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Morre Edén Pastora, ex-guerrilheiro nicaraguense

(Aquivo) Edén Pastora, em 2012 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 16. junho 2020 - 15:25
(AFP)

O lendário ex-guerrilheiro nicaraguense Edén Pastora, conhecido como "Comandante Zero", morreu após sofrer um infarto aos 83 anos enquanto estava internado em um hospital, informaram seus familiares nesta terça-feira (16).

Pastora morreu nas primeiras horas da manhã em decorrência de "um ataque cardíaco repentino", depois de passar vários dias no Hospital Militar de Manágua, segundo seu neto Álvaro Pastora contou à AFP.

O líder, que era próximo ao presidente Daniel Ortega, recentemente havia sido hospitalizado após sofrer uma recaída de uma broncopneumonia, como contado ao site de notícias Nicarágua Investiga.

Ao mesmo site, um dos seus filhos, Álvaro Pastora, disse que seu pai foi tratado como se tivesse COVID-19, embora não tenha sido testado para averiguar se era portador do novo coronavírus, que atinge fortemente a Nicarágua.

Em sua despedida, o governo de Ortega considerou Pastora "um herói" e "uma lenda", segundo comunicado lido pela vice-presidente Rosario Murillo.

- Vida guerrilheira -

O ex-guerrilheiro trabalhava para o governo Ortega no desenvolvimento da bacia do Rio San Juan, situada na fronteira com a Costa Rica, local que tem sido palco dos conflitos fronteiriços entre esses dois países.

Pastora nasceu em 15 de novembro de 1936 em Ciudad Darío (norte), estudou em um colégio jesuíta e mudou-se para o México para estudar medicina na Universidade de Guadalajara, embora não tenha terminado seus estudos, voltando à Nicarágua em 1959.

Novamente no país de origem, ele se juntou à guerrilha Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN, de esquerda) durante a luta contra a ditadura de Anastasio Somoza, terminada em 1979 após uma revolta popular.

Em agosto de 1978, o Comandante Zero ganhou notoriedade ao liderar o ataque ao Palácio Nacional, onde ficava a Assembleia Nacional (parlamento), libertando dezenas de militantes da FSLN ao trocá-los por reféns, incluindo parentes de Somoza.

No início da Revolução Sandinista, Pastora foi vice-ministro do Interior, mas deixou o cargo triste ao denunciar o que seria um alinhamento com Cuba e a União Soviética do governo chefiado pelo atual presidente, Daniel Ortega.

- Opositor e aliado -

Em 1981, depois de romper com os sandinistas, Pastora se estabeleceu na Costa Rica e criou a Aliança Revolucionária Democrática (ARDE), que retomou a luta armada para combater seus ex-companheiros do sul da Nicarágua.

Em 1984, durante uma coletiva de imprensa, ele foi alvo de um ataque na cidade de La Penca, norte da Costa Rica. Ele não foi ferido, mas 11 pessoas morreram, incluindo vários jornalistas.

Após a derrota eleitoral sandinista em 1990, Pastora permaneceu na Costa Rica, onde obteve cidadania e se dedicou à pesca e ao turismo.

Ao retornar à Nicarágua, ele entrou para a vida política e, em 1996, tentou concorrer à presidência, mas foi inibido pelo Conselho Eleitoral Supremo (CSE) por ter dupla nacionalidade, nicaraguense e costa-riquenha.

Depois de anos de distanciamento do FSLN, Pastora se reconciliou com Ortega quando ele voltou ao poder em 2007, e o defendeu até mesmo em meio à repressão aos protestos contra o governo, em 2018.

"Lutei contra os erros políticos e morais que colocavam em perigo o Estado revolucionário com uma arma na mão, à frente de milhares de homens. Agora (que Ortega) está fazendo isso (bem), seria inconsequente com tudo o que defendia" se eu o criticasse, Pastora disse em uma entrevista à AFP, em 2008.

O ex-guerrilheiro estava no centro de uma disputa de fronteira entre a Nicarágua e a Costa Rica que surgiu em outubro de 2010, após as obras de dragagem do rio San Juan, sob sua responsabilidade.

A Costa Rica acusou a Nicarágua de fazer incursões militares em seu território e de lançar sedimentos que causaram danos ambientais. Em 2018, o Tribunal Internacional de Justiça condenou a Nicarágua a pagar uma multa milionária pelo caso.

A pedido da Costa Rica, no meio do conflito, Pastora foi incluído pela Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) na lista dos mais procurados. O país o acusava de invasão do seu território.

"Várias vezes tive que desempenhar o papel de menino mau", mas "continuem a me acusar, caso queiram", Pastora se defendeu.

A ex-presidente da Costa Rica, Laura Chinchila, escreveu no Twitter que Pastora "apenas foi um mercenário que traiu o acolhimento" que o país havia lhe dado.

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