Portugal escolhe o homem do equilíbrio
Com quase 67% dos votos, o socialista António José Seguro venceu a eleição presidencial em Portugal. Mas a extrema direita conquistou um terço do eleitorado e dominou o voto na diáspora suíça. Os correspondentes suíços acreditam: a polarização está longe de desaparecer.
O triunfo da moderação
O artigo, assinado pela correspondente Camille Pagella, analisa as eleições presidenciais em Portugal, marcadas pela vitória expressiva do socialista moderado António José Seguro, que conquistou 66,8% dos votos no segundo turno, o maior resultado já obtido por um candidato presidencial no país.
Ex-secretário-geral do Partido Socialista e afastado da política há mais de uma década, Seguro retorna como uma figura de moderação e estabilidade, sucedendo Marcelo Rebelo de Sousa. Em seu discurso, prometeu ser um presidente “de todos os portugueses” e garantir a estabilidade institucional, inclusive mantendo diálogo com o governo minoritário de centro-direita liderado por Luís Montenegro.
A reportagem destaca que a alta participação (mais de 50%, contra 39% em 2021) refletiu uma mobilização ampla para conter o avanço da extrema direita, descrita como uma “frente republicana”. Apesar da derrota, o líder do partido Chega, André Ventura, alcançou 33,2% dos votos e consolidou o crescimento da extrema direita, melhorando significativamente seu desempenho em relação ao primeiro turno.
Camille Pagella também enfatiza o contraste entre o resultado nacional e o voto da diáspora portuguesa na Suíça. Lá, Ventura obteve quase 72% dos votos, embora com baixa participação (10,5%). O texto aponta fatores como dificuldades logísticas para votar, frustração socioeconômica de diferentes ondas migratórias e a influência amplificadora das redes sociais, onde a extrema direita é particularmente ativa.
O artigo conclui que, embora a vitória de Seguro represente um triunfo da moderação democrática, o avanço consistente da extrema direita, especialmente entre emigrantes, indica uma reconfiguração relevante do cenário político português.
Fonte: Le Temps, artigo 1Link externo, artigo 2Link externo, 10.02.2026 (em francês)
Portugal escolhe o homem do equilíbrio
A correspondente Julia Mache, em análise publicada no Neue Zürcher Zeitung, interpreta a eleição presidencial portuguesa como um momento de contenção política e possível estabilização institucional.
O social-democrata António José Seguro, do Partido Socialista (PS), venceu o segundo turno com 66,8% dos votos contra 33,2% do líder do Chega, André Ventura. Ao proclamar que será presidente de “todos” os portugueses – termo repetido três vezes em seu discurso – Seguro sinalizou uma postura conciliadora após anos marcados por instabilidade política, eleições legislativas antecipadas e escândalos de corrupção.
Segundo a análise, muitos portugueses veem o resultado como um sinal cauteloso de relaxamento e estabilização depois de um período turbulento. A campanha foi polarizada, com Ventura defendendo uma guinada política e adotando retórica anti-imigração. Ainda assim, Seguro comprometeu-se a não utilizar de forma partidária os amplos poderes presidenciais – que incluem a possibilidade de dissolver o parlamento, prerrogativa exercida diversas vezes por seu antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa.
Descrito como ponderado e conciliador, o economista de 63 anos iniciou a corrida como outsider, após uma década afastado da política ativa. Seu retorno e rápida consolidação eleitoral indicam, segundo cientistas políticos citados no texto, que parte significativa do eleitorado teme maior polarização e anseia por estabilidade.
A eleição ocorreu sob circunstâncias adversas, com fortes tempestades que afetaram o país e provocaram vítimas fatais. Ainda assim, o comparecimento superou 50%. Um dos primeiros gestos de Seguro como presidente será visitar as regiões atingidas e assegurar a rápida liberação de ajuda emergencial.
Para o Neue Zürcher Zeitung, conclui Julia Mache, o pleito não elimina a força do populismo de direita – Ventura obteve um terço dos votos -, mas representa, sobretudo, um movimento do eleitorado em favor de moderação, cooperação institucional e previsibilidade política.
Fonte: Neue Zürcher Zeitung, 10.02.2026Link externo (em alemão)
Dois países e suas diferentes maneiras de lidar com a extrema direita
O correspondente Patrick Illinger, em comentário publicado no Tages-Anzeiger, classificou o pleito como a eleição presidencial mais incomum da história democrática de Portugal. Segundo ele, uma ampla maioria do eleitorado se posicionou claramente contra o radicalismo e a polarização, optando por uma democracia defensiva. No segundo turno, o líder do partido Chega, André Ventura, ficou limitado a cerca de um terço dos votos, enquanto até conservadores tradicionais preferiram apoiar o candidato de centro-esquerda António José Seguro para barrar o avanço ultranacionalista.
Illinger observa que, embora o percentual obtido pela extrema direita seja expressivo e impensável poucos anos atrás, o país deixou claro onde estabelece sua “linha de defesa”: não entre direita e esquerda, mas entre direita democrática e extrema direita. Para o jornalista, Portugal demonstrou a existência de um “firewall” político eficaz, no qual forças moderadas se uniram para conter o extremismo.
O comentário traça ainda um contraste com a Espanha. Enquanto em Portugal houve convergência contra os radicais, na Espanha o chamado “cordón sanitario” foi rompido em relação ao Vox, e a cooperação entre conservadores e ultranacionalistas tornou-se plausível em nível regional e nacional. O resultado, segundo o Tages-Anzeiger, é um paradoxo ibérico: Portugal, governado por conservadores, elege um presidente socialista para preservar a estabilidade democrática; já a Espanha, sob governo socialista, pode abrir caminho para a extrema direita nos próximos anos.
Fonte: Tagesanzeiger, 10.02.2026Link externo (em alemão)
Cela de Jair Bolsonaro é maior do que muitos apartamentos em São Paulo
O correspondente Jan Heidtmann, do jornal Tages-Anzeiger, analisa como as condições de prisão do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro se tornaram um novo foco de polarização no Brasil. Condenado a mais de 27 anos de prisão por envolvimento em um golpe de Estado após a derrota eleitoral para Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro cumpre pena em uma ala especial do complexo penitenciário da Papuda, em Brasília. Mesmo detido, continua influente: já indicou o filho Flávio como possível candidato da direita nas eleições presidenciais de outono, interferindo diretamente na disputa interna do campo conservador.
O debate público gira em torno de seu estado de saúde e das condições de detenção. Após violar regras da prisão domiciliar – ao manipular sua tornozeleira eletrônica – Bolsonaro foi transferido para custódia. Um relatório médico encomendado pela Polícia Federal concluiu que, apesar de problemas de saúde compatíveis com sua idade, não há צורך de hospitalização. A decisão final cabe ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, responsável pela execução da pena e alvo constante de críticas dos bolsonaristas, que veem no ex-presidente um injustiçado.
Heidtmann descreve ainda as condições relativamente confortáveis da chamada “Papudinha”, onde Bolsonaro ocupa uma cela de cerca de 55 m² com banheiro, cozinha e pátio privativo, recebe visitas frequentes de médicos, advogados e familiares e mantém rotina de caminhadas. O jornalista sustenta que a disputa em torno dessas condições é a continuação de um conflito político profundo que divide o país desde 2019, intensificado após a invasão das sedes dos Três Poderes em Brasília por apoiadores do ex-presidente. A prisão, conclui o artigo, é juridicamente fundamentada, mas politicamente explosiva – e permanece no centro da batalha pelo futuro da direita brasileira.
Fonte: Tagesanzeiger 09.02.2026Link externo (em alemão)
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