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Lenín Moreno, em Quito, em 10 de março de 2017

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Lenín Moreno tomou posse como presidente do Equador nesta quarta-feira (24) com a promessa de ser austero em seu plano de fortalecer o modelo de esquerda conhecido como "socialismo do século XXI", seguindo o rastro de Rafael Correa.

"Sancionarei um decreto executivo de austeridade no governo. Todo o gasto, todo o investimento passará por um filtro objetivo de necessidades dos cidadãos", declarou Moreno em seu primeiro discurso como presidente nesta quarta.

"Vamos sustentar a dolarização" da economia, implantada em março de 2000, em meio a uma crise bancária no país, acrescentou.

Moreno, de 64 anos e que sofre de paraplegia, foi empossado no Congresso unicameral, controlado pelo oficialismo - na presença de uma dúzia de presidentes latino-americanos, entre eles os de Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Guatemala e Peru.

"Foram dez anos como testemunha da construção de caminhos, pontes, portos e aeroportos (...) dez anos de recuperação da autoestima e do sentimento de pertencimento dos equatorianos. Este processo tem um nome: revolução cidadã", exclamou Moreno em seu primeiro discurso como presidente.

Formado em Administração Pública, Moreno argumenta que "a paixão pela vida nos obriga a aprofundar as mudanças alcançadas, defender os avanços sociais", conforme estabelece seu programa de governo.

Apoiado pelo temporário boom do petróleo, Correa privilegiou o investimento e a equidade social, mantendo os subsídios ao combustível e à eletricidade durante a década de sua "revolução cidadã", que agora enfrenta dificuldades econômicas.

A dívida externa subiu 150% (para US$ 25,6 bilhões, 26,3% do PIB) na última década, segundo dados oficiais. A economia encolheu 1,5% em 2016, e o ​​preço do petróleo, o principal produto de exportação, caiu de US$ 98 por barril, em 2012, para US$ 35, em 2016. No primeiro trimestre deste ano, o preço aumentou para US$ 45 o barril.

Modelo em crise

Baseado em um Estado investidor e disciplinador da sociedade, o modelo Correa está "em crise" e "requer uma bonança econômica para se sustentar", aponta o analista Pablo Ospina, da Universidade Andina Simon Bolívar em Quito.

Para o cientista político Simón Pachano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) em Quito, as perspectivas para Moreno "são difíceis, especialmente sobre a situação econômica", que levou o país à recessão nos últimos trimestres.

Pachano não acredita que o novo presidente vá conseguir manter os níveis de investimento social de Correa, o qual garante ter reduzido a pobreza de 36,7%, em 2007, para 22,9%, em 2016, e a miséria, de 16,5% para 8,7%.

As expectativas das classes mais pobres seguem, porém, intactas.

"Espero que Lenín me ajude a ter minha casa. Não quero tudo dado. Preciso de facilidades para pagar", disse à AFP Trellas Isabel, de 61 anos.

Moreno pretende alcançar uma economia sustentada na eficiência e na gestão adequada dos recursos, de modo a sustentar a justiça social e a equidade fiscal. Ele também promete uma "implacável" luta contra a corrupção e que, em 2021, entregará "um país com melhores resultados".

Anunciado na terça-feira e com a posse prevista para acontecer nesta quarta à noite, seu gabinete é composto de empresários, líderes sociais e funcionários de Correa, como María Fernanda Espinosa e Miguel Carvajal, que serão chanceler e ministro da Defesa, respectivamente.

Além de eliminar seis ministérios coordenadores, como o de Política Econômica, Moreno entregou a pasta das Finanças a Carlos De la Torre, ex-assessor do Banco Central; e a de Hidrocarbonetos, a Carlos Pérez, ex-executivo da empresa petrolífera americana Halliburton.

"Este é o momento de renovar os compromissos e enfrentarmos juntos novos desafios. Vou trabalhar para cada um de vocês", declarou Moreno há uma semana, ao receber a credencial presidencial.

A oposição recuperou terreno na última eleição, aumentando sua presença no Parlamento, onde o governo deixa de ter a maioria qualificada de dois terços para reformar a Constituição. O oficialismo dispõe agora de uma maioria frágil de 74 cadeiras, contra 100 do período 2013-2017.

Em seu último tuíte como presidente, nesta quarta, Correa anunciou o fechamento do último abrigo para desabrigados do terremoto ocorrido em abril de 2016 e que deixou o trágico saldo de quase 700 mortos e perdas de 3,344 bilhões.

"A ferida nunca se cicatrizará, mas, pelo menos, nossos irmãos não dormem mais em barracas", comentou.

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