controles de câmbio e de preços, de expropriações, de descontrolado gasto público e de "burocratismo" que castiga a produção nacional e fomenta a corrupção, o contrabando e a ineficiência.

No entanto, Maduro, que comemora que seu governo continue tirando da desnutrição milhões de venezuelanos - algo corroborado pela FAO - atribui a crise a uma "guerra econômica" da burguesia com vínculos com a Colômbia e os Estados Unidos.

Fase da escassez

Apesar das contínuas altas salariais ordenadas por Maduro, a frustração nas ruas pela ideia de que "a inflação está comendo o salário" está muito disseminada entre os venezuelanos de todas as idades, condições e crenças políticas, acostumados à generosa política de subsídios do chavismo.

Sentada em um precário tamborete em um posto da comunidade de Petare, no leste de Caracas, Luisa Marina, uma empregada doméstica e mãe solteira de dois filhos, qualifica o governo de Maduro como o dos "anos do não tem".

"Eu não tenho nada contra Maduro, mas este governo jogou tudo a perder. Em dois anos, tudo foi sendo cortado. De mim, tiraram até as remessas", conta à AFP Marina, que saiu da Colômbia há 22 anos e, apesar de tudo, não pensa em "voltar a emigrar", como muitos estão fazendo.

Na Praça Bolívar, no abastado distrito de Chacao, Vladimir Zambrano, um técnico de som e estudante de informática, conta que nestes dois anos, seu salário dobrou de 7.500 para 15.000 bolívares, mas vale "muito menos".

"Na Venezuela não se vive mais, se sobrevive. A gente trabalha para o dia a dia. Como jovens, não esperamos ter algo fixo, comprar um imóvel. Só pensamos no que teremos no bolso para o dia seguinte", explicou.

Eleições à vista

Em um contexto de abrupta queda da vital renda petroleira, o atual ocupante do Palácio de Miraflores se viu obrigado a cortar divisas para remessas e para passagens aéreas, a deixar de pagar a dívida comercial e elevar o preço de alguns produtos controlados e dos impostos subsidiados dos serviços públicos.

"Maduro tem tido menos ganhos petroleiros que Chávez, tem tido que pagar mais serviços da dívida e teve a mesma falta de previsão. Quase todos os países petroleiros têm um fundo de previsão para os momentos ruins. A Venezuela não", explicou o economista Ross.

No horizonte está o aumento da gasolina mais barata do mundo, um tema tabu até agora - pois no passado motivou um protesto sangrento -, mas que está sendo discutido pelo chavismo.

A pergunta é se com esta queda do petróleo, Maduro - que tem uma popularidade em baixa que estudos situam em 25% - poderá manter os milionários programas sociais de alimentação, saúde, educação e moradia.

E também se com esta parca entrada de recursos, o presidente - cada vez mais questionado pela comunidade internacional - poderá custear a campanha eleitoral para as vitais legislativas de dezembro, nas quais a oposição aparece como favorita, apesar de estar dividida e com vários líderes presos.

AFP