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Passos em falso desviam o controle da pandemia no Chile

Uma mulher espera do lado de fora do hospital a sua vez de realizar o teste de coronavírus COVID-19, em Santiago, em 5 de junho de 2020. Os mortos pelo coronavírus no Chile aumentaram mais de 50% na semana passada, anunciou o ministério da saúde. afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 08. junho 2020 - 22:30
(AFP)

O Chile chegou a ser considerado um modelo na gestão da pandemia, mas rapidamente perdeu o controle do coronavírus no país. Com quase 140.000 casos e mais de 2.200 mortes por COVID-19, as perspectivas chilenas são sombrias.

Se no final de abril, com 16.000 infecções e 230 mortes, o governo de Sebastián Piñera celebrou um "platô" de contágios e propôs a reabertura gradual das atividades, cinco semanas depois o quadro mudou.

"Temos um número crescente de novos casos todos os dias", reconheceu o ministro da Saúde, Jaime Mañalich, nesta segunda-feira (8), relatando 4.696 novos contágios nas últimas 24 horas e 74 mortes, totalizando 138.846 infectados e 2.264 óbitos desde o primeiro registro em 3 de março.

- Por que os casos dispararam? -

"Acredito que faltou visão por parte do governo em dois pontos importantes para o ritmo dos contágios. O primeiro foi não considerar a brutal desigualdade de nosso país", explica à AFP María Soledad Barría, ex-Ministra da Saúde durante o primeiro governo de Michelle Bachelet (2006-2010) e Diretora de Saúde da Universidade do Chile.

O segundo, de acordo com Barría, foi não perceber a "importância de trabalhar com a atenção primária à saúde" e assim, centralizar a rastreabilidade de infecções.

O Chile foi um dos primeiros países a emitir um alerta de saúde preventivo em 7 de fevereiro.

Semanas depois, fechou fronteiras - exceto para cidadãos e estrangeiros residentes -, suspendeu as aulas, decretou toques de recolher e implementou uma massiva política de testes. Mas, diferentemente de seus vizinhos, optou por quarentenas dinâmicas em vez de gerais.

Embora o fechamento parcial tenha funcionado em bairros ricos, à medida que os casos se expandiam para regiões mais pobres e mais populosas, a eficácia diminuía.

"Nas áreas populares e lotadas, com más condições socioeconômicas, sem a possibilidade de emprego formal, que manteria uma renda para as pessoas, ou de teletrabalho, os contágios explodiram mais tarde", explicou Barría.

A falta de conhecimento sobre como se vive nos bairros pobres de Santiago ficou evidente nas palavras do próprio ministro da Saúde, que em 28 de maio admitiu não ter consciência da magnitude da superlotação em algumas áreas.

- Quarentena pouco efetiva -

Com uma ajuda estatal demorada e insuficiente, muitos continuaram a trabalhar até meados de maio. Os contágios dispararam e uma quarentena obrigatória em Santiago confinou sete dos 18 milhões de habitantes do Chile.

A medida, que permitiu um alto número de licenças de saída e a operação de grande parte do comércio, reduziu a mobilidade em 30%. Especialistas sugerem que, para ser eficaz, deve ser reduzida em 50%.

Diante da emergência, o governo lançou planos de mais de 17 bilhões de dólares, equivalentes a 7% do PIB.

O Colégio Médico e um grupo de economistas consideram que o auxílio aos mais pobres deve ser maior para que a quarentena seja respeitada e propõem adicionar pelo menos metade dos quase 24 bilhões de dólares de fundos que o Chile mantém no exterior para enfrentar a emergência.

- Inconsistências nos números -

Uma estratégia já considerada fracassada tem relação com os números. No domingo, após semanas de denúncias jornalísticas, o governo corrigiu o balanço de mortos, acrescentando 653 mortes.

Durante a semana, deixou de reportar os "recuperados".

A mudança na metodologia aumentou as críticas da comunidade científica.

"Não sabemos quantos pacientes estão hospitalizados, quantos estão com alta, quantos estão com febre e quantos não", disse à AFP Francisca Crispi, do departamento de políticas do Colégio Médico.

O ministro da ciência, Andrés Couve, disse nesta segunda-feira que a mudança busca fornecer informações "mais precisas".

"Estamos enfrentando uma crise sem precedentes que exigiu a criação de um sistema de dados que não tínhamos para enfrentar essa epidemia, assim como provavelmente nenhum outro país no mundo", afirmou.

Embora a aceleração de novos casos tenha diminuído nos últimos dias, a média de quase 5.000 casos confirmados nas últimas duas semanas prevê um cenário crítico para os serviços de saúde nos próximos dias.

A comunidade científica afirma que o país ainda não atingiu o ponto mais alto de infecção.

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