COP30 em chamas: imprensa suíça destaca incêndio, gafe diplomática de Merz e a postura climática tímida da Alemanha
A imprensa suíça traçou um panorama crítico dos dias mais tensos da COP30: o incêndio que paralisou a conferência em Belém, a polêmica causada pelas declarações de Friedrich Merz sobre a cidade amazônica e a fraca ambição climática apresentada pela Alemanha no encontro.
Nos últimos dias, acompanhar a COP30 tem sido quase como assistir a uma novela política em capítulos acelerados: incêndio em pleno centro de convenções, diplomacia pegando fogo após uma frase mal colocada do chanceler alemão e, para completar, a constatação — vinda da própria imprensa suíça — de que a Alemanha chegou a Belém com ambições climáticas muito aquém do esperado. Reuni aqui o que 24 Heures, Le Temps e outros jornais publicaram para ajudar você a navegar por esse turbilhão de acontecimentos que marcaram a conferência.
Incêndio paralisa COP30 e provoca pânico em Belém
A imprensa suíça destacou nesta quinta-feira (20) o incêndio que interrompeu por várias horas a COP30 em Belém, provocando pânico entre os participantes e levantando dúvidas sobre o andamento das negociações climáticas em um momento decisivo.
Segundo Le TempsLink externo, o fogo começou por volta das 14h, no setor dos pavilhões nacionais, na chamada zona azul — área central das negociações. As chamas se espalharam rapidamente pelas estruturas de tendas, parte do teto chegou a queimar e a fumaça tomou o interior e o exterior do local. O jornal descreve cenas de correria e de participantes tentando conter o fogo com extintores, enquanto equipes de emergência evacuavam o site. O diário lembra ainda que este é o terceiro incidente sério da conferência, depois de episódios ligados a manifestações indígenas, e que o incêndio surge no momento em que as negociações entram na fase mais difícil.
O Le MatinLink externo reforça o caráter repentino do incêndio, que teria começado num stand próximo à entrada principal. A evacuação foi total e imediata, levando dezenas de milhares de participantes para fora do local enquanto os bombeiros atuavam. Apesar da fumaça e do momento de pânico, as autoridades brasileiras garantiram que o incêndio foi rapidamente “maîtrisé” e que não houve feridos, segundo o ministro do Turismo Celso Sabino.
Já o portal watson.chLink externo acrescenta detalhes sobre a infraestrutura e as consequências políticas. A publicação ressalta que o incêndio ocorre na véspera de decisões cruciais e deve atrasar ainda mais negociações já tensas, especialmente as propostas envolvendo uma possível “feuille de route” para a saída dos combustíveis fósseis — tema que enfrenta resistência de países como China, Índia, Arábia Saudita e Rússia. O veículo relata ainda que a causa do incêndio permanece desconhecida, embora Sabino tenha citado hipóteses como um curto-circuito ou um telefone carregando. Participantes presentes relataram à AFP que não houve alarme no momento das primeiras chamas e que problemas elétricos já haviam sido observados nos dias anteriores. Uma médica que participa da COP confirmou que várias pessoas inhalaram fumaça e precisaram de oxigênio, além de casos de choque emocional.
A ONU informou que o local só deve ser reaberto após as 20h, embora os danos sejam considerados limitados. Ainda assim, o episódio adiciona um novo elemento de tensão a uma conferência já marcada por incidentes e divergências profundas sobre os caminhos da ação climática global.
Fonte: Le TempsLink externo, Le MatinLink externo & watson.chLink externo, 20.11.2025 (em francês)
Alemanha provoca crise diplomática na COP30 após comentários de Merz sobre Belém e postura tímida no clima
A COP30, realizada em Belém, ficou marcada por uma crise diplomática entre Brasil e Alemanha e por críticas à falta de ambição climática do governo de Friedrich Merz. A controvérsia começou após declarações do chanceler alemão reproduzidas pelo jornal suíço 24 HeuresLink externo, no qual ele afirmou, ao retornar a Berlim, que nenhum dos jornalistas que o acompanhavam gostaria de permanecer em Belém. As falas, classificadas como arrogantes no Brasil, pressionaram ainda mais a já discreta atuação alemã no encontro climático.
Segundo o 24 Heures, Merz ironizou a cidade-sede da conferência e disse que todos ficaram “felizes” ao deixar Belém. As declarações irritaram autoridades brasileiras. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu que o chanceler deveria ter ido “dançar num boteco e provar a culinária do Pará”, afirmando que Berlim “não oferece nem 10% da qualidade de vida do Pará”. O governador Helder Barbalho e o prefeito Igor Normando acusaram Merz de preconceito, e a polêmica repercutiu nas redes e na imprensa local.
A pressão levou o gabinete do chanceler a divulgar uma nota pedindo desculpas e lamentando que a agenda apertada tenha impedido Merz de conhecer “a impressionante beleza natural da Amazônia”, conforme relatado pelo 24 Heures. Já o ministro do Meio Ambiente da Alemanha adotou um tom conciliador na própria COP, exaltando a “hospitalidade calorosa” dos brasileiros.
Além do incidente diplomático, o jornal Le TempsLink externo destacou a falta de ambição do governo alemão em Belém. Primeiro emissor de CO₂ da Europa, o país chegou à COP30 sem grandes propostas. Merz prometeu apenas uma contribuição “considerável” ao fundo de proteção das florestas, mas sem valores. Só ao fim do encontro o ministro do Ambiente confirmou 1 bilhão de euros em dez anos — cifra que organizações ambientais consideram insuficiente.
Segundo análise do Le Temps, a postura modesta reflete a linha do novo chanceler, que não quer assumir o papel de “líder climático” associado a Angela Merkel e Olaf Scholz. Merz prioriza recuperação econômica e combate à imigração irregular, enquanto a questão climática perde espaço na opinião pública alemã. Especialistas citados pelo jornal, como Anna Brehm, da Fundação Heinrich Böll, afirmam que o chanceler vê a agenda ambiental como uma restrição e prefere deixar o tema para seus ministros.
A reportagem do Le Temps aponta ainda sinais contraditórios da nova coalizão em Berlim: desaceleração da expansão de renováveis, autorização de novos campos de gás no Mar do Norte, manutenção do carvão além do previsto, além da revogação de uma taxa ambiental sobre passagens aéreas. Para a Fundação para a Economia Climática, entrevistada pelo jornal, essas decisões enviam “mensagens fatais” a investidores e mostram falta de estratégia clara.
Com o tropeço diplomático amplificado pelo 24 Heures e a avaliação crítica do Le Temps sobre a política climática alemã, a COP30 consolidou a percepção de que a Alemanha já não lidera a agenda ecológica europeia — e que Belém, escolhida por Lula para simbolizar a centralidade da Amazônia, acabou se tornando palco de um desgaste inesperado para Berlim.
Fonte: 24 HeuresLink externo, 19.11.2025 & Le TempsLink externo, 20.11.2025 (em francês)
Justiça britânica responsabiliza BHP por desastre de Mariana
A imprensa suíça repercutiu amplamente na sexta-feira (14), a decisão histórica da Alta Corte de Londres que declara a gigante mineradora australiana BHP responsável pela ruptura do barragem de Fundão, em Mariana (MG), que em 2015 provocou uma das maiores catástrofes ambientais da história do Brasil.
Segundo a RTSLink externo, a justiça britânica concluiu que a BHP é “estritamente responsável, como poluidora”, e que a empresa agiu com negligência, imprudência e falta de competência ao ignorar alertas técnicos sobre o risco iminente de colapso. A sentença, resultado de um julgamento gigantesco entre outubro de 2024 e março de 2025, abre caminho para dezenas de bilhões de libras em indenizações a 620 mil vítimas — entre elas municípios, comunidades indígenas, empresas e moradores do vale do Rio Doce.
O Le CourrierLink externo destaca que a decisão cria um “precedente histórico” sobre responsabilidade internacional de empresas, permitindo que vítimas brasileiras busquem reparação diretamente na Inglaterra. Os advogados do escritório Pogust Goodhead, que representa os demandantes, afirmam que o veredito confirma o que denunciam há uma década: “não foi um acidente”, mas uma falha previsível que poderia ter sido evitada. O jornal relembra ainda que a lama tóxica percorreu 650 quilômetros até o Atlântico, matou 19 pessoas, destruiu casas, fauna, flora e áreas de floresta tropical protegida.
A RTNLink externo acrescenta que a BHP pretende recorrer e insiste que o processo em Londres seria “redundante”, pois um acordo de reparação no Brasil — de 170 bilhões de reais — já teria beneficiado 610 mil pessoas. No entanto, a maioria dos autores da ação britânica afirma não estar incluída no acordo e espera obter compensações mais amplas. Segundo a empresa, cerca de 240 mil desses reclamantes já teriam assinado renúncias, o que poderia reduzir o volume de demandas aceitas no Reino Unido.
O caso ainda terá uma segunda fase, dedicada ao valor das indenizações, prevista para começar em outubro de 2026. Em paralelo, uma ação civil avança na Holanda, enquanto no Brasil BHP e Vale foram absolvidas na esfera penal em 2024 — uma decisão contestada pelas vítimas.
Entre os depoimentos mais fortes relatados pela imprensa suíça está o de Gelvana Rodrigues, mãe de Thiago, de 7 anos, morto pela avalanche de rejeitos. Ela declarou que a decisão britânica confirma sua luta: “Prometi não descansar enquanto os responsáveis não fossem punidos.”
A sentença em Londres reacende o debate global sobre a responsabilidade de multinacionais por desastres ambientais ocorridos fora de seus países de sede — e reforça a pressão sobre BHP e Vale, dez anos depois da tragédia que marcou indelevelmente o Sudeste brasileiro.
Fonte: RTSLink externo, Le CourrierLink externo & RTNLink externo, 14.11.2025 (em francês)
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Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 28 de novembro. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!
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