Suíça aposta na diplomacia científica para prevenir conflitos no Ártico
O Ártico não é mais uma fronteira remota. A região se tornou um epicentro geopolítico e ambiental cujas transformações têm repercussões em todo o mundo. A Suíça, que tem status de observadora no Conselho do Ártico, está fazendo contribuições valiosas para a governança e o diálogo multilateral na região.
Com o ritmo cada vez mais intenso das mudanças climáticas, o Ártico está aquecendo quatro vezes mais rápido que a média global, um fenômeno que afeta drasticamente o gelo marítimo, o permafrost e os ecossistemas. Essas mudanças não estão limitadas ao Círculo Polar: elas afetam os padrões climáticos, os níveis dos mares e a biodiversidade em todo o planeta. Assim, o Ártico tem se mostrado um sistema global de alerta precoce para a saúde do planetaLink externo.
Ao mesmo tempo, o território está se tornando uma zona estratégica para diversos países. O derretimento do gelo possibilita o surgimento de novas rotas de navegação e expõe reservas potencialmente vastas de petróleo, gás e minerais raros, o que pode intensificar a competição entre países, inclusive os que não possuem território dentro do Círculo Polar. O panorama geopolítico da região está se transformando, sobretudo devido à crescente militarização e tensão nas redes de cooperação. O quadro se intensificou após a invasão russa da Ucrânia, que abalou antigas alianças científicas e diplomáticas.
Nesse contexto, a diplomacia científica surge como uma ferramenta essencial para promover a cooperação internacional e embasar a formulação de políticas públicas. A Suíça, que atua como observadora no Conselho do Ártico (principal organismo intergovernamental dedicado à região), desempenha um papel importante no órgão por meio da sua experiência científica, neutralidade e do poder de articulação da Genebra Internacional. Esses fatores permitem que o país contribua de maneira significativa para a governança no Ártico, a pesquisa climática e o diálogo multilateral.
Diplomacia científica como ponte em tempos difíceis
A diplomacia científicaLink externo engloba três dimensões: ciência na diplomacia (elaboração informada de políticas), ciência para a diplomacia (construção de relações) e diplomacia para a ciência (facilitação de pesquisas). Ela tem como foco as transformações do mundo natural e seus possíveis impactos sobre a humanidade, apelando especialmente para os interesses compartilhados pelos países ou para as possíveis ameaças em comum.
A história oferece diversos exemplos em que a diplomacia científica ajudou a reconstruir laços de confiança e a demonstrar os benefícios da cooperação entre Estados rivais. Durante a Guerra Fria, embora as duas superpotências mundiais estivessem em conflito em quase todas as frentes, a diplomacia científica levou, por exemplo, à erradicação da varíola e aos primeiros esforços para fechar o buraco na camada de ozônio. O principal fator é que oponentes consigam reconhecer que, apesar de todas suas diferenças, eles ainda podem e devem encontrar formas de cooperar para enfrentar ameaças em comum, particularmente aquelas de caráter existencial.
A região do Ártico tem servido historicamente de modelo para a diplomacia internacional e colaboração científica. Os exemplos vão desde expedições internacionais conjuntas até a criação do Conselho do Ártico, um fórum intergovernamental que possibilitou a coordenação de pesquisas científicas, iniciativas de proteção ambiental e programas de desenvolvimento sustentável.
Outro exemplo é o Comitê Internacional de Ciência do Ártico (IASC, na sigla em inglês), que facilita a cooperação científica internacional no Ártico e reúne pesquisadores e pesquisadoras de mais de 20 países.
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Agora, com o derretimento do gelo ocorrendo em ritmo acelerado, a necessidade de diálogo e cooperação eficaz se mostra cada vez mais urgente. A Suíça, e particularmente a Genebra Internacional, ocupa uma posição única que lhe permite desempenhar um papel na facilitação desse diálogo e no enfrentamento dos problemas mais urgentes do Ártico.
A influência da Suíça: uma voz neutra em um mundo fragmentado
O papel da Suíça nessa área está sendo moldado pela crescente fragmentação geopolítica. A invasão russa da Ucrânia não apenas transformou as dinâmicas de segurança na Europa, mas também fragmentou a cooperação no Ártico, com a Rússia sendo efetivamente afastada de importantes plataformas diplomáticas e científicas, como o Conselho do Ártico. Essa exclusão interrompeu décadas de pesquisa colaborativa sobre o clima, prejudicando os esforços globais para monitorar e mitigar desafios ambientais.
+ Colaboração científica no Ártico em risco
Para além do Ártico, a violação russa de normas fundamentais que regem as relações internacionais – sobretudo a soberania nacional – causou danos extensos aos laços de confiança no Ocidente, impactando a própria estrutura do sistema multilateral.
Recentemente, o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos trouxe novas incertezas. Essas mudanças ameaçam os acordos multilaterais que embasam a diplomacia científica, e colocam em risco as organizações que são mais bem preparadas para ajudar a humanidade a compreender e enfrentar esses desafios urgentes.
Muitos países interromperam colaborações internacionais que atravessavam divisas geopolíticas, especialmente em áreas de pesquisa sensíveis, devido a preocupações relacionadas à segurança nacional. O financiamento de projetos que envolviam colaboração internacional diminuiu, e o aumento da vigilância teve um efeito inibidor sobre a liberdade acadêmica. Como resultado, as redes científicas globais estão se fragmentando, o que dificulta o enfrentamento de desafios comuns, como as mudanças climáticas e possíveis pandemias.
Ao mesmo tempo, a estratégia de política externa suíça para o período 2024–2027 enfatiza uma abordagem baseada no conhecimento, ressaltando que a posição de destaque da Suíça em “educação, pesquisa e inovação” oferece uma “boa base para uma diplomacia científica de alto nível”.
Além disso, a estratégia ressalta como a ciência pode contribuir para esforços diplomáticos na promoção da paz, na governança global e na formulação de políticas externas baseadas em evidências. Como escreveu o ministro suíço das Relações Exteriores, Ignazio Cassis, na Swissinfo em 2019: “A diplomacia científica é um instrumento-chave para fomentar a cooperação entre Estados”. Em um artigo de opinião, Cassis também descreveu a diplomacia científica como “uma oportunidade para a Suíça mostrar a excelência de sua base científica no apoio ao diálogo global”.
Momento de dialogar
Nesse contexto, como mencionado anteriormente, o Ártico é uma encruzilhada estratégica na qual convergem questões geopolíticas, prioridades de segurança concorrentes, direitos dos povos indígenas, oportunidades econômicas e a proteção do meio ambiente.
Uma das principais plataformas de diálogo sobre esses assuntos é a High North Talks (Conversas do Alto Norte, em tradução livre), uma iniciativa informal que reúne agentes do setor público, cientistas e especialistas dos países interessados para discutir as questões mais urgentes relacionadas ao Ártico. Organizadas pelo Centro de Política de Segurança de Genebra (GCSP, na sigla em inglês), essas reuniões são uns dos poucos momentos nos quais representantes dos países mais interessados no Ártico podem se encontrar, em um ambiente seguro e discreto, para discutir o futuro da região.
As conversas da High North Talks são estruturadas ao redor de três eixos temáticos: meio ambiente e ciência (onde são desenvolvidas ideias para renovar o intercâmbio sobre os problemas científicos mais urgentes), segurança e governança. Esses eixos buscam promover o diálogo e identificar pontos de cooperação entre atores do Ártico, mesmo em meio a tensões geopolíticas.
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O objetivo dessas discussões é desenvolver ideias criativas para mitigar as consequências do crescente fosso geopolítico e da falta de diálogo oficial sobre o Ártico. Elas também visam promover compreensão, cooperação e ações frente às questões mais urgentes.
Desde 2022, a High North Talks tem desenvolvido ideias criativas de políticas para enfrentar alguns dos principais desafios no Ártico. Embora ainda haja muito trabalho a ser feito, o diálogo revelou caminhos para promover uma maior colaboração em pesquisa e monitoramento, com o objetivo de ampliar a compreensão mútua acerca das rápidas mudanças observadas na região e do seu provável impacto no resto do mundo.
Discussões sobre segurança têm buscado reconstruir parte da confiança e reduzir tensões entre os países do Ártico. Esse eixo desenvolve medidas de construção de confiança que buscam evitar falhas de comunicação, esclarecer mal-entendidos, compreender os interesses centrais de cada parte e prevenir incidentes perigosos. Debates sobre desenvolvimento sustentável também têm contribuído para destacar a importância de um crescimento inclusivo e equitativo, que leve em consideração as necessidades de todos os envolvidos, particularmente os habitantes do Ártico, incluindo as populações indígenas.
O papel do Centro de Política de Segurança de Genebra na condução desses diálogos evidencia o poder silencioso da Genebra Internacional, e da Suíça, enquanto centro global para a diplomacia formal e informal.
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Nosso boletim informativo sobre a política externa
Edição: Benjamin von Wyl/fh
Adaptação: Clarice Dominguez
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