The Swiss voice in the world since 1935

Na Suíça, uma basílica medieval preserva o órgão mais antigo do mundo

O órgão da catedral Notre-Dame de Valère, em Sion, remonta ao século XV, tornando-o o órgão mais antigo do mundo ainda em funcionamento. Poupado pelo fogo e pela guerra, ele ainda atrai amantes de música de todo o mundo.

Homem sentado em frente ao teclado de um órgão
O organista Edmond Voeffray é responsável pelo grupo de organistas credenciados de Valère. Céline Stegmüller / SWI swissinfo.ch

Erguendo-se majestosamente no topo de uma colina, a Basílica de Notre-Dame de Valère, antiga residência de cônegos, domina a cidade de Sion, capital do cantão do Valais, no sudoeste da Suíça. Aqui, a história se desenrola em uma geografia mística e sagrada.

Construída no século XII, Notre-Dame guarda um tesouro: o órgão mais antigo do mundo ainda em funcionamento. Este instrumento, que remonta à década de 1430, deve sua sobrevivência ao que poderia ser chamado de um milagre.

Restaurado e embelezado ao longo dos anos, assim como a basílica que o abriga, ele é objeto de curiosidade internacional. “Se eu disser que sou do Valais, as pessoas dirão: ‘Ah, Valère’”, diz Edmond Voeffray, organista da Notre-Dame e coautor do guia publicado pela Sociedade Suíça de História da Arte em agosto passado, intitulado “Les orgues du Valais: itinéraire d’un patrimoine vivant” (Os órgãos do Valais: um itinerário do patrimônio vivo).

Fabricante desconhecido

O cantão do Valais tem 250 órgãos. O guia destaca 20 deles, testemunhas de 600 anos de história. Entre os 20 destacados está, naturalmente, o órgão de Valère, que chama a atenção dos leitores e visitantes.

“É o destino deste órgão que o torna uma exceção na Suíça e mesmo além das nossas fronteiras. Ele tem uma tradição da Borgonha, mas não sabemos quem o fabricou. Temos poucos registros sobre o assunto”, explica Voeffray.

“O que sabemos é que ele foi salvo do fogo, junto com a basílica, por um fator meteorológico: a direção do vento que poupou a colina de Valère, mas destruiu Sion, durante um incêndio no final do século XVIII.”

O órgão foi poupado pelas chamas, mas também pelas guerras e disputas internas que devastaram a Europa. “Especialmente a Revolução Francesa, que levou à destruição de muitas igrejas e seus órgãos. A Suíça também sofreu, mas o acesso à colina de Valère era muito difícil na época, o que de certa forma protegeu a basílica e suas obras de arte”, conta.

O valor patrimonial do órgão não se limita à sua idade. É também iconográfico. Com seus dois painéis, um à esquerda e outro à direita dos tubos, o órgão reflete uma parte da fé cristã. À esquerda, o casamento místico de Santa Catarina, padroeira de Valère. À direita, Maria Madalena encontrando o Cristo ressuscitado. O autor dessas pinturas foi Peter Maggenberg (c. 1380-1463), de Friburgo.

O órgão da Basílica de Valère
Em 2022, o órgão foi afinado em temperamento mesotônico, uma característica distintiva deste instrumento. Céline Stegmüller / SWI swissinfo.ch

Os Carlens e os Walpens

Os países germânicos têm uma grande tradição em órgãos. “Dito isto, a Reforma Protestante em nosso país causou muitos danos aos órgãos, chegando ao ponto de descrevê-los como ‘gaitas do diabo’. Pior ainda, Calvino e Ulrich Zwingli mandaram destruir órgãos em Genebra e Zurique, respectivamente”, diz Voeffray com pesar.

O Valais, um cantão muito católico, viu a construção de órgãos florescer, particularmente no início do século XVIII. Duas famílias do Valais, primas entre si, se destacaram neste campo: os Carlens e os Walpens. Eles “aceitaram quase todas as encomendas e estabeleceram uma verdadeira tradição valaisana, que foi exportada até a Sabóia e a vizinha Itália”, segundo o guia. A dinastia Carlen continuou a operar do outro lado do Atlântico, em Chicago, onde um de seus descendentes se estabeleceu. Ela chegou ao fim em 1960.

Nesse mesmo ano, Hans-Jakob Füglister, de Zurique, fundou a fábrica de órgãos Fuglister em Arbaz, acima de Sion. Até hoje, ela goza de reputação internacional pela restauração de instrumentos antigos e pela fabricação de novos órgãos.

Notas sacras e seculares

Inúmeros fiéis e visitantes de todas as nacionalidades acorrem à Notre-Dame, atraídos em particular pelo órgão. Em 1969, foi criado o Festival Internacional de Órgão de Valère. Todos os anos, ele recebe inúmeros fãs.

“Durante o festival, recebemos pedidos de organistas de todo o mundo que querem se apresentar aqui”, diz Voeffray.

Público sentado numa igreja a ouvir um concerto de órgão.
Todos os anos, a Basílica de Valère recebe um público internacional para o seu festival de órgão. Festival international de l’orgue de Valère

Que tipo de música é tocada no órgão, secular ou sacra? “A fronteira entre as duas continua indefinida”, responde ele, citando a “Marcha Nupcial” de Mendelssohn, frequentemente tocada em casamentos religiosos. “As pessoas pensam que é música religiosa, mas Mendelssohn a compôs para uma apresentação da peça Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare”, explica.

Quase todos os grandes compositores europeus, especialmente os dos séculos XVII e XVIII, eram organistas. Mas nem todos escreveram partituras exclusivamente religiosas. “Na Suíça, os compositores de órgão são contemporâneos. É difícil encontrá-los se voltarmos no tempo. Quando quero tocar música do Valais para órgão, tenho que procurá-la no repertório do século XX”, diz Voeffray.

Edição: Samuel Jaberg
Adaptação: Fernando Hirschy

Mais lidos

Os mais discutidos

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR