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O futuro do transporte de carga vai para o subsolo

Este tipo de veículo será usado para o transporte de carga por debaixo do planalto suíço (ilustração gerada por computador). Keystone

A construção de uma rede de túneis de 500 km para transportar mercadorias por debaixo do planalto suíço é o objetivo ambicioso do projeto "Cargo Sous Terrain". A ideia se aproximou mais da realidade depois do governo suíço apresentar, no mês passado, uma legislação favorável ao projeto.

Este conteúdo foi publicado em 13. novembro 2020 - 08:30

Em um futuro não muito distante, parte das mercadorias agora transportadas por via rodoviária ou ferroviária entre Genebra e St. Gallen, ou entre Basileia e Zurique, poderiam ser transportadas no subsolo em veículos elétricos autônomos. Temos que dizer "poderia ser", porque ainda há muitas incógnitas diante do projeto Cargo Sous Terrain (CST). Entretanto, a ideia agora tem o apoio do governo federal e de vários pesos pesados do mundo empresarial suíço. Os investidores da CST incluem a companhia ferroviária suíça Cargo, a Swisscom, a Implenia (um dos principais atores na área de construção) e as redes de supermercados Coop e Migros.

O projeto suíço não é único. Outros países estão buscando soluções similares. O projeto suíço, entretanto, "tem algumas características únicas, porque é todo financiado pelo setor privado e está sendo planejado em consulta com seus futuros usuários", explica Antonia Cornaro, professora do Instituto Federal de Tecnologia ETH Zurich, especializada em sistemas subterrâneos. "Será também um sistema multifuncional, o que o torna muito mais econômico. O transporte de mercadorias será geminado com o posto de encomendas e as linhas de telecomunicação da Swisscom. Além disso, funcionará 24 horas por dia, 7 dias por semana, e não terá nenhum tempo de parada".

Outros projetos

Há vinte anos, estudos com o objetivo de desenvolver sistemas logísticos subterrâneos estão em andamento. Na China, há pouco mais de um ano, a gigante do comércio o online JD.com inaugurou um novíssimo instituto de pesquisa para estudar a "logística da cidade". O objetivo inicial do instituto é desenvolver soluções para o transporte subterrâneo de mercadorias.

Em vários países europeus, as empresas têm trabalhado em projetos similares ao que existe aqui na Suíça: Tube Cargo Express na Holanda, CargoCap na Alemanha e MoleSolutions na Grã-Bretanha. Todas essas iniciativas ainda se encontram em fase preliminar.

Na Itália, estão trabalhando no projeto Pipenet, um novo desenvolvimento da ideia do "despacho pneumático" que poderia fazer as mercadorias viajarem em alta velocidade (o número mencionado é de 1.500 km por hora) em um conduto, trabalhando com base em um campo magnético. Neste caso, os pacotes iriam em containers menores do que os previstos para os outros projetos mencionados.

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A legislação proposta, apresentada no mês passado pelo governo federal ao parlamento suíço, é um primeiro passo crucial no que provavelmente será algo como uma maratona. O projeto de lei enfatiza o princípio da não discriminação: qualquer serviço oferecido estará aberto a qualquer cliente. Ao mesmo tempo, ele descarta a ideia de construir vários sistemas paralelos para transportar mercadorias no subsolo. O projeto de lei também estabelece que "o capital dos proprietários e operadoras das instalações e os direitos de voto direta ou indiretamente ligados a ele terão que ser majoritariamente suíços".

Financiamento suíço do setor privado

Embora isto não esteja explícito, os criadores do projeto CST estão preocupados em evitar despertar muito interesse das empresas chinesas. Em março passado, o Parlamento aprovou a chamada "Lei da China", uma moção que propõe a criação de "uma base legal para o controle de investimentos diretos do exterior em empresas suíças". Apenas dois meses atrás, a CST declinou uma oferta de financiamento do fundo de investimento chinês Dagong.

Embora o governo suíço não queira que a propriedade seja detida por interesses estrangeiros, ele ainda não quer se envolver no financiamento do projeto, porque "não pode e não vai intervir indiscriminadamente no setor de transporte de mercadorias".

Para construir toda a rede CST, que se estenderá por mais de 500 km e, de acordo com as intenções dos promotores, será concluída por volta de 2045, espera-se um custo de CHF30-35 bilhões. Apenas para comparação, Alptransit - com seus túneis ferroviários de base de São Gotardo, Lötschberg e Monte Ceneri - custou cerca de CHF22 bilhões.

Vai valer a pena todo o trabalho, pensa Cornaro: "O tráfego de mercadorias está vendo um enorme aumento, e não pode ser administrado por meios convencionais, ou seja, rodoviário e ferroviário. As análises mostraram que o sistema vai valer a pena financeiramente para os usuários, caso contrário eles não estariam investindo nele".

O aspecto do financiamento será apenas um dos muitos desafios enfrentados pelo projeto. Não é raro que projetos de infraestrutura desse tipo ultrapassem o orçamento, sem mesmo levar em conta todas as incógnitas, desde a geologia até questões ambientais, ou as longas negociações a serem esperadas com os municípios e proprietários particulares de terrenos.

Primeiro passo: um túnel de Härkingen a Zurique

O objetivo da CST é primeiro construir um trecho do túnel entre Härkingen, um lugar onde há vários armazéns e instalações de distribuição, e Zurique. Estendendo-se por 67 km, este túnel correria de 20 a 100 metros subterrâneos, teria cerca de dez "hubs" de transbordo e custaria cerca de CHF3,4 bilhões, de acordo com estimativas da CST. Ele deveria entrar em funcionamento até 2030.

Na segunda fase, se a experiência com o túnel for positiva, a rede será estendida ao longo do eixo leste-oeste, de St Gallen a Genebra, trazendo as cidades de Basileia, Lucerna e Thun "em uma rede que cobre os principais fluxos de mercadorias da Suíça", diz o governo federal em seu comunicado.

A rede Cargo Sous Terrain deve cobrir toda a região do planalto central da Suíça. Entretanto, o primeiro objetivo é construir uma rota entre Härkingen e Zurique. cst.ch

A rede Cargo Sous Terrain se estenderia então a todo o planalto suíço. Mas o primeiro passo é a construção da linha Härkingen-Zurich.

O túnel deve ter três passagens ou faixas separadas: uma para cada direção e outra para trabalhos de serviço e manutenção colocada no meio.

Veículos autônomos

Para o transporte das mercadorias, serão utilizados veículos autônomos movidos a eletricidade. Estes viajarão a uma velocidade constante de 30 km/h. Cada um deles pode levar uma carga de dois paletes. Se necessário, os contêineres podem ser refrigerados. Logo abaixo do teto do túnel, o sistema também terá um cabo aéreo que funcionará no dobro da velocidade para o transporte rápido de pequenos pacotes ou quantidades de mercadorias.

Além de diminuir o peso do transporte rodoviário e ferroviário, espera-se que este projeto dê uma contribuição ambiental positiva. Um estudo encomendado pela CST revelou que este "sistema de metrô" (incluindo o transporte até os centros e a distribuição) reduziria pela metade as emissões de CO2 da atual combinação de 90% de transporte rodoviário e 10% ferroviário.

Transporte de carga em constante crescimento

Entre 2000 e 2018, o transporte rodoviário e ferroviário de carga cresceu quase continuamente: as toneladas-quilômetros (uma unidade de medida que se aplica ao transporte de carga e combina o número de toneladas transportadas e a distância) cresceram 19%, para 27,9 bilhões.

Este crescimento deve continuar, de acordo com o Departamento Federal de Desenvolvimento Territorial. "O volume anual de tráfego rodoviário e ferroviário aumentará de 407 milhões de toneladas em 2010 para 516 milhões de toneladas em 2030, enquanto o desempenho do transporte aumentará de 27 para 33 bilhões de toneladas-quilômetros por ano no mesmo período", diz o comunicado do Governo.

Dada a pressão sobre a infraestrutura rodoviária e ferroviária existente e a dificuldade em construir novas, especialmente em um contexto já altamente urbanizado como o planalto suíço, soluções alternativas devem ser encontradas. O projeto Cargo Sous Terrain é uma delas.

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Adaptação: Fernando Hirschy

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