A saída do assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, que defendia uma linha-dura com a Venezuela, abre questionamentos sobre a política americana, embora o presidente Donald Trump tenha descartado, nesta quinta-feira (12), uma postura mais conciliadora com relação a Caracas.

Para os mais belicosos, a possibilidade de uma intervenção militar para depor Nicolás Maduro aumentou na quarta-feira, com a invocação pelos Estados Unidos e outra dezena de países do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), um pacto herdado da Guerra Fria que poderia legitimar o uso da força.

A solicitação de ativar o TIAR veio da oposição venezuelana, disse o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, em um comunicado retuitado nesta quinta por Trump, no qual enfatizou a "ameaça" que Maduro representa para a região.

Ainda nesta quinta-feira, o Departamento de Estado anunciou a nomeação do vice-secretário interino de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental no lugar de Kimberly Breier. O embaixador Michael Kozak "continuará promovendo a restauração da democracia para o povo da Venezuela", tuitou a porta-voz Morgan Ortagus.

Em 1988, Kozak foi enviado pelo então presidente Ronald Reagan para concretizar um acordo para que o general Manuel Antonio Noriega abandonasse o poder de fato. Mas Noriega foi derrubado na intervenção militar americana determinada por George H. Bush em 1989.

Os Estados Unidos encabeçam desde janeiro a pressão internacional para tirar Maduro, a quem chamam de "ditador" e culpam pela crise econômica da Venezuela, um país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, que deixou nos últimos anos mais de 4,3 milhões de emigrantes e refugiados, segundo a ONU.

Bolton, que no ano passado cunhou a frase "Troica da tirania", em alusão à Venezuela, Nicarágua e Cuba, impulsionou o endurecimento da política contra Maduro desde que chegou ao Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês), da Casa Branca, em abril de 2018.

A ofensiva de Washington inclui uma vasta bateria de sanções econômicas, entre elas um embargo de fato sobre o petróleo venezuelano, crucial para sua economia, e o reconhecimento do líder opositor e chefe parlamentar, Juan Guaidó, como presidente interino, sem descartar a intervenção armada.

"Todas as opções estão sobre a mesa", costumava dizer Trump nos tempos de Bolton, o veterano "falcão" famoso por seu vasto bigode e o caderninho de anotações amarelo.

- "Ele estava me refreando!" -

Mas Bolton partiu antes de conseguir uma mudança de regime em Caracas, onde Maduro permanece agarrado ao poder, com o apoio da Força Armada, da Rússia e da China.

E sua partida gerou preocupação no sul da Flórida, reduto dos exilados venezuelanos nos Estados Unidos, que apoiam o senador republicano Marco Rubio, descendente de cubanos e artífice da agressiva estratégia de Trump contra Maduro.

"A saída de Bolton poderia indicar uma flexibilização do controle financeiro e político que estava tentando desenhar, com pouco êxito até agora", reportou o Miami Herald em um editorial na quarta-feira.

No mesmo dia, Trump pareceu confirmar estes temores de uma postura mais de "pomba" do que de "falcão".

"Eu não concordava com John Bolton em suas atitudes sobre a Venezuela. Acho que passou dos limites. E acho que demonstrei ter razão", disse no Salão Oval, sem afirmar ao que se referia.

O presidente, que tentará a reeleição em 2020, dissipou as dúvidas nesta quinta, ao afirmar que seus pontos de vista sobre Venezuela e Cuba "eram muito mais fortes" que os de Bolton.

"Ele estava me refreando!", tuitou Trump.

O presidente retuitou Rubio, presidente do subcomitê de Relações Exteriores para o Hemisfério Ocidental, que negou firmemente que se aproxime um tempo de "pombas" na Ala oeste. "Se efetivamente a direção da política mudar, não será para enfraquecê-la".

Para Michael Shifter, presidente do centro de reflexão Diálogo Interamericano, Trump "não quer que ninguém tenha a impressão de que é fraco", mas "é difícil" acreditar que pressionará por uma política mais dura que Bolton.

"Espero que haja um Plano B mais diplomático na Casa Branca para ajudar a restaurar a democracia na Venezuela, mas sou cético", disse à AFP.

"Washington deve renunciar a uma estratégia ideal em favor de uma possível", sentenciou Michael Camillieri, ex-diretor de Assuntos Andinos no NSC, na revista Foreign Affairs.

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