Turbulência política na África lusófona
Da crise climática ao abalo político global, a semana expôs a urgência de um mundo em disputa: golpe militar na África, prisão de um ex-chefe de Estado e alerta para a crise climática. A imprensa suíça cobre as notícias mais importantes do mundo lusófono.
Enquanto uma influente análise suíça aponta que o Acordo de Paris falhou em conter o aquecimento e cobra ação real das potências, um golpe militar na Guiné-Bissau reacende a instabilidade na África lusófona e a condenação definitiva de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe repercute na Europa. Ao mesmo tempo, a COP30 no Brasil revela avanços limitados e impasses profundos, como relatou o embaixador suíço Felix Wertli.
Começa nova era da política climática
Em um artigo opinativo publicado no NZZ, a jornalista Kalina Oroschakoff avalia os dez anos do Acordo de Paris e conclui que a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C já não é alcançável. Diante desse cenário, ela argumenta que as conferências do clima deveriam abandonar a retórica sobre novas metas e focar na reestruturação concreta do setor energético, sobretudo nos países em desenvolvimento e emergentes, que hoje impulsionam o crescimento das emissões e serão os grandes emissores de amanhã.
Oroschakoff critica o ciclo de anúncios grandiosos e promessas vazias nas COPs e defende que os países industrializados concentrem esforços em financiamento, transferência tecnológica e remoção de barreiras estruturais para viabilizar a transição energética no Sul Global. Ela destaca que muitos desses países buscam não apenas “salvar o clima”, mas crescer economicamente, criar empregos e desenvolver indústrias próprias, dimensões que precisam ser integradas à política climática internacional.
O artigo aponta ainda o papel central da China, que domina a produção global de tecnologias verdes e impulsiona sua adoção em países emergentes, criando avanços importantes, mas também novas dependências. Para Oroschakoff, a transição energética significa uma reorganização profunda da economia, cujos custos políticos têm gerado resistência em nações ricas.
Ao final, a autora sustenta que insistir simbolicamente na meta de 1,5°C é menos útil do que investir na transformação concreta do sistema energético global, com foco nos países que mais precisam. Sem eles, afirma, não haverá chance de cumprir o espírito do Acordo de Paris nem de proteger as populações já afetadas pelos impactos climáticos.
Fonte: nzz.ch, 27.11.2025Link externo (em alemão)
Golpe militar em Guiné-Bissau: presidente preso e eleições suspensas
A maior parte dos meios de comunicação da Suíça noticiou amplamente o golpe de Estado na Guiné-Bissau, evento de forte relevância internacional. Segundo as reportagens, os militares anunciaram ter assumido o “controle total do país”, prenderam o presidente cessante Umaro Sissoco Embaló e suspenderam todo o processo eleitoral, cujo resultado ainda era aguardado após as eleições presidenciais e legislativas.
Embaló foi detido no quartel-general do exército, assim como o chefe do Estado-Maior e o ministro do Interior. Tiros foram registrados perto do palácio presidencial em Bissau, e militares passaram a controlar as principais vias da capital. O opositor Domingos Simões Pereira, líder histórico do PAIGC, também foi preso por homens armados.
O general Denis N’Canha anunciou a criação de um “Alto Comando para a Restauração da Ordem”, responsável pelo país “até novo aviso”, justificando a intervenção pela suposta descoberta de um plano de desestabilização envolvendo redes de narcotráfico e a entrada de armas no território. As fronteiras foram fechadas e um toque de recolher foi imposto.
A ruptura ocorre em meio a uma disputa eleitoral acirrada, na qual tanto Embaló quanto o candidato opositor Fernando Dias de Costa reivindicavam vitória antes da divulgação dos resultados oficiais. O episódio reacende a longa história de instabilidade política da Guiné-Bissau, marcada por sucessivos golpes e tentativas de golpe desde 1974.
Fonte: rts.chLink externo, watson.chLink externo, nau.chLink externo, nzz.chLink externo, 26.11.2025 (em francês e alemão)
Bolsonaro condenado a 27 anos de prisão
Diversos jornais e plataformas de informação na Suíça noticiaram amplamente a condenação definitiva do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, ressaltando a importância internacional do caso. A Suprema Corte do Brasil confirmou a sentença de 27 anos e 3 meses de prisão, encerrando todas as possibilidades de recurso. Assim, a pena pode agora começar a ser executada.
Bolsonaro permanece detido na sede da polícia em Brasília, onde deverá cumprir as primeiras etapas da pena, após ter sido preso preventivamente ao tentar manipular sua tornozeleira eletrônica, algo que ele admitiu ter feito “por curiosidade”. O juiz Alexandre de Moraes mencionou risco concreto de fuga e ameaça à ordem pública.
A decisão também tornou definitivas as condenações de outros seis co-réus. A defesa critica o veredito e argumenta que ainda haveria margem para novos recursos, mas o Supremo considera o processo encerrado. Por questões médicas, Bolsonaro poderia solicitar prisão domiciliar, embora isso seja considerado improvável devido ao episódio da tornozeleira.
A repercussão no Brasil segue o padrão da polarização política: enquanto setores progressistas veem a condenação como afirmação do Estado de Direito, apoiadores de Bolsonaro denunciam perseguição e falam em “caça às bruxas”. A Suprema Corte baseou sua decisão em um extenso relatório da Polícia Federal, que aponta Bolsonaro como líder de uma organização criminosa que incitou a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023.
Fonte: srf.chLink externo, cash.chLink externo, bazonline.chLink externo, 26.11.2025 (em francês)
Cada segundo país quer eliminar combustíveis fósseis
Em entrevista ao jornal Luzerner Zeitung, o correspondente internacional Daniel Vizentini conversou com o embaixador ambiental suíço Felix Wertli sobre os resultados da COP30, realizada no Brasil. Wertli relatou a maratona de negociações que se estendeu até o último minuto, destacando que dormiu apenas meia hora na noite final. Segundo ele, apesar do cenário geopolítico tenso e da ausência dos maiores emissores de CO₂ em alguns consensos, o encontro conseguiu produzir um “resultado sólido” entre os 194 países participantes.
Entre os avanços, Wertli citou a apresentação de novas metas climáticas por 120 países, a criação de mecanismos para acelerar a implementação dessas metas e o triplo de recursos destinados à adaptação climática, mudança que afeta pouco a Suíça, já que o país já destina quase metade de seus fundos a essa área. A Suíça também assinou dois novos acordos e, com outros países europeus, lançou a Article 6 Ambition Alliance, comprometendo-se a financiar projetos climáticos sem contabilizar as reduções de emissões em suas próprias metas nacionais.
Por outro lado, a conferência não conseguiu aprovar dois roteiros ambiciosos: interromper o desmatamento até 2030 e eliminar progressivamente os combustíveis fósseis. Países como Arábia Saudita, Índia, Rússia e China bloquearam o avanço desses temas. A Colômbia anunciou que organizará uma conferência específica sobre a eliminação dos combustíveis fósseis, enquanto o Brasil, que agora preside a COP, trabalhará em bases científicas para tentar retomar o debate no próximo ano.
O ministro suíço Albert Rösti avaliou que a Suíça gostaria de ter visto um compromisso mais forte rumo à descarbonização, mas reforçou que o país não aumentará sua contribuição financeira sem compromissos equivalentes de outras nações. ONGs suíças como WWF e Alliance Sud classificaram os resultados como “fracos” ou “modestos”, embora tenham reconhecido avanços na criação de um mecanismo para uma transição energética justa.
Além das negociações formais, a delegação suíça também promoveu atividades culturais e científicas em Belém. A Suíça foi o único país sem pavilhão oficial da ONU e instalou, em vez disso, uma “Embaixada Planetária” no jardim zoobotânico fundado por Emil Göldi, enquanto a Swissnex apoiou 30 startups ligadas à inovação e sustentabilidade.
Fonte: Luzerner Zeitung, 23.11.2025Link externo (em alemão)
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