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Pessoas fazem fila para receber comida na favela de Petare, em Caracas, no dia 10 de junho de 2016

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Uma multidão atacou na quinta-feira dois caminhões carregados de alimentos em Petare, a favela mais populosa da Venezuela, e manifestantes policiais e militares em meio a um apagão.

José Salazar está acenando para um punhado de venezuelanos bolivarianos em meio a uma rua de Caracas.

"O que eu faço com esse dinheiro?", exige o irritado avô e aposentado, um das dezenas de venezuelanos que bloquearam uma avenida na capital em um protesto contra a escassez de alimentos que atinge o conturbado país.

Cenas similares parecem ter surgido em vilas e cidades ao longo da Venezuela, que já foi um forte produtor de petróleo e que está à beira do colapso, já que os preços brutos globais caíram.

Salazar disse que estava procurando comida para sua família, mas não achou nada nos supermercados.

Assim, ele se juntou a um protesto espontâneo com outros moradores de Petare, uma pobre vizinhança ao leste de Caracas, que está voltado para essa situação e descarregando sua raiva contra o presidente de esquerda, Nicolás Maduro.

Eles gritavam "Cai fora, Nicolás Maduro", e "Referendo!" - uma referência à chamada da oposição de fazer o referendo para retirar o impopular presidente.

"Nós estamos famintos. Queremos comida. Cara, barata, importada, o que for. Não importa. Mas precisamos de comida", disse o manifestante Tairon Rincón.

A polícia logo os dispersou com gás lacrimogênio e balas de borracha.

Mas horas depois outro protesto surgiu no bairro de classe média Los Ruices.

Outros similares a esses aconteceram nas últimas 24 horas em cidades ao redor da Venezuela, incluindo Valera, San Juan de los Morros e Porlamar, de acordo com relatórios da imprensa.

Ônibus com pneus carecas

Às vezes os protestos se tornam ondas de saques.

O Observatório Venezuelano para Conflitos Sociais, um grupo de monitoramento, informou 254 incidentes de roubos ou tentativa de roubos nos primeiros cinco meses do ano.

Houve 2.779 protestos devido a escassez ou interrupção no fornecimento de água e eletricidade no mesmo período, informou o grupo.

Comida, remédios e insumos básicos como papel higiênico, desodorante e fraldas estão com fornecimento restrito, e uma crise de seca e de energia elétrica tem agravado a situação dos venezuelanos.

Com o protesto de Petare deflagrado, motoristas de ônibus iniciaram sua própria manifestação em frente ao Ministério dos Transportes a respeito da falta de peças de reposição para os veículos.

"Agora nós temos problemas para conseguir baterias, pneus, óleo. O preço da gasolina subiu. Este negócio simplesmente não está trazendo o suficiente", disse Alfonso Rangel.

Motoristas colocaram cartazes do lado de fora do Ministério perguntando "Onde estão os pneus e as baterias, sr. ministro?".

"Mais de 70% da frota está fora de circulação", disse o manifestante José Luis Montoya. "Os pneus dos ônibus estão todos carecas... Estamos arriscando a vida dos nossos passageiros e a nossa".

Maior inflação do mundo

Maduro há muito já havia rejeitado a oposição de centro-direita como elitista, e seus protestos contra o governo como uma conspiração capitalista.

Mas protestos espontâneos como os feitos pelos motoristas de ônibus e moradores de Petare estão cada vez mais próximos.

Maduro é ex-motorista de ônibus, e Petare é o tipo de vizinhança que costuma ser o reduto do líder socialista e de seu antecessor, Hugo Chávez.

Porém, a crise está afetando negativamente a popularidade de Maduro, que está em torno de 20% na metade do seu mandato de seis anos.

A escassez de insumos tornou os preços exorbitantes e a Venezuela tem a pior inflação do mundo no último ano, 180,9%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) faz uma previsão que a inflação irá atingir os 700% esse ano.

AFP