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Berna, a capital suíça da representação política das mulheres

Desde o início da pandemia, o Parlamento municipal de Berna se reúne em um pavilhão. O prédio histórico no centro de Berna não oferece condições de segurança exigidas. Keystone / Anthony Anex

A cidade, muitas vezes ofuscada cultural- e politicamente por Zurique, Genebra e Basiléia, é uma vanguarda nacional e global no que diz respeito à representação de mulheres em parlamentos.

Este conteúdo foi publicado em 02. março 2021 - 10:00

No início do ano, quando 80 parlamentares da Câmara Municipal de Berna se reuniram em sua primeira sessão do ano, vinte estavam estreavam na vida política. E detalhe: a metade tem menos de 30 anos, quase todos membros de partidos de esquerda ou ecológicos e quase todos são mulheres.

As 18 novas parlamentares foram eleitas nas eleições locais de novembro de 2020, elevando o número total de mulheres na Câmara Municipal ("Stadtrat", em alemão) para 55, o que corresponde a 70% dos assentos no órgão, um recorde no país.

"É uma situação excepcional", declarou Martina Mousson, analista política do instituto de pesquisas de opinião Gfs.bern. Na Suíça, a proporção média de mulheres nos parlamentos municipais é de 32%. Já nos parlamentos cantonais (estaduais) é de 30%. Em nível nacional a proporção de mulheres no Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) passou a 42% após as eleições federais em 2019. Porém a marca de Berna ultrapassa todos.

Martin Chungong, secretário-geral da União Interparlamentar (UIO), uma instituição sediada em Genebra que avalia dados sobre parlamentos no mundo, também se surpreendeu. "A grande proporção de mulheres presentes no Parlamento bate até a que registramos em um parlamento nacional, que foi o Ruanda, com 63%. Mas a média no mundo é de 25%. Porém essa proporção em assembleias no mundo tem crescido de uma forma muito lenta."

Globalmente, a UIP não coleta dados a níveis municipais e estaduais. Porém um relatório publicado pelo Parlamento Europeu em 2018 sugere que em contexto local, pelo menos na Europa, a situação é semelhante: 15 % dos prefeitos e 35 % dos membros das assembleias municipais ou estaduais em 2018 eram mulheres.

"A representação de mulheres ainda é baixa em cargos de poder em todas as esferas da vida. Porém a situação nos governos locais e regionais é especialmente ruim", critica o relatório.

Herança da "esquerda"

Como Berna se tornou a "Capital do feminismo", como intitulou o jornal "Der Bund" em 2020?

O cientista político Werner Seitz escreveu logo após as eleições que o resultado se explica por "décadas de trabalho duro de partidos de esquerda e de centro na cidade". Em 1992, escreveu que uma aliança de partidos de esquerda, ecológicos e do centro foi eleita na capital helvética e, desde então, já está há três décadas no poder. E não apenas isso:  as mulheres ocupam cada vez mais cargos de liderança. Já em 1993, a prefeitura - formada por cinco políticos eleitos - era majoritária do sexo feminino. Nas eleições seguintes as mulheres sempre conseguiram ocupar regularmente mais de 40% das cadeiras.

Mais de 60 mil pessoas participaram da marcha de protesto de mulheres em Berna, em 2019. © Keystone / Peter Klaunzer

Mousson acrescenta que este efeito cumulativo é quantificável: "os candidatos que disputam a reeleição têm estatisticamente melhores chances". Resultado: as conquistas das candidatas femininas tendem a se repetir ao longo do tempo.

Valentina Achermann, 26 anos, fez uma campanha com o slogan "Pela justiça social, sempre e em todos os lugares".  A vereadora recém-eleita pelo Partido Socialdemocrata (PS) considera, porém, que a situação em Berna não se deve ao sucesso de uma política de esquerda.

Dos 21 parlamentares municipais do PS, 16 são mulheres. Todavia a jovem política ressalta que a escolha de candidatos não foi feita para atingir objetivos de igualdade de gênero. Uma avaliação das listas de candidatos mostra que havia uma maioria de homens. Porém os eleitores simplesmente preferiam votar em mulheres sociais democratas.

Segundo Achermann, a tendência não se limita à esquerda: dos sete vereadores do Partido Liberal-Democrata, seis são mulheres.

Simone Richner, de 35 anos de idade, é uma dessas parlamentares. Ela também considera que Berna seja vista hoje como um bastião da esquerda, mas, a seu ver, não significa que a cidade seja "dominada" por mulheres. Seu partido, de orientação liberal, também vê como "extremamente importante" a inclusão de mulheres na disputa por cargos políticos. É um "tema da sociedade", afirma Richner, acrescentando que essa política serve também de modelo nas áreas rurais da Suíça, mais conservadoras.

Greve das mulheres

Corina Liebi, 25 anos, também foi recém-eleita. A vereadora do Partido Verde-Liberal (PVL) considera que o longo período de governo de partidos da esquerda na capital suíça tem influência sobre o resultado das eleições, mas também credita a política progressista do governo ao grande número de jovens que vive na cidade. "Jovens tendem a ser mais abertos à políticos da sua idade".

Liebi também ressalta o impacto da greve de mulheres organizada em 2019, um protesto que ocorreu em todo o país, mas que foi particularmente apoiado em Berna.

A presença de 70% de mulheres no parlamento municipal da capital suíça foi algo "surpreendente, mas provavelmente resultado desta ação, que politizou e inspirou muitas mulheres jovens", afirma a vereadora do PVL. Movimentos como "Helvetia Calling" - uma campanha para envolver mais mulheres na política nacional - também foram decisivos, diz Liebi.

Mousson concorda e acrescenta que as eleições de Berna também foram claramente influenciadas por organizações femininas como Alliance F, bastante ativa na capital suíça. Os resultados também foram beneficiados por um "efeito de ressonância" após as eleições de 2019, diz a política. Estudos demonstraram que as eleições nacionais influenciam as votações e municipais e estaduais no mesmo ano ou nos dois anos seguintes.

Além das diferenças ideológicas

Resta saber se - ou quanto - a forte presença de mulheres na política local irá mudar a situação de Berna, especialmente devido ao fato de que o parlamento local tem poderes limitados: ele aprova o orçamento da cidade, nomeia os membros das secretarias de algumas instituições públicas, e propõe leis.

Algumas pessoas também não querem que a questão de gênero se torne mais importante do que políticas urgentes. Claudio Righetti, da coalizão de partidos de centro ("Mitte") afirma que "a igualdade de oportunidades e acesso são obviamente importantes, mas que há coisas mais importantes para discutir". Em sua opinião, a cidade ficou "presa" no debate entre facções esquerda e direita durante as últimas décadas e considera sua missão ir "além da ideologia", dando impulso às discussões sobre o futuro econômico e cultural de Berna.

Martin Chungong, da IPU, afirma que a paridade dos sexos nos parlamentos do mundo tende a levar a políticas mais "sensíveis à questão do gênero". Já outros especialistas advertem que o foco excessivo em estatísticas e números pode ser enganoso: se as mulheres estiverem subrepresentadas ou discriminadas em outras áreas da sociedade, por exemplo.

Uma área concreta mencionada por vários vereadores é a escolha de substitutos quando um parlamentar está doente ou em licença-maternidade. Atualmente, se um membro tem que faltar a uma sessão da Camara Municipal por doença ou gravidez, o voto é perdido. Como as assembleias ocorrem após o horário comercial, a limitação prejudica em grande parte mulheres, afirmam Richner e Liebi.

Mousson não sabe dizer se Berna será um modelo para outras cidades do país. Se a tendência observada no país que as metrópoles tendam à esquerda (ou ecológicas), especialmente devido à maior presença de jovens e acadêmicos, e o campo se mantenha conservador, o número de mulheres nos parlamentos municipais e estaduais não muda com tanta rapidez. Porém a analista política do instituto de pesquisas de opinião Gfs.bern considera que a capital tem um "efeito farol", ou seja, de servir de exemplo.

As eleições em Berna ocorreram em no contexto do movimento "MeToo", a greve das mulheres e o avanço dos partidos ecológicos na Suíça. A liberal Richner teme que os 70% da maioria feminina sejam a "crista da onda": quando os extremos são atingidos, diz, "geralmente os movimentos contrários começam a tomar forma."

Adaptação: Alexander Thoele

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