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Roche e Novartis batem recordes, mas alertam sobre competitividade

Edifícios em uma grande cidade
A cidade da Basileia é a sede da Roche e da Novartis, duas das maiores empresas farmacêuticas do mundo. Keystone / Georgios Kefalas

Apesar de resultados recordes das multinacionais Roche e Novartis, a Suíça vive um momento de apreensão quanto ao futuro de sua indústria farmacêutica. Pressionadas por concorrência internacional, exigências dos EUA e mudanças fiscais globais, empresas e governo articulam reformas para manter o país como polo de inovação.

O ano passado foi um bom ano para a indústria farmacêutica suíça. As vendas da Roche aumentaram 7% (a taxas de câmbio constantes), atingindo 61,5 bilhões de francos (US$ 79,8 bilhões), impulsionadas pela forte demanda por medicamentos para esclerose múltipla, doenças oculares e hemofilia A. Com dez novas moléculas entrando na fase final de ensaios clínicos, 2025 foi “um ano recorde para a Roche”, afirmou o diretor-executivo Thomas Schinecker na conferência anual de resultados da empresa, em janeiro.

Sua concorrente do outro lado da cidade, a Novartis, também estava otimista em relação a 2025. Com as vendas de suas principais marcas “bem acima das expectativas”, segundo seu relatório anualLink externo, isso foi suficiente para aumentar a remuneração do diretor-executivo Vas Narasimhan em 30%. Mesmo com a expectativa de que a concorrência de genéricos afete as vendas em 2026, as ações da Novartis nos EUA estavam sendo negociadas em níveis recordes no início de fevereiro.

Agora, elas são as duas empresas mais valiosas da Suíça, de acordo com um ranking global da consultoriaLink externo EY. A Roche subiu da 46ª para a 31ª posição, com uma capitalização de mercado de US$ 353,4 bilhões, um aumento de mais de 50% em relação ao ano anterior. A Novartis subiu da 66ª para a 53ª posição, com US$ 265,2 bilhões, substituindo a gigante alimentícia Nestlé como a segunda empresa suíça mais valiosa.

Seria de se esperar que todas essas boas notícias para as maiores empresas da Suíça fossem boas notícias para a Suíça como um todo. As duas empresas estão entre as maiores contribuintes do país, empregam cerca de 25 mil funcion´ários e sustentam milhares de empregos indiretamente.

O setor biofarmacêutico como um todo, que inclui milhares de pequenas empresas, foi responsávelLink externo por 40% do crescimento econômico do país na última década. Ele gera cerca de 7% do PIB e mais de 40% das exportações suíças, tornando-se o setor exportador mais importante.

Mas, em vez de comemoração, políticos suíços e líderes da indústria estão correndo para implementar o que consideram reformas urgentes para manter a reputação da Suíça como uma potência farmacêutica.

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Em janeiro, o governo suíço convocou um grupo de trabalhoLink externo sobre “localização de ciências da vida” para examinar maneiras de “criar as melhores condições possíveis” para o setor. Poucos dias depois, o governo da cidade de Basileia organizouLink externo um evento à margem do Fórum Econômico Mundial (WEF) para lembrar às partes interessadas que a cidade é um polo global da indústria de ciências da vida.

“A Suíça está numa encruzilhada”, escreveu a associação industrial Interpharma num comunicado de imprensaLink externo de 8 de janeiro. “Os desenvolvimentos geopolíticos e as novas regras internacionais estão pondo à prova severamente a competitividade, a capacidade de inovação e a atratividade do país.”

Competição crescente

As preocupações com a atratividade da Suíça não são totalmente novas. O país tem enfrentado uma concorrência crescente de lugares como a Holanda e a Irlanda, que aumentaram os incentivos para que multinacionais globais se instalem em seus territórios.

A pandemia da Covid-19 aumentou a pressão, à medida que os países se tornaram mais conscientes do valor que as empresas farmacêuticas trazem em termos de investimento a longo prazo, empregos bem remunerados e acesso à tecnologia.

A Suíça tem se apoiado em altos salários e boas condições de trabalho para atrair talentos, mas isso também a tornou um lugar caro para se fazer negócios. Países como Espanha, Arábia Saudita e Eslovênia estão se posicionando como alternativas de menor custo. Diversos países, como Alemanha e Dinamarca, criaram estratégias nacionais para a indústria farmacêutica com incentivos fiscais para setores com alta intensidade de pesquisa, grandes investimentos em universidades e startups, e processos regulatórios ágeis.

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Vista panorâmica de uma cidade

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No mais recente ÍndiceLink externo Global de Competitividade Industrial 2025 da BAK Economics, encomendado pela associação comercial suíça scienceindustries, a Suíça caiu uma posição, ficando em terceiro lugar, atrás dos EUA e da Irlanda. Empatou com a Dinamarca, sede da Novo Nordisk, fabricante do medicamento de sucesso para perda de peso Wegovy.

A Suíça também precisa agora competir com a China, um grande mercado que se tornou uma importante fonte de inovação em biotecnologia. Em 2024, o país realizou quase um terçoLink externo dos ensaios clínicos mundiais, um aumento em relação aos 5% de uma década atrás. Tanto a Roche quanto a Novartis possuem grandes centros de P&D no país. Em maio passado, a Roche anunciouLink externo um investimento de 2,04 bilhões de yuans chineses (US$ 282 milhões) para criar um novo polo de biofabricação em Xangai.

Depois, temos o presidente dos EUA, Trump, com suas ameaças de tarifas e exigências de preços mais baixos para medicamentos. A Roche e a Novartis concordaram em investir um total de US$ 73 bilhões (58 bilhões de francos) nos próximos cinco anos, com o objetivo de produzir todos os medicamentos essenciais para pacientes nos EUA em território americano. Em dezembro, elas estavam entre as nove empresas que assinaram contratos com a Casa Branca para reduzir os preços de novos medicamentos nos EUA.

Esses acordos ajudaram a evitar tarifas sobre produtos farmacêuticos, mas sua dimensão e a rapidez com que foram anunciados servem como um lembrete do peso que o mercado americano possui tanto em termos de volume quanto de preços elevados.

“Os EUA e a China são economicamente muito fortes e usam seu poder econômico para garantir mais investimentos em suas economias”, disse Schinecker. “Como uma empresa global, precisamos investir nesses mercados.”

Com uma população de apenas nove milhões de habitantes, a Suíça não possui o mesmo poder de influência. Na última década, 40% do capital e dos investimentos em P&D da Roche foram destinados aos EUA, que representaram 47% das vendas em 2025. A empresa pretende aumentar a participação dos EUA nos investimentos para 50%. A Suíça recebeu quase um terço do investimento total no mesmo período, mas representa apenas 1% das vendas.

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Presidente Trump

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Preços de medicamentos

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Pressão interna

Como se a pressão externa não bastasse, a Suíça enfrenta seus próprios desafios internos. O financiamento nacional para ciência e pesquisa corre o risco de sofrer cortesLink externo como parte das medidas de austeridade do governo. Acordos bilateraisLink externo com a UE aguardam aprovação do parlamento e dos eleitores suíços, o que gera incerteza quanto ao acesso ao mercado da UE. Uma iniciativa para limitar a população suíça a 10 milhões será submetida a referendo em junho. Se aprovada, poderá restringir o acesso a talentos estrangeiros.

O setor também está insatisfeito com a implementação na Suíça da alíquota mínima de imposto corporativo de 15% da OCDE, aprovada pelos eleitores em 2023. A Roche afirmou que pagará 155 milhões de francos a mais em impostos em 2025 devido à alíquota mais alta, embora parte desse valor retorne à empresa na forma de incentivos fiscaisLink externo. Enquanto isso, os EUA e a China não demonstram qualquer intenção de adotar a mesma alíquota.

Há também a questão dos preços dos medicamentos, que a indústria argumenta serem muito baixos na Suíça, o que levou a longas negociações com o Departamento Federal de Saúde Pública. As exigências de Trump para que os preços de novos medicamentos sejam atrelados aos da Suíça e de outros países industrializados estão alimentando a ansiedade em um momento em que as autoridades de saúde suíças tentam conter os custos da assistência médica.

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As empresas alertaram que podem adiar lançamentos ou até mesmo não solicitar reembolso dos seguros na Suíça caso não consigam garantir determinados preços.

O setor tem uma longa lista de reformas desejadas que, em sua opinião, poderiam melhorar as condições estruturais, desde aprovações regulatórias mais rápidas e preços confidenciais até maior digitalização e novos acordos comerciais.

É muito cedo para saber se e em que medida a Suíça poderá perder investimentos futuros, bem como as consequências disso para os empregos locais e para a economia.

Por ora, tanto a Roche quanto a Novartis demonstram publicamente seu compromisso com a Suíça. Após uma reunião com autoridades da cidade de Basileia na semana passada, Narasimhan escreveuLink externo no LinkedIn que, para a Novartis, “Basileia é o lar” e que a empresa “se orgulha de fazer parte desta comunidade e de contribuir para o fortalecimento da posição de Basileia como um polo global de inovação”.

A Suíça ainda supera muitos países em pesquisa de ponta e desenvolvimento de medicamentos. Mas há uma crescente percepção de que muitas das características, como estabilidade e confiabilidade, que ajudaram a indústria farmacêutica a prosperar na Suíça podem não ser suficientes no futuro.

Edição: Virginie Mangin/gw

Adaptação: DvSperling

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