Navigation

Milhares de pessoas aplaudem Evo Morales no retorno ao seu reduto

O ex-presidente boliviano Evo Morales rodeado por apoiadores na cidade de Orinoca, em 10 de novembro de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 11. novembro 2020 - 16:52
(AFP)

Milhares de pessoas aplaudiram nesta quarta-feira(11) o ex-presidente boliviano Evo Morales em Chimoré (centro), três dias depois de o líder indígena voltar à Bolívia e atravessar o país com uma caravana que passou pelas cidades mais importantes de sua vida.

"Em um ano nunca me senti abandonado”, gritou nesta cidade do Trópico de Cochabamba, referindo-se a seu ano fora da Bolívia, arrancando aplausos de todos os presentes.

O ex-presidente acusou mais uma vez os Estados Unidos de provocarem o "golpe" contra ele, evocando o interesse de Washington pelo lítio boliviano.

Segundo os organizadores, o novo presidente Luis Arce, também do Movimento ao Socialismo (MAS), de Morales, participaria da festa, mas o ex-presidente informou que ele "está em processo de organização da gestão pública".

Com o ato, o líder indígena encerrou uma caravana de cem veículos, que percorreram em alta velocidade 1.200 km em estradas construídas em sua maioria durante seu mandato (2006-2019).

Evo quase não descansou desde que chegou a Villazon (sul), depois de cruzar a pé a fronteira com a Argentina, onde ficou 11 meses exilado.

Este ato tem um toque especial para o líder aimará: foi no Trópico de Cochabamba, há exatamente um ano, que ele deixou a Bolívia, após renunciar à Presidência em meio a protestos por sua polêmica quarta reeleição.

Foi aqui também que formou sua liderança como líder sindical dos plantadores de coca.

- "Evo é como nós" -

Assim como em Chimoré, cada local que visitou está carregado de grande simbolismo: Uyuni e o Salar que pretende transformar na capital do lítio do planeta e Orinoca, a cidade que o viu crescer.

Milhares de camponeses, ou mineradores, quase todos indígenas, aguardaram por horas o ex-presidente nos distintos povoados por onde a caravana passou.

Vestidos com trajes tradicionais, erguiam a whipala, a bandeira de sete cores que representa as comunidades andinas, e dançavam ao ritmo da música indígena de pequenas orquestras da Bolívia.

As diferentes comunidades lhe ofereceram pratos típicos, de quinoa até carne de lhama. Morales cumprimentava com abraços e pegava crianças no colo, sem nenhuma proteção sanitária contra o coronavírus.

A maioria deles repete o mesmo: "Evo é como nós".

Com 11,5 milhões de habitantes, 34,6% dos bolivianos vivem na pobreza. Em um contexto cada vez mais crítico devido à pandemia, os bolivianos querem repetir o "milagre econômico" do governo de Morales, quando Arce foi o ministro da Economia. À época, o país registrou um alto crescimento e uma redução da pobreza, de 60% para 37%.

"Aqui está o seu povo, ele sabe ouvir os indígenas", exclamou Elizabeth Arcaide, 43 anos, que não parava de enxugar as lágrimas durante o evento em Orinoca, onde centenas de pessoas se reuniram em um campo de futebol, apesar do sol escaldante, para receber o "filho do povo".

A Bolívia é um dos países latino-americanos com maior população indígena: 41% de seus 11,5 milhões de habitantes.

- A casa onde nasceu -

O líder aimará ficou emocionado ao visitar a casa de adobe (um tijolo rústico) e teto de palha onde nasceu há 61 anos, localizada em Isallave, perto da cidade rural de Orinoca.

"É preciso sempre voltar às raízes para fortalecer sua ajayu (alma)", disse o ex-presidente.

Em Orinoca, para onde Evo Morales se mudou ainda jovem, destaca-se o Museu da Revolução Democrática e Cultural, uma gigantesca construção moderna que homenageia seus quase 14 anos de governo.

O contraste é grande: ao redor só existem aldeias com ruas atravessadas por cabras e galinhas.

Para chegar a esta cidade são necessárias horas de estrada, em meio aos pampas desérticos de cor ocre, sem outras testemunhas além de uma grande variedade de cactos, vicunhas e lhamas.

Mas nem todos recebem Evo com a mesma paixão.

"Vá embora, não o queremos mais aqui, ele gosta muito de poder", repetia uma idosa da porta de um armazém.

O analista Daniel Valverde destaca que Evo Morales inspira muitas divisões no país e que sua lógica de "amigo e inimigo" se choca com a visão de "unidade de Arce".

"Nesse sentido, acho que haverá atrito", previu.

Partilhar este artigo

Participe da discussão

Com uma conta SWI, você pode contribuir com comentários em nosso site.

Faça o login ou registre-se aqui.