Um relógio inteligente "Made in Switzerland" e feito para durar

O T-Touch Connect Solar é resultado de mais de 35 patentes registradas. RTS

Cinco anos após o lançamento do Apple Watch, o fabricante suíço Tissot lança o modelo "T-Touch Connect Solar", o primeiro relógio inteligente "Swiss Made". A reação às novas tendências é resultado de uma parceria com um centro de pesquisa em Neuchâtel. Seu diretor, Mario El-Khoury, explica como a ciência ajuda a encontrar o relógio quase perfeito.

Este conteúdo foi publicado em 01. outubro 2020 - 11:15

O lançamento do primeiro modelo "inteligente" do grupo Swatch, o maior fabricante de relógios do mundo, marca um marco importante para a indústria suíça. Desde o lançamento do relógio Apple Watch em 2015, não eram poucos os que criticavam os relojoeiros suíços pela sua inatividade e incapacidade de renovação. O fato é que muitas empresas estavam relutantes em investir em um mercado já amplamente dominado pelos gigantes tecnológicos dos EUA e Ásia.

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Esperado há muito tempo, o primeiro relógio inteligente fabricado na Suíça foi oficialmente lançado em 7 de setembro e nos próximos meses estará gradualmente à venda no mercado internacional. A marca Tissot, que pertence à Swatch, espera atingir quase 10% de suas vendas com o modelo, cujo preço recomendado é de 995 francos. O T-Touch Connect Solar é resultado de mais de seis anos de trabalho, 35 milhões de francos de investimento e 35 patentes registradas internacionalmente.

O relógio é obra de uma cooperação com técnicos do Centro Suíço de Eletrônica e Microtecnologia em Neuchâtel (CSEM), um instituto de pesquisa especializado na transferência de tecnologia para a indústria, onde trabalham mais de 500 funcionários.  

Um relógio quase 100% "Swiss Made

O T-Touch Connect Solar da Tissot é o primeiro relógio conectado equipado com um sistema operacional projetado na Suíça, o chamado "Sistema Autônomo Suíço de Baixa Potência (SwALPS). Todas as partes do relógio, com exceção da pulseira, são produzidas no país em oficinas da Swatch. O novo modelo é compatível com os sistemas operacionais móveis iOS, Android e, em breve, Harmony OS.

Em comparação com os concorrentes produzidos pela Huawei, Samsung, Apple ou Tag Heuer, o T-Touch Connect Solar oferece poucas funcionalidades. Ele apenas exibe notificações em uma área relativamente pequena na parte inferior da tela. Quando está desconectado, tem as características clássicas do Solar T-Touch: um calendário perpétuo, contador regressivo, cronômetros, alarmes, previsão do tempo e altímetro.  

Mario El-Khoury, diretor do Centro Suíço de Eletrônica e Microtécnica em Neuchâtel. Keystone / Peter Klaunzer

swissinfo.ch: O que significa para você o lançamento do primeiro relógio inteligente fabricado na Suíça e desenvolvido em colaboração com um centro de pesquisas?

Mario El-Khoury: Sinto um grande orgulho. Também acredito que todos os colegas que trabalharam neste projeto sentem o mesmo. Nada menos que 30 pessoas estiveram envolvidas, durante quatro anos, no desenvolvimento de um sistema operacional sob medida e de um relógio com coletores solares eficientes em termos energéticos. Estas inovações foram então integradas no projeto de um relógio suíço. Depois passamos do protótipo para a fase de produção. Eram dois grandes desafios.

Nós atendemos o chamado e cumprimos nossa missão, que é fornecer à indústria suíça as melhores tecnologias necessárias e, dessa forma, manter os empregos na indústria do país. O projeto foi concluído com sucesso em uma área altamente sensível para a indústria relojoeira.

swissinfo.ch: Você acredita que agora a indústria relojoeira da Suíça vai dar a volta por cima?

M.E.: Eu não me arriscaria fazer previsões. Em todo caso, acho que é um passo para frente para a Swatch, que teve que investir enormemente no campo da digitalização. Esse relógio inteligente ocupa um nicho que corresponde à história e tradição inovadora da indústria relojoeira suíça.

swissinfo.ch: O lançamento do Tissot ocorre cinco anos após o lançamento do Apple Watch. A indústria relojoeira suíça não se atrasou um pouco?

M.E.: Claro, eu teria preferido ver o relógio chegar mais cedo ao mercado, mas não é certo dizer que estamos atrasados, pois suas características, em particular a autonomia, são diferentes de qualquer outro modelo já existente no mercado.

Certamente poderíamos ter encurtado um pouco o tempo de desenvolvimento, mas a Swatch não queria fazer concessões, seja em termos de estética, qualidade ou autonomia do relógio. O Tissot T-Touch Connect não é um produto que sairá de moda após dois anos de uso ou que se torna ultrapassado, pois seus microprocessadores não conseguem mais acompanhar o desenvolvimento. O relógio é feito para durar.

swissinfo.ch: O Tissot T-Touch Connect oferece poucas funcionalidades. Ele será realmente capaz de competir com o Apple Watch ou os relógios com Android desenvolvidos pela Samsung ou Huawei?

M.E.: Não podemos comparar maçãs com peras. Não é tarefa dos relojoeiros suíços fabricar smartphones que cabem no pulso ou vender grandes volumes, fazendo pressão para baixas os custos de produção.

O Tissot T-Touch Connect foi projetado para pessoas que querem ter um relógio suíço com boa estética e, ao mesmo tempo, poder contar com algumas funcionalidades como como notificações de mensagens e chamadas. É um nicho de mercado, mas que está no DNA dos relojoeiros suíços.

O sistema operacional também pode ser expandido. Ele poderia gerenciar uma multiplicidade de outros dados (localização geográfica, rota, temperatura, etc.) a partir do momento que os aplicativos sejam desenvolvidos pela Tissot.

swissinfo.ch: Por que a Swatch chamou você para desenvolver esse relógio inteligente?

M.E.: Foi uma escolha óbvia. Além da proximidade geográfica (n.r.: tanto o CSEM quanto a Tissot estão localizadas no cantão de Neuchâtel), somos líderes mundiais, tanto em sistemas eletrônicos de baixa energia, como na recuperação de energia solar através de células fotovoltaicas de alta eficiência.

A autonomia é o principal trunfo do novo relógio. É o que mais o diferencia de seus concorrentes presentes no mercado. A Swatch anuncia uma autonomia de seis meses, mas acredito que as pessoas que fazem pouco uso da função de conexão devem ser capazes de usar o relógio por mais de cinco anos sem nunca ter de recarregá-lo.

swissinfo.ch: Os desenvolvimentos necessários para criar o relógio podem ser úteis em outros campos industriais?

M.E.: Sim, estes quatro anos de colaboração com a Swatch nos permitiram aumentar ainda mais nosso conhecimento sobre objetos portáteis que operam com poucos recursos energéticos. Estes poderiam ser muito uteis no desenvolvimento de aparelhos auditivos ou outros objetos portáteis.

>> Reportagem do canal suíço de televisão RTS sobre o novo relógio inteligente da Tissot:

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