Genebra continua o centro do mundo?

Coronavírus denominado "teste decisivo" para o sistema da ONU  

Jornalistas em uma coletiva de imprensa sobre Covid-19 na Organização Mundial de Saúde (OMS), em Genebra, em 6 de Março. Martial Trezzini/Keystone

A pandemia está testando os limites do sistema das Nações Unidas, afirmam especialistas em Genebra e Nova Iorque, em meio a desafios de financiamento e o jogo contínuo de culpabilização entre os Estados Unidos e China. 

A ONU comemora atualmente seu 75º aniversário. O que poderia ser um momento de celebração, se tornou um ano de crise. O secretário-geral desde 2017, António Guterres, definiu a situação da pandemia como a crise mais difícil que a ONU já enfrentou desde II Guerra Mundial".

A Organização Mundial de Saúde (OMS), sediada em Genebra, tem desempenhado um papel de liderança na luta contra o vírus, apesar dos ataques que sofre, mais recentemente por parte do presidente americano Donald Trump devido à sua posição em relação à China. Outras agências das Nações Unidas e organizações internacionais também lutam para agir frente ao "lockdown", ou seja, o bloqueio total de movimentação em muitos países.

A resposta dos países-membros à pandemia tem sido em grande parte a aplicação de medida unilaterais. O Conselho de Segurança das Nações Unidas também não se pronunciou. Sua primeira reunião ocorreu por videoconferência em 9 de abril e, posteriormente, se limitou a emitir uma declaração de apoio aos esforços de Guterres e clamou pela necessidade de unidade. 

Em duas entrevistas separadas, Richard Gowan (ONG Grupo de Crises Internacionais, voltada à resolução e prevenção de conflitos armados internacionais) e Thomas Biersteker, professor de relações internacionais e ciência política Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais em Genebra, partilham suas perspectivas sobre o que está em jogo na resposta da ONU à pandemia.  

swissinfo.ch: A pandemia é realmente o "momento decisivo" para a ONU e o sistema multilateral, como Guterres afirmou? 

Richard Gowan: Sim, é um momento decisivo para a relevância da ONU no século 21. Se os países-membros conseguirem finalmente trabalhar em conjunto para conter a doença e se as agências da ONU puderem desempenhar um papel significativo na coordenação da luta, isso mostrará a importância do multilateralismo. Seria algo fundamental para os países mais pobres e fragilizados, que provavelmente precisarão de muito apoio técnico e econômico para gerir as consequências do Covid-19. No entanto, se os governos não coordenarem e prosseguirem uma abordagem fragmentada e nacionalista para limitar a propagação da doença, muitos concluirão que a ONU perdeu sua relevância. Isso poderá ter consequências negativas para a coordenação em questões, que vão desde as alterações climáticas até os direitos humanos. 

Thomas Biersteker: A reação inicial da maioria dos países parece ser a de fechar suas fronteiras e não se referir ao sistema multilateral. Até um determinado nível, não é algo que surpreenda. O multilateralismo vive definitivamente um momento crítico, mas é demasiado cedo para dizer quais são as implicações. Penso que quanto mais tempo vivermos as consequências desses movimentos descoordenados, mais iremos perceber as limitações de agir apenas em um nível nacional.   

Richard Gowan do grupo Crise Internacional frente às Nações Unidas, em Nova Iorque, International Crisis Group

swissinfo.ch: O que explica a posição passiva do Conselho de Segurança sobre a pandemia? 

R.G.: A maioria dos membros do Conselho de Segurança quer agir em meio à crise, embora seja importante reconhecer que o Conselho não pode, e não deve, tentar substituir a OMS na coordenação dos esforços internacionais para controlar os surtos de doenças. Mas, no mínimo, ele deveria se ocupar do provável impacto da pandemia na estabilidade e segurança em regiões como a África e o Oriente Médio, em linha com o apelo feito pelo secretário-geral de um cessar-fogo global. A principal razão pela qual não o Conselho fracassou em agir é a tensão entre a China e os EUA. Os americanos insistiram que qualquer resolução que possa ser tomada pelo Conselho em relação ao Covid-19 deveria mencionar explicitamente suas origens na China, o que Pequim não concorda. As principais potências do mundo se perdem em um jogo de culpabilização em um momento de crise.  

As principais potências mundiais estão a fazer um jogo de culpas tolo num momento de crise: Richard Gowan

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T.B.: Existe um conservadorismo inerente no Conselho de não ir muito além da linguagem acordada e não ser demasiado inovador. Curiosamente, a China é reticente. Ela é muito protetora da sua soberania e seus líderes reagem de uma forma muito sensível quando se discute a expansão do mandato do Conselho se a autoridade de um Estado está envolvida. Eu suspeitaria que as críticas ofensivas dos EUA fazem com que a China tema se encontrar no lado receptor de uma resolução do Conselho de Segurança, uma vez este que não tem capacidade para bloquear nada. Por isso o Conselho prefere ter uma posição conservadora. Mas é basicamente um jogo de culpabilização entre os EUA e a China, onde os americanos tentam responsabilizar a China, o que dificulta bastante uma cooperação multilateral.  

swissinfo.ch: Fora da alçada do Conselho de Segurança, como foi a resposta internacional à crise até agora, em sua opinião? 

R.G.: O sistema das Nações Unidas foi muito lento em lidar com a dimensão desse desafio. Mesmo em meados de março, muitos funcionários das Nações Unidas em Nova Iorque não pareciam estar totalmente cientes de como a pandemia iria alterar o seu quadro estratégico. Mas Guterres e o sistema da ONU, no seu conjunto, merecem muito crédito por acelerar a sua resposta à crise nas últimas duas ou três semanas. A série de declarações do secretário-geral sobre os aspectos de segurança e socioeconômicos da pandemia mostrou um certo grau de previsão que muitos líderes nacionais não conseguiram oferecer. Em nível do trabalho, penso que os funcionários humanitários da ONU, os pacificadores e outros estão trabalhando arduamente para encontrar formas de aliviar essa confusão. Há a sensação de que os funcionários das Nações Unidas estão administrando isso um pouco melhor do que os países-membros, mas no final das contas necessitam do apoio político e financeiro dos governos durante a crise.  

Thomas Biersteker é professor de relações internacionais e ciências políticas no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais em Genebra. Graduate Institute

swissinfo.ch: Antes do surto do vírus, a ONU e o seu orçamento regular passavam por uma crise de liquidez. Com uma recessão global a vir, a ONU e as organizações internacionais terão dificuldades com a sua situação financeira ou para receber a contribuição dos países?

T.B.: O padrão e o desafio ao multilateralismo é que os países-membros estão diminuindo seus repasses de recursos às organizações internacionais. Vivemos isso em Genebra com a crise financeira da ONU. E ela continua...

O que as pessoas precisam compreender é que a OMS vive uma crise financeira: Thomas Biersteker

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O que as pessoas precisam de compreender é que a OMS vive uma crise financeira sem precedentes. Quando foi fundada, 100% das suas receitas operacionais provinham dos repasses dos países-membros, mas esse número é agora inferior a 20%. Temos de compreender os constrangimentos a que estas organizações estão sujeitas.  R.G.: Eu diria que é provável que os dadores juntem fundos para operações humanitárias da ONU em países afetados pelo Covid-19, a fim de conter a doença e impedir que ela conduza a movimentos em grande escala de pessoas desesperadas. Os países ocidentais não querem enfrentar uma vaga de "refugiados Covid" de África ou Médio Oriente. Mas a longo prazo, os países pobres vão exigir mais ajuda para amortecer os prejuízos provocados pela pandemia, tal como os governos doadores estão injetando cada centavo em suas próprias economias e uma recessão global reduz os orçamentos da ajuda ao desenvolvimento. Penso que, de seis a 12 meses, poderemos assistir a alguns debates bastante desagradáveis na ONU, uma vez que os países pobres exigirão mais ajuda para ajudar à reconstrução após a crise e os países doadores alegarão que há pouco ou nenhum dinheiro disponível. 

Tatiana Valovaya: o impacto do vírus na Genebra internacional 

Entrevistada pelo jornal suíço Tribune de Genève, a diretora-geral do escritório da ONU em Genebra, Tatiana Valovaya, advertiu que os problemas de fundos da ONU se agravaram devido à pandemia do coronavírus. Ela afirmou que a ONU teria de prever despesas adicionais para fazer face às consequências. Além disso, a crise provocou a interrupção das obras de renovação do histórico edifício do Palácio das Nações em Genebra, estimado em 850 milhões de francos suíços, o que provocará um atraso na data final de conclusão (2024) e nos custos.  

A sede da ONU não está completamente fechada, mas a maior parte do pessoal trabalha em sistema de homeoffice casa com outras organizações internacionais em Genebra. A Conferência sobre Desarmamento e o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas teve de suspender suas sessões no Palácio. A maioria das outras conferências e reuniões como a Conferência Internacional do Trabalho, foi cancelada. Genebra recebe aproximadamente 12 mil conferências e reuniões por ano. 

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