
Senado suíço rejeita “estado do emigrante”

O Senado não pretende tratar a comunidade dos suíços do estrangeiro como vigésimo sétimo estado da Confederação Helvética.
A iniciativa do deputado social-democrata Carlo Sommaruga, que previa uma representação permanente da chamada “Quinta Suíça” no Parlamento, foi rejeitada.
“A iniciativa foi apresentada no contexto das eleições parlamentares de 2007, quando notamos uma forte mobilização dos suíços do estrangeiro”, disse Sommaruga à swissinfo.
“Mas a comunidade dos suíços no exterior praticamente não tinha chance para votar um candidato próprio. É o que ocorreu com eles em todas as eleições realizadas até agora.”
Segundo o deputado de Genebra, há dois anos, mais de 40 suíços do estrangeiro se candidataram a uma vaga na Câmara dos Deputados.
Mas nem mesmo no estado de Zurique, o mais populoso e com um grande número de cadeiras, onde uma eleição parecia ser relativamente fácil, um representante da “Quinta Suíça” conseguiu o número de votos necessário.
“Os suíços do estrangeiro precisam se inscrever na lista de um partido num cantão (estado). Nisso eles levam desvantagem em relação a políticos locais, que podem fazer campanha o ano inteiro e são mais visíveis ao eleitorado”, afirma Sommaruga.
“Por isso, pensamos em mudar as regras e assim permitir que os conterrâneos no estrangeiro pudessem ter assento no Parlamento.”
Por esse motivo, Sommaruga lançou em 2007 a iniciativa parlamentar “para uma verdadeira representação dos suíços do estrangeiro”. Ele propôs uma mudança da Constituição e de outras leis para que os suíços no exterior fossem representados primeiro no Senado e depois na Câmara.
Para conseguir isso, segundo Sommaruga, bastaria criar um distrito eleitoral para candidatos suíços do estrangeiro, como, por exemplo, já é praticado na Itália. Ou existiria a possibilidade de delegados da Quinta Suíça elegerem seus próprios representantes, como é o caso na França.
“As soluções aplicadas por outros países mostram que é possível integrar a comunidade no exterior na política nacional”, explica Sommaruga.
“Não se deve esquecer que a emigração mudou muito no século passado. Há cem anos emigrava-se para construir uma nova existência no exterior. Hoje muitos suíços – estudantes, trabalhadores, executivos – passam alguns anos no estrangeiro e continuam ligados à política nacional nesse período.”
Embaixadores da Suíça
Embora a iniciativa tenha sido aprovada pela Câmara dos Deputados, em setembro do ano passado, o Senado a rejeitou por 26 a 11 votos na última segunda-feira (2/03).
Nem adiantou o engajamento de alguns representantes cantonais. “Nosso país mostrou-se muito criativo na integração dos estrangeiros”, afirmou a social-democrata Liliane Maury Pasquier. “Não vejo porque não é possível criar as condições para integrar politicamente os conterrâneos no exterior.”
“Sempre dizemos que os suíços do estrangeiros são os embaixadores da Suíça, mas não queremos nos ocupar deles. Apesar disso, a Suíça precisa de embaixadores, especialmente neste momento em que sua imagem é atacada por muitos países”, argumentou o democrata-cristão Filippo Lombardi.
“Este projeto daria aos suíços do estrangeiro o status de um cantão (estado)”, explicou o correligionário de Lombardi, Hansheiri Inderkum, em nome da comissão. “Cada cantão tem um território, um povo que vive nesse território e, sobretudo, tem sua identidade. A única coisa que os suíços do estrangeiro têm em comum é que não vivem em sua pátria.”
Cultura política da emigração
“A decisão era previsível. Os membros do Senado, em geral, são mais conservadores do que os deputados. Além disso, o Senado seria o primeiro a ter de ceder cadeiras à Quinta Suíça”, comentou Sommaruga.
“A iniciativa pelo menos desencadeou um debate sobre a possibilidade de os suíços do estrangeiro um dia virem a ser representados no Parlamento. Isso ainda leva tempo. Enquanto na Itália ou na Espanha os emigrantes sempre tiveram um estreito vínculo com os partidos políticos de suas pátrias, a cultura política da emigração começou a se desenvolver na Suíça há pouco tempo.”
Apesar da decisão do Senado, que enterrou a proposta, a Organização dos Suíços do Estrangeiro (ASO) pretende continuar a luta pelo fortalecimento da participação política da Quinta Suíça.
“O fato de a Câmara dos Deputados ter aprovado a iniciativa crescente peso dos suíços dos estrangeiros, não só na esfera política, como também de uma maneira geral”, diz a porta-voz da ASO, Ariane Rustichelli.
swissinfo, Armando Mombelli
A Confederação Helvética introduziu o voto por correspondência para os suíços do estrangeiro em 1992.
Naquele ano, apenas 15 mil suíços no exterior estavam cadastrados para votar. Em 2008, eram 124.399 dos 676.176 residentes no estrangeiro.
Os eleitores registrados podem se candidatar em todos os cantões para as eleições parlamentares federais. Apenas 11 dos 26 cantões (estados) permitem candidaturas de suíços do estrangeiro para o Senado.
No último pleito federal, em 21 de outubro de 2007, havia mais de 40 candidatos da Quinta Suíça no cantões de Zurique, Berna, Friburgo, Genebra, Vaud, Schaffhausen e Valais. Nenhum foi eleito.


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