Especialistas alertam para volta da lógica imperial nas potências
Para justificar a captura de Nicolás Maduro e as ameaças à Groenlândia, os EUA afirmam ter o direito de “dominar seu hemisfério”. Com a invasão russa da Ucrânia e a pressão chinesa sobre Taiwan, especialistas alertam para o retorno da lei do mais forte.
“O domínio americano do hemisfério ocidental nunca mais será questionado”. Foi o que Donald Trump declarou em 3 de janeiro, logo após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas. A fala faz referência à nova Estratégia de Segurança NacionalLink externo do país, publicada em novembro de 2025, que reivindica explicitamente o legado da Doutrina MonroeLink externo de 1823, responsável por colocar a América Latina na esfera de influência de Washington.
Essa intervenção, contrária ao direito internacional, foi seguida quase imediatamente por ameaças dos EUA de tomar a Groenlândia, uma região que Donald Trump considera fundamental para a segurança de seu país. Os argumentos lembram os apresentados por Vladimir Putin para justificar a invasão da Ucrânia. O presidente russo também não escondeu seu desejo de restabelecer a influência de Moscou sobre as antigas repúblicas soviéticas.
E, embora a China veja a “reunificação” com Taiwan como uma necessidade estratégica e histórica, cresce entre especialistas a avaliação de que o mundo caminha para uma divisão em “esferas de influência”, dominado por impérios, onde prevalece a lei do mais forte.
Do que exatamente estamos falando?
“Quando falamos em esferas de influência, estamos nos referindo ao que existia antes da ordem mundial atual, ou seja, antes da II Guerra Mundial, voltando ao século 19, quando o planeta era dividido em impérios”, explica Cédric Dupont, professor do Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais (IHEIDLink externo, na sigla em francês).
Trata-se de um sistema oposto à atual ordem mundial baseada no direito internacional, no qual as potências deixam de respeitar a soberania dos Estados. Se uma delas sente, por razões de segurança econômica, militar ou humana, que precisa intervir em sua região, ela o faz sem pedir a opinião de ninguém. Parte-se do princípio de que todos agem da mesma forma em suas respectivas zonas de influência”.
É isso que estamos vendo hoje?
“O desejo de Donald Trump de controlar a Venezuela faz, de fato, parte de uma lógica de esferas de influência”, afirma Dupont. Resta saber, porém, se outras potências, como China e Rússia, concordam com a ideia de que cada país pode fazer o que quiser dentro de sua própria esfera.
Tanto os governantes em Pequim quanto em Moscou condenaram a ilegalidade da intervenção americana. No entanto, nem a China, que investiu bilhões de dólares na Venezuela, nem a Rússia, aliada próxima do regime, intervieram militarmente. Isso representa um cheque em branco para os Estados Unidos?
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A Suíça congelou realmente os “ativos” de Nicolás Maduro?
“A Rússia, enfraquecida por quatro anos de guerra na Ucrânia, não tinha meios para ajudar a Venezuela”, diz o especialista, que acredita que a resposta tímida de Moscou não deve ser interpretada como um gesto benevolente em relação a Washington, mas sim como “uma admissão de que o país vai se concentrar em sua própria região”.
Quanto à China, seria mais relevante observar sua reação caso os Estados Unidos atacassem o Irã, responsável por 13% de suas importações de petróleo. “Pequim é pragmática. Seus principais interesses na América Latina não estão na Venezuela; portanto, não há custo real em não intervir”, acrescenta Cédric Dupont.
Por que esse retorno à sobrevivência do mais forte?
“O retorno das esferas de influência decorre de uma visão de jogo de soma zero, compartilhada principalmente por Donald Trump e Vladimir Putin”, ressalta Dupont. Trata-se de uma lógica segundo a qual os ganhos de uma potência representam as perdas de outra. De acordo com o especialista, essa abordagem não é plenamente compartilhada por Xi Jinping, que privilegia o comércio com o maior número possível de parceiros.
Esse retorno também pode ser explicado pela percepção de que os recursos do planeta – combustíveis fósseis, terras raras, minerais essenciais e outros – são finitos, apesar dos avanços tecnológicos. “Alguns desenvolvimentos futuros se tornarão inacessíveis para parte dos países, levando as potências a adotarem uma postura predatória”, acrescenta.
Quais são os limites dessa análise das relações internacionais?
A noção de esferas de influência aparece com frequência na mídia, mas não explica completamente a situação atual.
Em primeiro lugar, não está claro que os Estados Unidos se contentarão apenas com o continente americano. “Os EUA nunca se desvencilharão do Oriente Médio”, analisa Dupont, que destaca a alta qualidade do petróleo da região e a presença de aliados como Israel. O país também tem interesse em garantir que Taiwan, principal produtor mundial de semicondutores, não passe para o controle chinês”.
Laurence Nardon, especialista do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRILink externo), ressalta que “é preciso diferenciar esferas de influência política e esferas de influência econômica, que não se sobrepõem em um mapa. Quando observamos as relações econômicas, vemos que, em países que Washington acredita dominar, é na verdade Pequim que vem se impondo”.
Assim, a China tornou-se o principal parceiro econômico de vários países sul-americanos, incluindo Brasil, Chile e Peru. Sua iniciativa Novas Estradas da Seda, que financia o desenvolvimento de infraestrutura por meio de empréstimos bilaterais, também está bem estabelecida na região.
Esse mundo é estável?
“Um mundo de esferas de influência não é nada estável”, afirma Nardon. O equilíbrio de poder está em constante mudança. As potências buscarão se impor em suas esferas, e sempre haverá resistência. Além disso, as esferas entrarão em conflito entre si. No século 19, quando o termo começou a ser usado, ele descrevia as potências coloniais. Cada uma impunha suas próprias regras, e os países colonizados tinham pouca margem de manobra. Hoje, vemos que a Ucrânia está resistindo, assim como Taiwan, e os países da América Latina também resistirão”.
Qual é o papel da ONU?
Já enfraquecidas por uma crise orçamentária e de liquidez, as Nações Unidas mostram-se impotentes diante das ambições imperialistas das grandes potências.
O Conselho de Segurança, bloqueado pelos vetos da China, dos Estados Unidos, da França, do Reino Unido e da Rússia, não conseguiu impedir nem reagir à invasão da Ucrânia ou à captura de Nicolás Maduro.
“Isso significa o fim da organização ou indica que ela terá de abandonar as questões de segurança e se concentrar apenas em temas econômicos e sociais? É uma questão em aberto”, afirma Dupont.
Após se retirar da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Washington anunciou recentemente sua saída de dezenas de outros órgãos internacionais. Historicamente o maior doador da organização, os EUA também reduziram suas contribuições em diversas áreas, incluindo a ajuda humanitária.
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Seja nos órgãos multilaterais ou nas agências especializadas, “a ONU está em uma situação delicada”, avalia Nardon. “Hoje, apenas a Europa liberal parece disposta a manter o sistema internacional como ele existe há oito décadas, com respeito ao direito internacional, à soberania dos Estados, à igualdade entre os países e à representação igualitária de todos na ONU”.
No Fórum Econômico de Davos (WEF), Donald Trump anunciou a criação de seu próprio “Conselho da Paz”, apresentado explicitamente como uma alternativa às Nações Unidas. Para obter um assento permanente, os Estados interessados teriam de pagar um bilhão de dólares.
Edição: Virginie Mangin
Adaptação: Alexander Thoele
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