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Bancos precisam pensar ecologicamente ou correm o risco de entrar em extinção

As instituições financeiras devem ter cuidado para não serem consumidas pelas consequências de decisões ambientais ou sociais irresponsáveis. Keystone / Rank Augstein

A mudança climática está forçando o setor financeiro a mudar sua maneira de pensar e agir. Isso pode ter um grande impacto no seu balanço empresarial – e, potencialmente, na sua própria sobrevivência. 

Este conteúdo foi publicado em 20. julho 2021 - 11:00

“Os banqueiros não são mais puramente especialistas financeiros, mas também experts na pegada ambiental e social dos investimentos”, afirmou Yves Mirabaud em seu último discurso como presidente da Associação dos Bancos Privados Suíços, em junho.

Sua fala ocorreu logo após a agência reguladora do mercado financeiro suíço, FINMALink externo, ter determinado que os bancos e seguradoras “informem adequadamente o público sobre seus riscos [climáticos]”. As empresas poderão se autorregular, o que é tradicional na Suíça, mas a FINMA exige uma divulgação completa de seus métodos contábeis.

A mudança climática traz consigo vários riscos para o setor financeiro. Os perigos de desastres naturais, como furacões e enchentes, são evidentes para o setor de seguros. Os bancos também podem se ver expostos a riscos de reputação ou processos judiciais se financiarem projetos poluidores. Tudo isso está afetando a forma como os banqueiros trabalham e processam riscos. 

As métricas tradicionais de “avaliação de risco versus retorno de investimento” estão sendo agora gradualmente adaptadas para incorporar fatores ambientais e sociais. Os atores financeiros estão começando até mesmo a fiscalizar as empresas nas quais investem.

Se um banco vende suas ações numa empresa poluidora, elas simplesmente serão compradas por investidores menos escrupulosos, argumenta Mirabaud. “É melhor, como credor ou acionista, exercer pressão sobre essa empresa para que adote um modelo de negócios mais limpo”, diz ele.

A mudança está a caminho?

Grupos de ativistas regularmente entram em contato com os bancos suíços para prestar contas das empresas e projetos que causam danos ambientais. A lista inclui o desmatamento na Bacia AmazônicaLink externo e em outras partes do mundo, o derramamento de óleo da Norislk-Taimyr Energy na Sibéria e o controverso projeto do oleoduto no estado americano de Dakota do Norte.

Nada disso combina com a intenção declarada da Suíça de se tornar um dos centros de finanças sustentáveis mais proeminentes do mundo.

Mudanças no sentimento dos investidores e nas atividades comerciais também poderiam expor os mercados financeiros a “mudanças na oferta e na demanda por certas commodities, produtos e serviços”, diz a Força-tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFDLink externo, em inglês). Investimentos tradicionalmente seguros – em projetos de energia, por exemplo – podem se tornar indesejáveis no futuro.

A TCFD foi criada pelo Conselho de Estabilidade Financeira para ajudar os atores financeiros a ajustar sua governança, estratégia, gestão de risco e práticas de estabelecimento de metas à luz das crescentes preocupações climáticas. O setor financeiro suíço aplica as normas da TCFD ao avaliar os riscos relacionados ao clima.

As recentes exigências da FINMA para que os bancos divulguem integralmente seus riscos climáticos podem não ser tão fáceis de implementar, diz Martin Raab, membro do conselho da startup de tecnologia financeira Global Green Xchange.

“Muitos elementos do risco climático ainda são esotéricos e desconhecidos”, disse ele à SWI swissinfo.ch. “Se houver uma catástrofe de enchentes na Itália ou se parte da costa holandesa desaparecer, qual será o verdadeiro impacto no balanço patrimonial de um banco? Como um verão mais seco pode afetar a qualidade de crédito dos empréstimos suíços? Não há uma resposta mensurável e correta”.

Custos mais altos

O WWF Suíça elogiou as novas exigências regulamentares, mas disse que “lamenta” a relutância da FINMA em impor padrões vinculativos para a prestação de contas. “Sem diretrizes claras, os dados divulgados irão variar substancialmente de uma instituição para outra. Assim, a comparabilidade e, em última instância, a avaliação dos riscos financeiros relacionados ao clima divulgados serão fortemente prejudicadas”.

A ONG ambiental também pediu à FINMA que estendesse a obrigação de apresentar relatórios para além das maiores instituições financeiras da Suíça.

A Associação Suíça de Banqueiros (SBA, em inglês) disse à SWI swissinfo.ch que prevê a incorporação dos bancos menores às exigências de relatórios de risco climático da FINMA no momento certo. Dos cinco maiores bancos atualmente contemplados pela exigência, apenas o PostFinance ainda não usa o modelo TCFD para relatar o risco climático. Entretanto, a SBA ainda prevê algum “esforço adicional” para atender plenamente às exigências da FINMA.

Para Martin Nerlinger, professor da Escola de Finanças da Universidade de St. Gallen, delegar ainda mais atividades aos departamentos de compliance (departamento de conformidade com as normas) dos bancos, que já estão inchados, provavelmente resultará num aumento de custos.

“Esse será um processo de alto custo que requer investimento em pessoal treinado, além de estabelecimento ou expansão de procedimentos e sistemas de TI”, disse ele. Talvez a FINMA também precise de reforço para avaliar as novas remessas de dados que estão sendo apresentadas pelos atores financeiros, acrescentou ele.

Lucros a serem ganhos

Por outro lado, é necessário financiamento para atingir os objetivos do acordo climático de Paris – vários trilhões de dólares a cada ano até pelo menos 2030, de acordo com a OCDE e o Banco Mundial.

Há, ainda, lucros a serem obtidos com a reconstrução da infraestrutura, a emissão de títulos e fundos verdes e o apoio a inovações em fontes alternativas de energia.

Há evidências de que, ao longo do tempo, o investimento sustentável pode ser menos volátil e oferecer maior certeza aos investidores do que os investimentos tradicionais, disse a Secretária de Estado das Finanças Internacionais da Suíça, Daniela Stoffel, em uma conferência organizada pela Associação dos Bancos Privados Suíços neste mês.

Zeno Staub, CEO do banco Vontobel, acrescenta ainda que ganhar dinheiro aplicando critérios ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG) a cada decisão de investimento é “a única estratégia vencedora” para fazer das finanças sustentáveis um sucesso.

Adaptação: Clarice Dominguez

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