Navigation

O olho da cara, o preço dos protestos no Chile, que completam um ano

Felipe Riquelme, de 41 anos, posa em frente ao monumento da Polícia chilena, onde foi atingido por uma bomba de gás lacrimogênio que o deixou cego de um olho, enquanto participava de um protesto em Santiago há um ano afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 14. outubro 2020 - 22:41
(AFP)

Nada lhes devolverá a visão, mas um ano depois do início dos protestos no Chile e com a proximidade do plebiscito constitucional ganhando as ruas, várias pessoas com ferimentos oculares acreditam que esta perda "não pode ser em vão".

São 460 pessoas que tiveram os olhos mutilados por balas de borracha ou metal ou o impacto de bombas de gás lacrimogêneo, lançadas por policiais da tropa de choque durante as manifestações, segundo o Instituto Nacional de Direitos Humanos.

Foi um alto preço a pagar na luta pelos direitos sociais, cerceados pela Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), mas que "valeu a pena" se o Chile embarcar na redação de uma nova Carta Magna em 25 de outubro, explicaram à AFP as próprias vítimas nos arredores da Praça Itália, no centro de Santiago.

O local foi o epicentro dos protestos e, algumas vezes, de confrontos violentos com a polícia, onde a maioria dos feridos oculares foram atingidos.

Dois deles ficaram totalmente cegos: o estudante Gustavo Gatica, atingido por balas de chumbo, e Fabiola Campillai, atingida por uma bomba de gás lacrimogêneo quando se dirigia para o trabalho.

Às vésperas de 18 de outubro, o primeiro aniversário do que os chilenos rebatizaram de "a explosão" ('el estallido'), e a menos de duas semanas do plebiscito, algumas vítimas veem a consulta como um "novo início e o começo do fim da ditadura de Pinochet".

Outros o consideram apenas "migalhas", mas há também quem pense que a violência dos protestos de rua só faz mal a uma reivindicação social que é transversal e condena a violência.

- Valeu a pena -

O soldador Felipe Riquelme, de 41 anos, foi atingido por uma bomba de gás lacrimogêneo em um dos olhos, apesar de usar uma máscara de gás industrial para cobrir o rosto.

"Olhei por trás de uma palmeira, vi um policial que apontou para mim e essa foi a última coisa que vi. Senti um impacto na minha testa e caí. Sentia um zumbido nos ouvidos, uma dor enorme", contou à AFP no local onde os fatos ocorreram, em 22 de novembro de 2019, em meio a confrontos violentos.

O impacto arrebentou seu globo ocular e fraturou seu crânio, e um ano depois ele continua vendo em pesadelos o policial que atirou nele.

Com um tapa-olho cobrindo a vista que perdeu, diz sentir "tristeza, raiva e frustração" por não saber quem atirou nele, mas garante que "voltaria à rua".

"De fato, estou agora vencendo meus demônios, medos e pesadelos porque não posso deixar que a impunidade vença a democracia", acrescenta.

Um mês depois do início dos protestos e depois das acusações de violações dos direitos humanos por parte de vários organismos internacionais, a polícia chilena anunciou a suspensão do uso de balas de borracha ou metal nos protestos, mas seu uso continuou para repelir os manifestantes mais violentos.

Agora que as manifestações voltaram à Praça Itália, após o fim do confinamento provocado pela pandemia em Santiago, a polícia - que diz fazer frente a uma violência social inusitada no Chile - não voltou a usar espingardas antidistúrbios.

Em um relatório divulgado nesta quarta-feira, a Anistia Internacional (AI) denunciou que se "cometeram graves violações aos Direitos Humanos de forma generalizada" na repressão aos protestos no Chile.

"Longe de ser fatos isolados cometidos por funcionários agindo por conta própria, os atos de violência teriam sido cometidos com base em uma política, cujo fim último era desestimular o protesto social", sentenciou a diretora para as Américas da AI, Erika Guevara, na apresentação do relatório "En Ojos sobre Chile: Violencia policial y responsabilidad de mando durante el estallido social" (Olhos sobre o Chile: violência policial e responsabilidade de comando durante a convulsão social).

- O começo do fim -

Felipe Riquelme é consciente de que uma nova Constituição, se vencer a opção "Aprovo", não devolverá seu olho, nem apagará suas cicatrizes, e embora acredite que "não é a solução total", tem esperança no processo.

No entanto, Hernán Horta, de 52 anos, considera que esta consulta é "um deboche, planejado por uma classe política com medo de perder o poder". O acordo político que permitiu a realização do plebiscito lhe parece "migalhas", podendo ter "o bolo inteiro".

Horta foi atingido por uma bomba de gás lacrimogêneo, que o deixou quase cego de um olho e o com o crânio "em cacos". A agressão ocorreu enquanto participava de enfrentamentos com a polícia.

"Estava tirando fotos e começaram a bater num menino. Quando passei, comecei a gritar com eles e de repente: 'bum'. O único que senti foi como se a cabeça tivesse se dobrado", descreve.

- Mostrar os abusos -

A fotojornalista independente Nicole Kramm, de 30 anos, viveu os protestos através de sua câmera e documentou, a cada dia, as manifestações. Em 21 de dezembro, caminhava com outras pessoas rumo à Praça Itália, onde houve manifestações naquela noite e sofreu o impacto de chumbinho no olho esquerdo.

"Não consegui ter reação, não pude correr, nem fazer nada. Caí imediatamente no chão e a dor era tanta que sentia que minha cabeça ia explodir", disse à AFP, ao visitar pela primeira vez em um ano o local onde foi ferida.

"Parte do meu trabalho é uma convicção política e é preciso divulgar e denunciar o que está acontecendo", afirma.

Partilhar este artigo

Participe da discussão

Com uma conta SWI, você pode contribuir com comentários em nosso site.

Faça o login ou registre-se aqui.