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O presidente venezuelano Nicolás Maduro, no Panamá, no dia 11 de abril de 2015

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Empresários e analistas denunciaram o risco de uma crise alimentar na Venezuela. Os venezuelanos formam longas filas em frente aos mercados, enquanto governo e oposição trocam acusações sobre as causas da privação que já dura quase dois anos.

No país com maiores reservas de petróleo do mundo há problemas para obter carne, leite, frango, açúcar, café, água engarrafada, azeite e farinha, mas também pães, papel higiênico, sabão, preservativos, retrovirais e medicamentos para doenças crônicas, como diabetes e epilepsia.

"Nos próximos três meses se verá mais desabastecimento", antecipa à AFP o analista político e economista Luis Vicente León, diretor da prestigiosa consultora Datanálisis, que enumera como causas os erros na política econômica em um contexto de crise agravada pela queda do preço do petróleo.

Há um ano, quando o índice de escassez chegou a quase um de cada três produtos, o governo deixou de publicar esse incômodo índice que era elaborado pelo Banco Central.

Hoje a população comprova a escassez em suas sacolas de compras e sem necessidade de ler os dados oficiais que não existem e pesquisas privadas que, com metodologias às vezes criticadas, estimam que o problema dobrou e que agora há dificuldades para conseguir dois de cada três produtos.

Contrabando a países vizinhos aproveitando o controle cambial e um dólar subsidiado que custa quarenta vezes menos do que o paralelo, ineficiência, corrupção, empresas e fazendas falidas, preços congelados abaixo dos de custos de produção, desvio de bens com fins especulativos: nas causas do desabastecimento todos parecem ter um pouco de culpa.

Estoques vazios

Durante março e abril os venezuelanos, cuja tradição culinária passa pela carne bovina produzida em suas zonas de planície, se deparam com os estoques dos açougues vazios.

"Nos próximos dois meses, o desabastecimento (de carne) vai aumentar", antecipa à AFP o presidente da Federação Nacional de Pecuaristas (Fedenaga), Carlos Odoardo Albornoz, que aponta o período mais duro da época de seca, combinado com uma política de preços regulados.

Os cereais também apresentam um panorama ruim. "Os estoques não são suficientes. Isso obedece à queda da produção nacional, em boa medida por falta de fertilizantes e reposição de máquinas", diz à AFP o vice-presidente da Confederação de Associações de Produtores Agropecuários (Fedeagro), Aquiles Hopkins.

A queda do petróleo reduziu de 70 para 35 bilhões de dólares as receitas em divisas da Venezuela.

Trégua no início do ano

Em janeiro e fevereiro houve uma pequena melhora no abastecimento graças aos bens importados pelo governo, que se esforça para defender os progressos em matéria de alimentação durante os anos Revolução Bolivariana.

O processo político iniciado por Hugo Chávez e continuado por seu herdeiro, Nicolás Maduro, se orgulha -com razão- de ter tirado milhões de venezuelanos da desnutrição.

Os dados oficiais indicam um aumento de 55% nas calorias consumidas, e Maduro assegura que hoje 95% dos venezuelanos faz três refeições diárias.

As filas de espera nos mercados, entretanto, continuam crescendo, ir de um estabelecimento para outro se tornou um hábito, e algumas empresas de pesquisas que chegaram a estimar que o morador de Caracas gasta 14 horas semanais tentando fazer compras.

O drama de abastecimento é ainda mais sério no interior. "O pouco que tem o governo redireciona para as grandes redes privadas e estatais, e quando a situação fica crítica, só há entrega em Caracas", disse à AFP um dirigente do setor de distribuição que pediu anonimato por medo de represálias.

Maduro, que há um ano e meio vem anunciando uma "guerra econômica" contra seu governo, ameaçou nesta semana os empresários com a "radicalização da revolução contra todos os que a sabotam" e prometeu fiscalizar quem "continua se dedicando a prejudicar o abastecimento".

"Espero que essas sanções também sejam aplicáveis a empresas públicas que foram expropriadas e que são as primeiras que não produzem", replicou Jorge Roig, presidente da poderosa central empresária Fedecámaras.

AFP