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Artista suíço instala o cansaço em Milão

Detalhe da instalação de Reto Pulfer em Milão swissinfo.ch

O artista plástico Reto Pulfer instalou a exaustão em Milão. A mostra “ Representar o cansaço” é fruto da residência de um ano de estudos em Roma.

Este conteúdo foi publicado em 23. setembro 2011 - 19:17
Guilherme Aquino, swissinfo.ch

A escolha do tema revela o estado de espírito de um dos principais representantes da novíssima geração de artistas suíços.

Roma  exerce sobre os residentes uma grande pressão que contrasta com a necessidade do artista de mergulhar no próprio imaginário. No caso de Reto Pulfer foi uma  grande criatividade ligada a um extremo cansaço.

 A instalação ocupa o salão da entrada principal do prédio do Instituto Suíço, no centro da cidade. Ela é composta por diferentes materiais e objetos protegidos por panos de seda, algodão e pedaços de couro costurados e pregados que cobrem as paredes e o teto do espaço.

O ponto de partida é uma história que pode ser real ou inventada. Dentro desta enorme tenda Reto Pulfer sobrepõe estratos de “memória” – verdadeira ou surreal -impressos na leveza dos tecidos que compõem a instalação e que abrigam objetos como latinhas, pedaços de pau, linhas.

De forte impacto cenográfico, ela convida o visitante a uma reflexão sobre o percurso e realizado pelo autor e o seu desgaste até o ato final. Ao mesmo tempo, a obra é o meio de comunicação e a própria mensagem.

A escolha de Reto Pulfer para a exposição reflete o jeito suíço de realizar e viver a cultura das próprias raízes. “ Ele finge escolher materiais descartados aleatoriamente, mas tudo é muito pensado e imaginado. Achamos que o seu trabalho tem um lado muito interessante do ser suíço, daquilo que é tradicional de um filão suíço que tem a ver com uma estranha insanidade, um surrealismo alcançado através da racionalidade. Este é um filão artístico nobre e, sobretudo, literário da Suíça”, afirma à swissinfo.ch o diretor artístico e curador Salvatore Lacagnina.

A interpretação do trabalho de Reto Pulfer não é tarefa simples. A  intuição e a visão cobrem um elaborado e metódico processo de criação do trabalho artístico. A instalação cifrada ao seu modo deixa ao visitante uma “chave” capaz de abrir uma infinidade de portas e janelas que levam às diferentes leituras da obra acabada, cansada, exausta, apenas para ficar no tema.

Cansaço, produção e potência

A combinação usada por Reto Pulfer encontra na costura com fechos e zíperes as ferramentas de multiplicação das possibilidades cenográficas. Os tecidos, ligados uns aos outros, podem ser abertos e fechados alterando os sistemas, abrindo e fechando caminhos e passagens secretas na superfície dos panos.

 Reto Pulfer faz da obra um concentrado de energia. Pilhas, velas, ferros envergados acumulam uma potência, sob o controle do artista, derivada da extenuação, do esgotamento dele próprio.

“ O cansaço é um estado de produção, depois da mostra, depois de fazer alguma coisa existe a exaustão. Sei que é um paradoxo porque neste ponto também existe algo de novo, de potente, a obra, mas junto com o cansaço. Eu quero dizer que a criação artística é sempre um trabalho que representa um exaurimento. Eu quis criar uma atmosfera que representasse este estado físico e mental”, afirmou Reto Pulfer à swissinfo.ch.

Ele elaborou três pequenos altares para expor os materiais e os objetos escolhidos, mas aparentemente eleitos e recolhidos ao acaso. O palco triplo de adoração da obra do artista abriga diferentes elementos, isolados entre si, mas que juntos compõem um todo.

Os elementos concretos desta singular exposição, além dos panos e couro, são: os vergalhões contorcidos sobre si próprios e apoiados sobre o chão; a vela acesa que exala uma essência de baunilha ao lado das baterias elétricas, o timo e as cascas de um limão espremido à última gota repousam numa pequena caixa ao lado de um pedestal de acrílico; e, finalmente, o caixote de madeira construído e usado pelo artista para transportar a instalação completa de Roma a Milão.

Representação “diplomartística”

A co-curadora da mostra, Valentina Sansone explica que “o estado de cansaço representa a energia que foi usada para a criação da obra. A produção, que é o processo artístico, exaure as energias. O timo, o cheiro dos tecidos, as obras de Pulfer criam ambientes únicos”. Os perfumes da erva aromática, do limão e da baunilha  borrifados na instalação, ajudam a recarregar as “pilhas” do espírito e, ao mesmo tempo, atraem o visitante para explorar a obra com os cinco sentidos.

A instalação é silenciosa, mas quem fez barulho foi o autor. Reto Pulfer realizou uma performance musical diante da plateia presente à mostra. De surpresa, ele entrou em cena no meio dos tecidos, como uma aparição, para descarregar e transformar a energia mental em mecânica e em ondas sonoras. Com gritos guturais, incompreensíveis e gestos corpóreos improvisados, ele aguçou a audição dos visitantes que se transformaram em atentos ouvintes.

Palavras e sons representam ecos primitivos para a construção da obra. O jogo de memória falsa ou verdadeira se entrelaça com um jogo de cena. Ele usa a arte como instrumento politico e, de propósito, usa a expressão “Vertretung” – embaixada, em português – como um ponto de interrogação sobre a exposição artística na sede de uma representação diplomática do país de origem em terra estrangeira.

Biografia breve

Reto Pulfer nasceu em Basileia, em 1981. Atualmente, ele vive em Berlim.

Ele cursou a Escola Comercial mas antes tinha sido reprovado no teste de ingresso para a Escola de Artes.

A instalação em exibição traduz o estado de esvaziamento de ideias e a exaustão psicofísica do artista.

As obras de Reto Pulfer nascem de histórias inventadas ou não, semelhantes aos exercícios de memória, nas quais os personagens e imagens podem adquirir formas muito diferentes.

O artista suíço já expôs em  galerias e museus na China, Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Inglaterra, Indonésia, Tailândia, Japão, Itália, França, Cingapura.

Até agora, ele participou de quase 60 mostras coletivas, 14 individuais, além da curadoria de dez projetos artísticos.

Todos os anos, o Instituto Suíço de Roma recebe seis artistas e seis pesquisadores selecionados por uma comissão externa para uma residência de um ano.

A sede de Milão do Instituto Suíço de Roma abriga a mostra de Reto Pulfer até o dia 5 de novembro de 2011.

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