Conteúdo externo

O seguinte conteúdo vem de parceiros externos. Nós não podemos garantir que esse conteúdo seja exibido sem barreiras.

Imagem retirada de vídeo divulgado na internet em 11 de junho de 2014 mostra integrantes do EILL na província de Nínive, no Iraque.

(afp_tickers)

O anúncio da criação de um califado por jihadistas acusados de cometerem atrocidades na Síria e no Iraque provocou mais indignação do que admiração entre os grupos islamitas, que aspiram à edificação de um Estado fundado de acordo com a Sharia.

A proclamação do restabelecimento de um regime político desaparecido há quase um século e que, no espírito coletivo dos árabes e muçulmanos representa sua era de ouro, corre o risco de agir como um imã atraindo fanáticos para a região.

"Todos os grupos islâmicos querem o califado", afirma Mathieu Guidère, professor de Islã na universidade de Toulouse. Mas o Estado Islâmico (EI), que anunciou a criação do califado, "é assimilado ao terrorismo, a massacres", explica à AFP.

Por meio de decapitações e crucificações, cujas imagens foram amplamente difundidas na internet, "o grupo transmite uma imagem muito ruim do islã e mancha este projeto, que é um ideal para os islamitas".

Tomando todos de surpresa, a designação do líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, como "califa" - sucessor do profeta Maomé como líder dos muçulmanos - tem sido rejeitada pela maioria dos islamitas e até mesmo pelos jihadistas.

'Organização terrorista'

Na Arábia Saudita, reduto do Islã sunita, o jornal Al-Riyadh, muitas vezes expressando um ponto de vista das autoridades, considerou que este califado se "reduz a uma pessoa à frente de uma organização terrorista".

Apelando para que o Estado Islâmico não seja "subestimado", o jornal afirma, no entanto, que seria "um erro exagerar sua iniciativa, imaginando que irá eliminar as fronteiras (...) para um grande califado islâmico".

O grupo jihadista lidera há três semanas uma ofensiva relâmpago no Iraque, tomando vastas áreas no norte e no oeste, e controlando grandes áreas no leste e no norte da Síria.

Os rebeldes da Síria, que combatem tanto o regime de Bashar al-Assad quando o EI, descreveu o anúncio do califado de "nulo e sem efeito".

Mesmo o ramo sírio da Al-Qaeda expressou sua insatisfação. O teórico religioso da Frente Al-Nosra, Abu Maryam al-Qahtani, acusou os jihadistas do IE de "excesso de zelo", considerando que eles eram um desastre para a "nação islâmica".

No Iraque, a influente associação dos Ulemás (teólogos do Islã) observou que o IE "não consultou o povo do Iraque, nem o da Síria."

'Uma heresia'

Um dos principais ideólogos jihadistas, Isam Barqawi, ou Abu Mohamed al Makdesi, denunciou a proclamação do califado.

"Será que todos os muçulmanos vão achar refúgio neste califado? Que se trata de um sabre afiado contra todos os opositores?", questionou.

"Não creiam que podem calar a voz da justiça gritando, proferindo ameaças e cometendo agressões", afirmou Makdesi dirigindo-se ao EI.

"Reformem-se, arrependam-se e deixem de matar muçulmanos e de desvirtuar a religião", declarou, condenando todos "os muçulmanos que matam outros muçulmanos".

E para o Jamaa Islamiya, do Líbano, próximo da ideologia da Irmandade Muçulmana, o anúncio é simplesmente uma "heresia", e os atos do EI "distorcem o Islã e enojam as pessoas da religião".

Mesmo os grupos salafistas preferiram manter certo distanciamento.

"Somos a favor de um califado, que é o centro de nossa ideologia. Mas tal Estado deve ser baseado em critérios que não são atendidos no momento", disse à AFP Daii Islam al-Chahhal, fundador do movimento salafista no Líbano.

"Esta organização impõe (o projeto de califado) pela força (...) e queima as etapas", acrescentou o xeque Nabil Rahim, da associação de ulemas do Líbano.

O Estado Islâmico, que reúne em suas fileiras milhares de combatentes bem armados, incluindo muitos jihadistas estrangeiros, prega a aniquilação de todos aqueles que não juram fidelidade a ele.

"Eles consideram que apenas eles são muçulmanos", explica Radwan al-Sayyed, professor de estudos islâmicos na Universidade Libanesa. E, prevê, "eles podem durar meses, graças à sua capacidade destrutiva".

Era de ouro

O califado durou continuamente por 14 séculos, até ser abolido por Ataturk em 1924.

Para muitos árabes, é sinônimo de lendário califas, como Harun al-Rashid, o desenvolvimento da ciência, do comércio, de ilustres poetas como Abu Nawas, o "poeta do vinho", ou Alhambra, o monumento árabe de Andaluzia.

Árabes e muçulmanos, no entanto, não sonham com um retorno ao califado, cuja memória, distante de fotografias históricas, "foi abolido depois de um século de colonialismo e nacionalismo árabe. Enquanto os ocidentais, conhecem apenas as 1001 noites ", observa Guidère.

Mas o projeto do Estado islâmico não para de atrair os jihadistas árabes ou da Europa.

"A utopia atrai. O projeto jihadista seduz pessoas que desafiam o sistema, como foi o caso com o comunismo na década de 60", diz o professor.

A menos que pare em sua dinâmica, o IE deve ganhar em poder e, quanto mais destaque, " mais vão atrair inimigos", ressalta Sayyed. Mas eles só desaparecerão "depois de massacres terríveis e destruição."

AFP