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Riqueza, vacas e iodelei: clichês sobre a Suíça

pessoa caminhando na montanha com um corno alpino nos ombros
Como grande parte do planeta imagina um suíço médio a passear. Keystone / Gian Ehrenzeller

Muitos estrangeiros associam o país a clichês, seja quando confundem a Suíça com a Suécia, seja quando acreditam que todo suíço é rico. Em alguns casos, essas crenças até têm um fundo de verdade; em outros, porém, são fruto de mal-entendidos.

A maioria dos clichês que os suíços no exterior precisam desmentir são, na verdade, estereótipos… sobre a Suécia. “Você é suíça? Por que não é alta e loira?” é uma pergunta que a leitora Angela já ouviu muitas vezes. “Vocês fabricam aquele lindo automóvel, o Volvo, não?”, perguntaram a Petra. “Ah, você é suíça!”, disseram a Ruth, “dá para notar o seu sotaque sueco!”.

“Ninguém acerta nunca”, testemunha Mark. “Nos perguntam sobre a Escandinávia ou ficam desapontados quando querem nos ouvir falar nossa língua materna e respondemos em alemão, francês ou italiano. ‘Não, eu quis dizer o sueco!’, dizem.”

Uma situação à qual é preciso se acostumar, ainda que, quando o orgulho nacional está em jogo, ela se torne mais difícil de engolir. Foi o que ocorreu na gafe cometida nas Olimpíadas de Milão (veja a imagem abaixo).

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Para cada suíço que ouve uma piada sobre a loja de móveis IKEA (de origem sueca), há certamente um sueco que precisa aguentar uma piada sobre o queijo com furos. Essa confusão tradicional entre os dois países inspirou a Secretaria de Turismo da Suíça a produzir o seguinte vídeo promocional:

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Os equívocos envolvem também outras nações, mas desta vez a culpa não está numa semelhança sonora entre os nomes, e sim no cinema.

“Noviça Rebelde? Nunca tinha ouvido falar até ir para o exterior”, escreve Sibylle. O musical norte-americano, famoso por canções como Do-Re-Mi Link externoe EdelweissLink externo, está repleto de deslumbrantes paisagens alpinas… austríacas, e não suíças.

Como não mencionar, então, o relógio cuco? A invenção, originária da região da Floresta Negra, na Alemanha, é o exemplo perfeito do que poderíamos chamar de “apropriação cultural involuntária”.

“Sempre me perguntavam sobre os relógios cuco”, escreve Annie, “até que comecei a responder com verdadeiras palestras sobre o assunto – e aí pararam.”

Infelizmente, não temos à disposição uma transcrição das aulas ministradas por Annie, mas provavelmente boa parte delas era dedicada a Orson Welles e ao seu tão genial quanto impreciso (sobretudo para ouvidos helvéticos) “cuckoo clock speech”. Esses vinte segundos de grande cinema no filme O Terceiro HomemLink externo são a razão pela qual o relógio mecânico de madeira alemão será atribuído à Suíça até o fim dos tempos.

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Dinheiro, dinheiro, dinheiro

A grande maioria dos comentários dos leitores da Swissinfo diz respeito à suposta riqueza de quem vem da Suíça. É verdade que, em termos de PIB per capita, o país alpino figura regularmente entre os dez primeiros no ranking mundial. Se a isso somarmos a fama dos bancos suíços e dos relógios de luxo, não é de surpreender que Denise já tenha ouvido: “A Suíça é rica. Lá muitos ganham sete mil francos por mês e você até encontra lingotes de ouro no chão.”

Vários dos nossos artigos relativizam essa visão. A pobreza existe também na Suíça, e o elevado custo de vida aparece igualmente nos comentários sobre os estereótipos helvéticos – como o de Philippa, a quem perguntaram: “A Suíça é mesmo tão cara assim?”

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Béa, que também já ouviu repetidas vezes o comentário “vocês são ricos demais”, lembra que muitos suíços “se mudam para o exterior porque é simplesmente impossível viver no país apenas com a aposentadoria básica.”

Felizitas, suíça radicada na Austrália, não pôde deixar de achar hilário o comentário de uma australiana que lhe disse com franqueza: “Se eu viesse de um país pobre como o seu, também tentaria emigrar para um lugar melhor.”

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Homem sobre uma colina frente a uma praia

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Suíços do estrangeiro

Vida digna na Suíça é inviável para muitos aposentados

Este conteúdo foi publicado em Custo de vida alto obriga aposentados suíços a deixar o país. Em 20 anos, dobrou o número deles vivendo fora da Suíça. Portugal e Tailândia lideram destinos.

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Limpeza e pontualidade?

Um estereótipo perene, que aparece sob diferentes formas nos comentários de nossos leitores, é o de uma Suíça limpa. “Não vejo ninguém mencionar a lendária limpeza”, escreve Pierre, surpreso que o tema ainda não tivesse sido citado.

Pontualidade, ordem, trabalho bem feito. Essas qualidades são clichês positivos bastante difundidos, mas costumam ter o seu lado oposto: uma imagem de pouca flexibilidade e excesso de regulamentação.

A Suíça é “rica, segura, limpa, bonita, fria, precisa… e por isso rígida”, resume Jean Louis. “Sempre ouço duas versões opostas: de um lado, a precisão, a ordem e a pontualidade. Do outro, uma cultura entediante, gente rústica e avarenta”, confirma Ramiro. Na Suíça se pensa “em termos de limites e proibições, não de crescimento e oportunidades”, acrescenta Jorg.

Vaca para Roger Federer

Os estereótipos alpinos também não faltam. “Não cresci num chalé de madeira e não sei cantar o iodel (tradicional canto alpino)”, já precisou esclarecer Alicia mais de uma vez. “Vocês dormem em camas de feno como a Heidi?”, perguntaram a Tony. “Você não sente falta da neve e do esqui?”, lamentaram com Ruth, que, no entanto, se sente muito bem na Flórida e não sabe esquiar.

“As pessoas presumem que eu gosto de chocolate, de queijo e que sou bom esquiador. É tudo verdade!”, escreve Stephan.

Vale dizer que a própria Suíça contribui para promover no exterior a imagem de um país bucólico e dedicado ao pastoreio. “Por que Roger Federer ganha uma vaca quando vence e onde ele a guarda?”, perguntaram a Nick.

Para quem não sabe: aconteceu de verdade. Após seu triunfo em Wimbledon em 2003, os organizadores do torneio de Gstaad, no cantão de Berna, presentearam o tenista suíço com uma vaca chamada Juliette. Em 2013, apesar da derrota na Inglaterra, ele ganharia outra, Désirée. As vacas, porém, permaneceram nos pastos e jamais pastaram no jardim da mansão do tenista suíç.

Roger Federer ao lado de uma vaca.
Federer e o seu «prémio», Désirée, em 2013, em Gstaad. Keystone / Peter Schneider

Neutra, portanto sem Exército

A neutralidade aparece com menos frequência nos comentários de nossos leitores do que se poderia esperar e, em geral, está associada a uma concepção equivocada da Suíça.

“Neutralidade significa nenhum exército”, escreve Jaime, resumindo uma ideia comum: um país neutro seria, por definição, desprovido de forças armadas. “A Suíça tem exército? O canivete é a melhor arma deles?”, perguntaram com ironia a Victor.

Há ainda a confusão entre a bandeira helvética e o símbolo da Cruz Vermelha, mencionada por Christian – um equívoco que, involuntariamente, reforça a imagem de uma nação mais inclinada à mediação do que ao conflito. Em outros casos, porém, a neutralidade é lida como sinônimo de oportunismo, uma desculpa que o país usaria “para comer de todas as bandejas”, crítica que A. relata em nosso debate.

A maioria dos suíços não guarda secretamente uma pilha de lingotes de ouro no cofre do banco, não saberia tirar uma nota sequer de um corne dos AlpesLink externo (o tradicional Alphorn, em alemão) e não conseguiria ordenhar uma vaca.

Pelos comentários de nossos leitores, porém, descobre-se que os suíços do estrangeiro souberam desenvolver admiráveis competências para explicar o seu país de origem, demonstrando, muitas vezes, uma bela capacidade de rir de si próprios.

Edição: Samuel Jaberg

Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl

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