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Ouro valoriza com a pandemia, mas a que custo?

Uma pequena área da região de La Pampa no Peru está sendo replantada depois que mineiros ilegais desmataram grandes extensões da floresta tropical. Paula Dupraz-Dobias

O boom nos preços do ouro durante a pandemia manteve as refinarias suíças em atividade, mas também impulsionou a mineração ilegal, colocando em perigo vidas e o meio ambiente.   

Este conteúdo foi publicado em 25. agosto 2020 - 16:59
Paula Dupraz-Dobias in Geneva

O aumento da demanda pelo metal, considerado com um porto seguro financeiro, levou os preços do ouro a oscilar nas últimas semanas em seus níveis mais altos desde 2011. Mark Haefele, Diretor de Investidores do banco suíço UBS, escreveu que o metal tem ainda mais espaço para se recuperar se as tensões geopolíticas aumentarem. Entre março e junho, a Suíça, onde cerca de 60% da oferta global é refinada, enviou volumes recordes de ouro para os Estados Unidos para satisfazer a demanda dos investidores.  

Entretanto, com as autoridades de muitos países produtores de ouro impondo medidas rigorosas de confinamento para limitar a propagação do coronavírus, o setor ilegal de mineração de ouro tem florescido. Com algumas minas industriais fora de ação, os garimpeiros ilegais estão compensando a falta de ouro no mercado.    

Mineração subterrânea no Peru  

Na floresta tropical peruana, apenas um ano após o governo ter enviado a polícia e o exército para ocupar terras devastadas pelos mineiros numa operação contra a mineração ilegal, a situação é preocupante. "As organizações criminosas não estão diminuindo sua presença", disse à swissinfo.ch. Lucía Dammert, professora peruana especializada em segurança pública na Universidad de Santiago do Chile.  

"Há uma presença crescente de trabalho infantil e tráfico humano, especificamente de mulheres para a prostituição", acrescentou Dammert, dizendo que a crise econômica devido às medidas de confinamento, agravou ainda mais a situação. Em abril, a economia do país contraiu 40% em comparação com o mesmo mês em 2019. Cerca de 72% da população dependem da economia informal e as restrições do coronavírus já levaram ainda mais pessoas a procurar atividades ilegais.  

O Peru é o sétimo maior produtor mundial de ouro, do qual cerca de 20% é extraído ilegalmente. Nos últimos 30 anos, cerca de 960 quilômetros quadrados de floresta tropical desapareceram à medida que pessoas de partes pobres do país foram atraídas para áreas onde o metal é encontrado. As mulheres frequentemente ficam presas em um ciclo vicioso de prostituição, dívida e escravidão.   

O General Raul del Castillo, chefe da polícia ambiental do país, disse à swissinfo.ch que desde o início da pandemia, a luta contra a mineração ilegal de ouro não tem sido fácil. Os recursos públicos foram desviados para o combate à Covid-19, enquanto a força policial nacional foi duramente atingida pelo vírus, com cerca de 24.000 casos confirmados e aproximadamente 400 fatalidades dentro da corporação. Desde meados de julho, Madre de Dios, que tem sido um ponto focal para a mineração ilegal de ouro, registrou a maior taxa de infecção dentro do país.  

Del Castillo sustentou que, mesmo com apenas um terço da capacidade que suas forças tinham em 2019, o impacto da fiscalização dentro da vasta e agora árida área de La Pampa, na região de Madre de Dios, foi positivo.  

Mas ele disse: "Muitos dos mineiros em Madre de Dios, devido à presença das forças policiais e ao medo de serem processados, migraram para outras regiões onde essa presença não é tão grande, para continuar suas atividades ilícitas". O general disse que muitos haviam se mudado para as regiões de Libertad, no noroeste, Arequipa, e partes de Cusco não muito longe de Madre de Dios, onde não houve tanto desmatamento, mas onde os abusos dos direitos humanos e a poluição são abundantes. Outros criaram acampamentos para minerar ilegalmente no chamado Corredor Mineiro em Madre de Dios, onde a mineração normalmente só é permitida sob condições determinadas.  

"Tendo em vista os ganhos potenciais, eles continuam a operar. Eles não vão dizer: 'Estou acabado e vou para casa'. Eles continuarão até que a presença do Estado se torne mais importante", disse ele.  

Luis Hidalgo, governador de Madre de Dios, disse ao diário nacional El Comercio, que com a mineração em andamento os comerciantes "informais" na capital da região, Puerto Maldonado, têm comprado dos mineradores por menos da metade do preço habitual, já que as opções de venda encontram-se agora mais limitadas.  

Uma das muitas lojas de comércio de ouro em Madre de Dios antes do início da pandemia. O metal continua a ser produzido e comercializado com desconto, de acordo com o governador da região, pois a Covid-19 está em plena marcha. Paula Dupraz-Dobiaz

Caçando peixe grande

Del Castillo argumentou que é importante ir atrás dos responsáveis pela compra e lavagem do ouro, falsificando documentos onde o metal possa parecer legítimo, "antes de exportá-lo para destinos como a Suíça, Dubai e China".   

Seu serviço foi envolvido em uma operação de tocaia no início deste ano envolvendo a prisão de membros de uma rede mafiosa em cinco regiões do Peru e a apreensão de 200 quilos de ouro destinados à Suíça, Alemanha, Dubai, Índia e China. O ouro era extraído dentro de túneis escavados em colinas atrás de estruturas feitas para parecerem casas, nas quais os trabalhadores eram trancados durante a noite.   

Lingotes de ouro e sacos de solo misturados com uma alta concentração do metal precioso no valor estimado de 10 milhões de dólares foram armazenados perto do aeroporto internacional de Lima para serem exportados para esses países através de empresas de mineração legais registradas no Peru. Uma dessas empresas, Veta Dorada, exportou ouro para a Suíça no início deste ano, de acordo com os registros alfandegários peruanos compartilhados com a swissinfo.ch. A empresa disse ao site de notícias Mongabay que "compra minério de ouro de pequenos mineiros formais e artesanais devidamente registrados no Ministério de Energia e Minas". 

Del Castillo disse que estão em andamento investigações para descobrir mais sobre as ligações estrangeiras com a mineração ilegal.  

Helicóptero da polícia sobrevoa a área devastada de La Pampa na selva peruana em 2019, antes que o número de forças fosse reduzido devido à pandemia. Muitos mineiros ilegais se mudaram para outras áreas do país. Paula Dupraz-Dobias


A indústria suíça de ouro  

Na Suíça, três das maiores refinarias do mundo, localizadas no Ticino, foram forçadas a fechar por algum tempo como parte das medidas impostas para conter a pandemia do coronavírus.  O cantão do sul que faz fronteira com a Itália foi o mais atingido nos primeiros meses da pandemia. As refinarias, PAMP, Valcambi e Argor-Heraeus processam um terço da oferta mundial de ouro.  

Neil Harby, diretor técnico da LBMA (London Bullion Market Association), cujos membros incluem empresas de mineração, refinarias, joalheiros e bancos globais, disse que, apesar dessas refinarias já terem reiniciado suas operações, elas têm que esperar e ver como a indústria de relojoaria e joalheria se recuperará das perdas.  

"A demanda do mercado de investimentos está realmente mantendo as refinarias funcionando na capacidade em que podem funcionar", disse ele.   

A LBMA não respondeu às perguntas sobre se o ouro produzido ilegalmente pode estar entrando nas cadeias de abastecimento de seus membros e que esforços estão sendo feitos para evitar isso. 

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