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Africanos do leste correm para existir

O etíope Kenenisa Bekele foi o primeiro atleta da história a vencer as provas de 5 mil e 10 mil metros, no Mundial de Berlim.

Os atletas da África do Leste dominam certas disciplinas do atletismo mundial há meio século. Essa dominação intriga muitos especialistas.

Reportagem no vale do Rift, no Quênia, para tentar revelar o segredo do sucesso dos fundistas africanos.

Em Eldoret, cidade queniana no vale do Rift, toda manhã, antes do nascer do sol, já tem gente correndo pelas ruas de terra vermelha. Eles partem em pequenos grupos, em ritmo tranquilo, antes de uma disputa infernal a um ritmo mais que acelerado.

Trezentos e sessenta e cinco dias por ano, o ritual é o mesmo. Eldoret, como Iten e Nyahururu, na mesma região, poderiam ser cidades banais do Quênia. Mas aqui, mais do que em qualquer outro lugar do mundo, há uma densidade excepcional de medalhas mundiais e olímpicas de atletismo.


Kipchoge Keino, o pioneiro, começou aqui no final dos anos 1960, nas terras da etnia kalenjin, celeiro da maioria dos campeões. Kip Keino, John Ngugi, Moses Kiptanui, Paul Tergat ou Wilson Kipketer, que tornou-se dinamarquês, são kalengin.

Os quenianos, mas também os eritreus, os etíopes, os ugandeses e os tanzanianos estão entre os melhores fundistas e semi-fundistas do mundo. Por exemplo, nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, eles subiram em todos os pódios, dos 800 m à maratona.

Uma concentração de campeões

No recente Mundial de Berlim, o etíope Kenenisa Bekele, originário do vale do Rift, tornou-se o primeiro atleta a ganhar as duas provas , de 5 mil e 10 mil metros. Em cross-country, o Quênia ou a Etiópia são campões do mundo por equipe todo ano, desde 1981 no masculino, e desde 1995 no feminino. Em lugar nenhum, encontra-se a mesma concentração de campeões como nessa região do Quênia, não muito distante do lago Vitória.

Em Iten, perto de Eldonret, um homem viu desfilar a 30 anos centenas de jornalistas, sempre com a mesma pergunta: “Por que eles são tão fortes?” Esse homem – Irmão Colm O’Connell, vindo da Irlanda nos anos 1970 como professor – viveu a transformação do Quênia, antiga colônia britânica, em um país de campeões.

Aliás, bem em frente sua escola, um cartaz avisa os automobilistas para o risco de crianças que “correm” e não que “atravessam” a rua.

Irmão Colm conheceu e treinou dezenas de campeões. Na cantina da escola, uma parece é decorada com fotos amareladas de celebridades. As maiores têm uma árvore plantada no pátio que serve de recreio.

O irlandês viu passar por ali treinadores e cientistas em busca de explicações. A morfologia é uma das razões, mas não a única.

Não é só genética

“É difícil afirmar que a genética é a única razão da dominação deles. Os genes se exprimem em seu modo de vida, a morfologia, a mentalidade e outras coisas.

Cientistas da Universidade de Copenhague vieram aqui e compararam a barriga da perna de jovens quenianos com as de dinamarqueses. Fizeram uma bateria de testes sobre os glóbulos vermelhos e a capacidade de absorção de oxigênio.”
Colm acrescenta que “jamais ninguém conseguiu encontrar um único fator decisivo.” Para ele, o sucesso atual nada tem de misterioso: o treinamento, simplesmente.

Boris Gojanovic, médico esportivo na Suíça e triatleta amado, tem a mesma opinião: “outras regiões do globo, como nos Andes ou no Himalaia, propiciam condições de treinamento similares. Mas no vale do Rift, correr faz parte da cultura local. Mesmo se o genoma tem certamente um papel, os fatores sociais ou culturais são bem mais importantes.”

Uma cultura da corrida

Para as crianças do vale do Rift, os sucessos de Paul Tergat e Cia, que se tornaram verdadeiros homens de negócios, servem de modelo, não unicamente pelo dinheiro: existe também uma cultura da corrida que leva a imitar as dezenas de campeões precedentes.

Portanto, a questão nem é colocada: corre-se porque é um meio de ser alguém. A partir daí, explica o religioso irlandês, eles são os melhores porque treinam muito, em condições difíceis mas ideais para a resistência, particularmente por causa da altitude (2100 m).

Mesmo no fim do treino, quando estão estafados, sempre aparece um para acelerar novamente. Essa mentalidade contribui para fazer deles verdadeiras máquinas de recordes e de vitórias. A Federação Internacional de Atletismo tem um centro de treinamento em Eldoret e o Catar prometeu construir uma pista sintética em troca da naturalização de um corredor queniano.

Correr, comer, dormir

No Quênia, o salário médio mensal é de 50 euros. Em uma competição na Europa ou nos Estados Unidos, um atleta e seu empresário podem ganhar dezenas de vezes essa soma. No vale do Rift, muitos moços e moças, habituados a correr desde criança para ir à escola, passar a treinar cada vez mais.

Entre dois ou três treinos diários que acabam dando um total de mais 200 km por semana, os atletas retornam aos seus quartos para comer e dormir. Não somente eles treinam mais que os ocidentais, mas também descansam muito. É correr, comer, dormir, sete vezes por semana.

Eles não têm medo de nada e não fixam qualquer limite. Assim, o tanzaniano Faustin Baha, 27 anos, vice-campeão mundial de meia maratona em 2000, atrás do queniano Paul Tergat, corre desde 1993 e diz que ainda vai correr mais 10 anos. Ele tem projetos e conta com o dinheiro das corridas.

O império colossal de Gebreselassie

“Quero construir uma escola para as crianças. Tenho um terreno de dez hectares, mas me falta dinheiro para construir. Minha mãe vive sozinha no vilarejo. Todo dia, para buscar água, ele deve andar dez kms. Quero colocar água no vilarejo, mas para isso também preciso de dinheiro.”

Alguns tornaram-se riquíssimos, como Gebreselassie, à frente de um império colossal que emprega centenas de etíopes e que pretende entrar na política. A maioria quer ajudar seus familiares ou sua região de origem. Tegla Laroupe, campeã do mundo de maratona dez anos atrás, financiou os estudos de suas irmãs em universidades nos Estados Unidos e criou uma fundação para angariar fundos e construir orfanatos em sua região natal.


Arnaud Bébien, Kenya, Infosud/Syfia/swissinfo.ch

Varias hipóteses circulam há anos acerca das causas da dominação total dos atletas originários do Vale do Rift. Algumas delas:

Morfológicas. Segundo o pesquisador dinamarquês Bengt Saltin, a explicação está na morfologia dos corredores leste-africanos, que teriam músculos mais finos na barriga da perda, melhor adaptados à corrida.

Físicas. Les coureurs africains supporteraient mieux la déshydratation. En perdant de l’eau, donc du poids, ils seraient plus rapides en fin de course. L’altitude (entre 1800 et 3000m) leur permettrait de consommer de l’oxygène avec un rendement supérieur. Grâce à un entraînement particulier, ils auraient également développé des fibres musculaires intermédiaires entre lentes et rapides, idéales pour la course à pied.

Culturais. As crianças etíopes e quenianas são frequentemente obrigadas a correr para ir às escolas situadas a km de distância. Correr, posteriormente, é uma maneira de ascensão social. As rivalidades tribais ou familiares estimulariam o espírito de combatividade que se manifesta na corrida.

Genéticas. Os fatores culturais também influenciariam a evolução do genoma das tribos do vale do Rift. “Os jovens percorriam certas distâncias para roubar gado das outras tribus. Os melhores corredores eram favorecidos socialmente, se casavam mais facilmente e tinham mais filhos. Havia então uma seleção genética”, explica o dr. suíço Boris Gojanovic.

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