
Cruz Vermelha quer continuar na Colômbia

Durante o festejado resgate de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns, houve transgressões a leis colombianas e internacionais. O governo em Bogotá admitiu o uso ilegal do emblema da Cruz Vermelha.
A organização internacional sediada em Genebra renuncia a medidas judiciais e diz que pretende continuar seu trabalho no país.
Após vários desmentidos, o presidente Álvaro Uribe admitiu o uso ilegal do emblema do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) durante a operação militar de resgate, em 2 de julho.
Por causa do “grande nervosismo” ao se deparar com um grande número de guerrilheiros, um soldado que participou do resgate teria usado o símbolo. “Ele teve medo de morrer e por isso tirou do bolso uma faixa com o símbolo da Cruz Vermelha e amarrou no braço”, disse o presidente.
Versão duvidosa
Ele lamentou o ocorrido e disse que pediu desculpas ao CICV. A emissora de tv CNN (EUA), que analisou os vídeos da operação e fez as denúncias, desmentiu a versão de Uribe. As imagens de soldados usando o símbolo da Cruz Vermelha teriam sido gravadas antes do início da operação.
O uso abusivo do emblema do CICV é considerado uma grave violação da Convenção de Genebra. Os Estados signatários comprometem-se a proteger o símbolo e a apurar transgressões a essa norma.
O CICV, como organização humanitária, não tem qualquer possibilidade de sancionar um Estado ou uma organização.
Embora os militares e o governo estejam envolvidos no caso, não acredito que se possa falar de abuso, disse o porta-voz do CICV, Florian Westphal à swissinfo. Ele acrescentou que não pode confirmar que os casos de uso abusivo do emblema tenham aumentado nos últimos tempos.
O CICV não pretende adotar medidas jurídicas contra Bogotá nem pensa em se retirar da Colômbia. “Diante das enormes necessidades humanitárias na Colômbia, é extremamente importante que continuemos nosso trabalho no país”, disse Westphal.
O desrespeito de símbolos internacionais não é raro na Colômbia. Guerrilheiros das Farc têm atacado veículos identificados com o símbolo da Cruz Vermelha, que, segundo eles, estariam sendo usados para o transporte de soldados.
Arranhão na imagem
O CICV ainda consegue manter seus funcionários e ajudantes nessas circunstâncias? “Vamos analisar a situação da segurança diariamente”, diz Westphal.
Além disso, a Cruz Vermelha pretende apurar através da sua rede de contatos na Colômbia até que ponto a imagem da organização foi arranhada pelo recente caso envolvendo o resgate.
“Somos bastante conhecidos na Colômbia e temos uma boa imagem. Por isso, espero que a confiança em nós não tenha sido muito abalada”, afirma Westphal.
O CICV voltará a chamar a atenção das partes envolvidas no conflito para a importância de se respeitar o símbolo da Cruz Vermelha. A organização dispõe-se a continuar desempenhando um papel de “mediadora humanitária” na libertação de reféns.
swissinfo, Corinne Buchser
Em 1987, três oficiais dos Contras (guerra contra-revolucionária) usaram um helicóptero com uma Cruz Vermelha para transportar material militar para os rebeldes na Nicarágua.
Durante a guerra civil na Iugoslávia, em 1991/1992, houve vários abusos contra o emblema da Cruz Vermelha. Em 1998, tropas sérvias teriam atacado refugiados com um helicóptero com o símbolo do CICV.
Nos anos de 1990, o emblema também foi violado por civis e rebeldes no Cáucaso e nas repúblicas centro-asiáticas da ex-União Soviética.
Durante a guerra civil em Serra Leoa (1991 a 2002), os rebeldes teriam transportado armas em helicópteros com o emblema da Cruz Vermelha.
O uso ilegal do emblema da Cruz Vermelha pelas Forças Armadas da Colômbia mostra que o governo de Alvaro Uribe não conhece limites no combate às Farc, avalia o jornal suíço Tagesanzeiger.ch.
Segundo o diário de Zurique, esse caso ilustra bem o “paradoxo de Uribe”: “O presidente colombiano atinge brilhantes resultados, mas há sérios indícios de que há meios ilegais em jogo. A ambivalência refere-se também à sua pessoa. Nenhum outro presidente na América Latina festejou maiores sucessos contra a guerrilha e contra o crime do que Uribe – e nenhum outro foi acusado com tanta freqüência de se movimentar no meio de organizações criminosas ou até ser membro delas” (leia mais no link abaixo, em alemão).
O outro lado do paradoxo, Tagesanzeiger.ch, é que ele atingiu uma popularidade de mais de 90% após o resgate. Até o opositor mais ferrenho de Uribe admite que, “se ele quiser, pode se eternizar no poder”.

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.