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David Nabarro, atual coordenador da ONU para o Ebola, em uma reunião em Singapura, em 17 de setembro de 2006.

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Diante da gravidade da epidemia de febre hemorrágica Ebola, que já deixou mais de 1.000 mortos, incluindo a terceira vítima na Nigéria, a comunidade médica internacional aprovou nesta terça-feira o emprego de tratamentos ainda não testados em humanos.

Em uma reunião na segunda-feira, o Comitê de Ética da Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou o uso desses tratamentos, em primeiro lugar, nos países do oeste africano mais atingidos pela doença, no mesmo dia em que morreu um missionário espanhol repatriado da Libéria e que um terceiro morto foi registrado na Nigéria.

Jato Asihu Abdulqudir, de 36 anos, funcionário da Comunidade de Estados da África Ocidental (CEDEAO), morreu em Lagos, capital nigeriana, infectado pelo Ebola, após ter tido contato com o liberiano Patrick Sawyer, morto em 25 de julho no hospital de Lagos onde estava em quarentena.

Uma enfermeira que cuidou do liberiano também morreu na semana passada.

Segundo o Ministério da Saúde, foram detectados no país dez casos confirmados da doença, três deles fatais.

"Diante das circunstâncias da epidemia e sob certas condições, o comitê concluiu que é ético oferecer tratamentos - ainda que não tenham eficácia comprovada, assim como os efeitos colaterais - como potencial tratamento, ou de caráter preventivo", afirmou a OMS em nota.

Em Nova York, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, anunciou planos para reforçar a resposta global à epidemia de Ebola e colocá-la sob controle, ao mesmo tempo em que pediu que os governos evitem o pânico.

Ban nomeou o médico David Nabarro como coordenador da ONU para o Ebola, encarregado de supervisionar a estratégia mundial de combate à doença.

"Temos de evitar o pânico e o medo. O Ebola pode ser evitado", disse Ban a jornalistas no escritório central da ONU.

"Com recursos, informação, ação precoce e vontade, as pessoas podem sobreviver à doença", frisou.

A epidemia de Ebola afeta quatro países do oeste da África desde o começo do ano. Além da Nigéria, até agora o menos afetado, Serra Leoa, Guiné e Libéria enfrentam a epidemia.

- Morte de missionário espanhol -

Até o momento não existe um tratamento de cura, ou vacina contra o Ebola, epidemia que levou a OMS a decretar emergência de saúde pública mundial.

Mas o uso do medicamento experimental ZMapp em dois americanos e em um padre espanhol - que faleceu nesta terça-feira em Madri - infectados com o vírus quando trabalhavam na África provocou um intenso debate ético.

O medicamento, do qual existe pouca quantidade, parece apresentar resultados promissores nos dois americanos, mas o religioso espanhol morreu nesta terça-feira em um hospital de Madri.

Miguel Pajares, de 75 anos, "morreu às 09H28" (04H28 de Brasília), indicou à AFP uma porta-voz do Hospital La Paz-Carlos III. Ele não resistiu à febre, apesar do tratamento experimental.

O missionário, primeiro paciente a ser repatriado à Europa, trabalhava no hospital São José de Monróvia, administrado pela ordem religiosa de São João de Deus.

Trata-se do quarto funcionário deste hospital, fechado desde 1º de agosto pelas autoridades da Libéria, a morrer em dez dias após contrair o vírus.

O comitê condicionou o uso dos tratamentos experimentais a uma "transparência absoluta sobre os cuidados, a um consentimento informado, à liberdade de escolha, à confidencialidade, ao respeito das pessoas e à preservação da dignidade e ao envolvimento das comunidades".

Também estabeleceu "a obrigação moral de obter e compartilhar as informações sobre segurança e eficácia das intervenções", que devem ser objeto de avaliação constante.

O número de mortes provocadas pelo vírus Ebola superou a barreira de mil, com 1.013 óbitos e 1.848 casos registrados (confirmados, suspeitos e prováveis) em Guiné, Serra Leoa, Libéria e Nigéria, segundo o balanço mais recente da OMS.

O vírus Ebola é transmitido pelo contato direto com o sangue e fluidos corporais humano, ou animal infectados.

Antes mesmo do anúncio da aprovação da OMS, os Estados Unidos prometeram o envio à Libéria, um dos países mais atingidos pela epidemia, do soro experimental ZMapp, disponível em pequena quantidade, para tratar os médicos atualmente infectados.

A empresa americana Mapp Biopharmaceutical, que produz o medicamento, informou na segunda-feira que enviou o estoque para o oeste da África.

Médicos de todo o mundo participaram dos debates da OMS na segunda-feira em Genebra.

De acordo com a organização, em apenas dois dias, entre 7 e 9 de agosto, 52 mortos por Ebola foram registrados, e 69 casos foram relatados.

Houve 11 novos casos e seis mortes em Guiné, 45 novos casos e 29 mortes na Libéria, nenhum novo caso ou morte na Nigéria e 13 novos casos com 17 mortes em Serra Leoa.

Os profissionais da área de saúde são os mais expostos à doença. Sete médicos e um enfermeiro chineses que trataram pacientes com Ebola foram colocados em quarentena nas últimas duas semanas em Serra Leoa, confirmou o embaixador da China em Freetown, Zhao Yanbo.

- Firmeza das autoridades africanas -

Frente a essa situação de emergência, a Libéria reforçou suas medidas de contenção da doença.

A presidente Ellen Johnson Sirleaf anunciou que a província de Lofa (norte) tinha entrado em quarentena, a terceira região abrangida por essa medida de exceção.

Lofa faz fronteira com Guiné e Serra Leoa, dois países atingidos pela epidemia.

Já Guiné-Bissau decidiu nesta terça-feira fechar a fronteira com a Guiné.

O Japão decidiu retirar os seus 24 trabalhadores humanitários que estão em Guiné, Libéria e Serra Leoa.

No Senegal, país vizinho da Guiné, o diretor do jornal "La Tribune", Felix Nzale, foi levado sob custódia policial na segunda-feira por publicar "informações falsas" sobre a presença do vírus Ebola no Senegal.

Em Ruanda, os testes determinaram que um estudante alemão que veio de Ruanda não estava contaminado com Ebola.

AFP