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Presidente chileno opta por gabinete mais à direita ante plebiscito constitucional

O presidente chileno, Sebastian Piñera, durante pronunciamento no palácio La Modeda, em Santiago afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 28. julho 2020 - 17:45
(AFP)

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, recorreu à direita mais dura em uma nova alteração de seu gabinete, anunciada nesta terça-feira (28), com vistas a enfrentar as sete eleições previstas nos próximos 20 meses a partir de outubro, quando será celebrado um plebiscito constitucional.

Piñera concretizou a quinta mudança de gabinete desde que assumiu o segundo mandato, em março de 2018, com a nomeação de seis novos ministros.

As mudanças incluem as pastas do Interior e das Relações Exteriores, que ficaram respectivamente com os ex-senadores Víctor Pérez e Andrés Allamand, que se declararam partidários ao "Repúdio" na consulta prevista para 25 de outubro.

Pérez é considerado um fervoroso partidário da linha ultradireitista chilena.

No referendo, proposto como uma das opções para destravar a crise social que eclodiu no Chile em 18 de outubro do ano passado, os chilenos deverão decidir se "Aprovam" ou "Repudiam" mudar a Constituição, herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

"Convoco este novo gabinete e todo o 'Chile Vamos' (coalizão governamental) a empreender uma nova etapa com um espírito construtivo", disse o presidente.

A cerimônia de posse dos novos ministros foi realizada cinco dias depois da dura derrota que Piñera sofreu no Congresso, após a aprovação de uma reforma que permite saques antecipados dos fundos de pensão, que contou com votos de parlamentares da coalizão que agora tenha alinhar e abalou um dos pilares do modelo econômico chileno, implantado na ditadura.

A mudança também incluiu a chegada do ex-deputado e presidente do partido Renovação Nacional, Mario Desbordes, ao ministério da Defesa, e do ex-deputado Jaime Bellolio ao ministério do Governo ou porta-voz oficial, que recentemente assumiu uma mudança de postura em prol do "Repúdio".

"Este é um gabinete muito mais duro; um gabinete de trincheira muito conservadora, muito ligada ao pinochetismo", disse à AFP Pamela Figueroa, acadêmica e cientista política da Universidade de Santiago.

"No gabinete agora estão as principais figuras do 'Repúdio', o que também representa uma posição de tentar ordenar toda a direita atrás desta opção", acrescentou esta especialista, frente à consulta crucial, prevista inicialmente para abril, mas que precisou ser adiada devido à pandemia do novo coronavírus.

Em tom com as demandas sociais da classe média e mais pobre, muito afetadas pela crise sanitária, o apoio popular ao referendo cresceu e 71% se inclinam em aprovar uma nova Constituição, segundo o instituto de pesquisas Cadem.

- Um falcão -

No Congresso desde 1989 e designado prefeito da cidade de Los Angeles (sul) entre 1981 e 1987 pela ditadura de Pinochet, Pérez é membro da ultraconservadora União Democrata Independente (UDI).

Ele substitui no cargo Gonzalo Blumel, de 41 anos, que foi designado dez dias depois da explosão de protestos sociais, com um perfil de mais diálogo e membro do Evápoli, o partido político mais novo e liberal da coalizão do governo, que agora praticamente saiu do gabinete.

"Víctor Pérez é da ala dura, um falcão, um fanático do 'Repúdio'; um homem com esse perfil vai ser uma dificuldade para o entendimento com a oposição", alertou Fuad Chahín, presidente do partido de oposição Democracia Cristã.

Enquanto isso, o novo chanceler, Andrés Allamand, um político experiente e ex-senador do Renovação Nacional, substitui Teodoro Ribera, com posições mais moderadas. Apenas uma semana atrás, Allamand tinha chamado Piñera a "dar uma guinada no timão".

"Esta é uma mudança de gabinete que pode incorporar novos olhares e essa diversidade pode ajudar", relativizou Jacqueline van Rysselberghe, presidente da UDI.

No entanto, as pesquisas mostram uma distância cada vez maior entre os objetivos do governo e a cidadania. A última consulta, também feita pelo Cadem, revelou esta semana que a rejeição a Piñera aumentou a 78%, enquanto 92% concordam com a reforma do sistema de pensões, que permite saques antecipados de 10% dos fundos.

Enquanto isso, Karla Rubilar passou de porta-voz do Governo ao ministério de Desenvolvimento Social, que era comandado por Cristián Monckeber, que foi para a secretaria-geral da Presidência.

"São muitos e exigentes os problemas que devemos enfrentar, os desafios que devemos assumir e as oportunidades que devemos impulsionar", disse Piñera sobre o cenário que enfrentará nos 20 meses que lhe restam no governo.

Neste prazo estão previstas sete eleições, entre elas as presidenciais de novembro de 2021, em um ambiente social tenso, após a série de reivindicações sociais abertas desde outubro de 2019, agravado pela pandemia que atingiu com força o Chile.

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