A suíça que ajuda a salvar os cães da Serra da Estrela

Uma jovem suíça largou o emprego de aeromoça para viver em Angola com o marido português. O destino levou-a à Portugal, onde começou a criar os cães da Serra da Estrela, uma tradição quase esquecida. A pandemia chegou e até aumentou a procura pelos filhotes dessa raça robusta e valente.

Este conteúdo foi publicado em 24. setembro 2020 - 10:00
Filipe Carvalho
Suzette Preiswerk com o seu cão "Lótus" no Canil da Quinta de São Fernando. swissinfo.ch

A nossa entrevistada Suzette Preiswerk da Mota Veiga aterrou em Manteigas, Serra da Estrela, em 1975. Depois de trabalhar alguns anos como aeromoça da companhia aérea suíça Swissair.

Ela se recorda uma sociedade conservadora a que encontrou na vila serrana. A sua paixão pelos cães levou-a a descobrir o cão Serra da Estrela e a desenvolver uma estreita relação com os animais até que, em 1987, deu início ao Canil da Quinta de São Fernando.

Pouco mais de 40 anos passados, Suzette tornou-se a mais velha criadora de cães de raça Serra da Estrela. A swissinfo.ch encontrou-a na Quinta de São Fernando onde conhecemos os seus cães peludos.

Uma aeromoça desembarca

Suzette Preiswerk da Mota Veiga nasceu em Basileia em 1941. Em plenos anos 1960,"os anos gloriosos", como apelida, teve o seu primeiro emprego administrativo na empresa de construção civil do seu pai, mas cedo percebeu que não poderia ficar naquele lugar. Na Itália, ali ao lado, teve uma estadia prolongada, onde aprendeu a língua em Florença e trabalhou como intérprete em feiras e exposições, em Milão.

De regresso à Suíça, Suzette agarrou a oportunidade de trabalhar na Swissair como aeromoça. Recorda as viagens para o Paquistão, Índia, Indonésia, Japão, Grécia enquanto folheia um álbum de fotografias que guarda cuidadosamente na estante. Durante cerca de três anos voou sem restrições. Até que um dia inesperado, um português pediu-a em casamento e convidou-a para viajar rumo a outras paragens.

De Angola para Manteigas

A nossa entrevistada passou primeiro por Portugal, mas foi em Angola que passou cerca de três anos após o casamento. Conta-nos que esteve na plantação de sisal, usado normalmente para o fabrico de cordas grossas, em Malongo, que o seu sogro tinha começado vários anos antes. Contudo, quando foram para Portugal, aconteceu o 25 de abril e todo o momento conturbado levou-os a optar por se fixarem em Manteigas, terra de onde a família do seu companheiro era oriunda.

Em 1975 ainda era comum escutar as senhoras a cochichar:"a quem é que pertence esta?". Suzette partilha que os sogros, quando o filho lhes mostrou uma fotografia dela, comentaram:"Não achas que tem a saia um pouco curta demais? Eu que vinha da Swissair, muito viajada, era normal. Mas depois conheceram-me e foram sempre muito amáveis. Eram duas mentalidades diferentes porque eles eram muito conservadores".

A pandemia não afetou a procura dos cães... Talvez porque as pessoas estejam mais tempo em casa, sentem a falta. Tenho mais pedidos do que cães disponíveis...

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Na Serra da Estrela,"não tinha hipótese de trabalhar na profissão, então, como sempre gostei de cães, comecei a procurar fazer criação aos poucos". Suzette começou, assim, a interessar-se pelo cão Serra da Estrela.

O primeiro cão que teve, já com perspectivas de criação, chamava-se Gingão, comprado a um senhor de Seia, e contava com alguns prémios no currículo. "Eu tinha aqui uma fêmea e fui cruzá-la com esse cão. Depois tive o meu primeiro cão, o Bolero, e a partir daí comecei a ter os meus cães. De vez em quando, vou buscar sangue dos outros para melhorar".

Uma raça quase esquecida

“Uma pessoa faz uma ninhada não pode guardar os cães todos, tem de vender os cães se não hoje tenho oito e começa-se tudo a multiplicar em pouco tempo". Por isso, Suzette da Mota Veiga decidiu abrir oficialmente o Canil da Quinta de São Fernando, em 1987.

Uma das principais características dos cães da Serra da Estrelé ser um excelente guarda e muito inteligente. Contudo, também são teimosos. swissinfo.ch

“Quando comecei, o cão Serra da Estrela estava muito esquecido. O senhor António Lourenço, de Gouveia, começou a alertar para os cuidados na preservação da raça". Como o cão Serra da Estrela esteve sempre mais associado à pastorícia, os cães de pelo curto eram mais comuns. Mas com o declínio dessa atividade, os cães passaram a funcionar como guardas das quintas o que levou a um aumento dos cães de pelo comprido por serem considerados mais vistosos e bonitos.

Uma das principais características desta raça é ser um excelente guarda e muito inteligente. Contudo, também são teimosos. Em virtude de ter sido criado para o trabalho independente, sem estar sob o olhar humano, não precisam de nenhum treino especial apenas" de aprender a andar com trela enquanto são ainda cachorros". Os cães Serra da Estrela são, por isso, independentes e territoriais.

Suzette relembra que é importante conhecer a raça para que consiga identificar um bom cachorro. "A cabeça bem formada, o corpo ter osso, patas largas em relação à dimensão do corpo, significa que vai ser um cão grande". No entanto, às vezes os cães crescem e adquirem alguma má formação seja na dentição ou de outro género. Nesse momento, "temos de arranjar um novo cachorro e começar de novo. Isto é a seleção".

Cães companheiros

Suzette da Mota Veiga assume que "a pandemia não afetou a procura dos cães, pelo contrário. Talvez porque as pessoas estejam mais tempo em casa, sentem a falta. Eu tenho mais pedidos do que cães disponíveis". A próxima ninhada só vai nascer entre outubro e novembro, mas já tem uma lista de interessados e assim que nascerem, entra em contacto com as pessoas.

Cada cachorro é vendido em Portugal por cerca de 500 euros até aos dois meses de idade. Após esse tempo, não se encontram compradores para os cães. Aconselha que as pessoas devem deslocar-se até à quinta ou, então, encontrar uma companhia de transportes de confiança para levar o cão em segurança.

Cerca de dois terços das vendas são para Portugal e o restante para o estrangeiro. França é o país que mais gosta de Serras da Estrela, "talvez o fato de ter muitos portugueses tenha ajudado, mas os franceses também gostam da raça, apesar já não haver criadores de cães no país". Também costuma vender para os países escandinavos, Alemanha, Holanda, Bélgica, entre outros.

Suzette diz-nos que já tem vendido cães para a Suíça, e que fica "muito contente quando um suíço quer um cão Serra da Estrela", mas admite que não é o país ideal para um cão de grande porte, que necessita de espaço. "Dois terços da Suíça são montanhas, glaciares, e apenas um terço é habitado. As pessoas vivem em aglomerados urbanos, é raro ter uma casa com terreno, e, depois, o cão ladra e incomoda".

Cuidar e divulgar o canil

Neste momento, estão 15 cães no Canil da Quinta de São Fernando. Todas as manhãs, desloca-se ao recinto para limpar os espaços de cada cão, meter água fresca, dar comida, escovar o pelo dos cães, verificar se há necessidade de concertar alguma estrutura, "geralmente isso ocupa-me a manhã inteira". Tem uma empregada que a acompanha nessas funções e que aprende também a examinar os cães, "verificar se têm feridas nas patas ou outro tipo de problema para além de os animais a conhecerem".

Toda a divulgação do seu canil passa principalmente pela sua página de Facebook e na internet. Reconhece ser importante fazer uma boa divulgação do canil, "tem de se investir nisso porque se não ninguém vai saber que há para vender num determinado lugar". O facto de falar várias línguas também lhe permite expandir o negócio, "é uma vantagem falar em alemão e em francês com nativos dessas línguas".

Na sua opinião, as exposições de beleza também são importantes. "Este ano, por causa da pandemia, não houve nenhuma. Em princípio haverá uma em setembro, na vila de Alpedrinha, Fundão". Habitualmente, costuma frequentar cerca de cinco exposições caninas anualmente, incluindo no estrangeiro, principalmente em França.

As próximas ninhadas

Suzette Preiswerk da Mota Veiga é a criadora mais antiga de cães Serra da Estrela. Pensar em abandonar a criação não está nos seus planos. "Continuar enquanto a minha saúde me permitir. Ter o pensamento positivo, nunca ficar no negativo", realça.

Assume que algumas pessoas acham uma loucura uma mulher de 80 anos comprar um cachorro para criação, mas "não posso pensar que vou morrer brevemente. Não me sinto perto da morte. Sinto-me bem de saúde, por isso, vou continuar normalmente".

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