Vida e terceira idade

Falso ou verdadeiro nos mitos helvéticos

Conte aos amigos que você irá à Suíça e, inevitavelmente, a primeira reação são alguns dos clichês como a riqueza do país ("todos lá são ricos"), a qualidade elevada de vida ("um dos lugares mais seguros do mundo") ou seu povo estranho ("gente bem enfadonha, não?").

Este conteúdo foi publicado em 09. junho 2020 - 14:46
Skizzomat (ilustração)

Mesmo entre as pessoas que se estabeleceram na suíça podem haver "opiniões fortes sobre o país, algumas das quais, infelizmente, podem ser resumidas na conhecida frase: é bom viver na Suíça; mas uma pena que está cheia de suíços'", como diz a escritora Clare O'Dea, que escreveu um livro sobre o estilo de vida suíço. 

Todos têm direito a ter sua própria opinião, sejam cidadãos, imigrantes ou visitantes. Alguns lembram-se de fatos curiosos como a proibição de utilizar o banheiro depois das dez da noite em alguns prédios (para não incomodar os vizinhos) ou a proibição (uma lei, de fato), de manter um porquinho-da-índia sem um companheiro(a).

Mas muitas afirmações, como a forma como o país trata os estrangeiros ou as mulheres, podem revelar muito sobre a identidade da Suíça, a história do país, sua política e os hábitos do seu povo 

No livro "O Suíço nu" (título original: "The Naked Swiss", a autora O'Dea se propôs a apresentar uma "visão mais justa e equilibrada" do país, onde escolheu viver, incluindo ao lidar com um dos clichês mais difundidos: a suposta riqueza dos suíços. 

A conclusão dela é que os suíços são, de fato, ricos. A riqueza média por adulto está entre as mais elevadas do mundo e "essa riqueza cobre o país uma camada de verniz, fazendo brilhar as estradas e telhados". Mas a escritora acrescenta: "Existe um número relativamente pequeno de pessoas extremamente ricas no topo da sociedade." 

Nós, os verificadores de fatos da SWI pesquisamos as estatísticas oficiais e chegamos à conclusão que essa afirmação é verdadeira. Em termos de riqueza média, os suíços estão realmente entre os povos mais ricos do mundo. O país também tem uma alta densidade de lares afortunados. Porém a maioria dos habitantes se enquadra na faixa de "renda média", como enquadra o Departamento Federal de Estatísticas.

A pobreza existe, não é possível negar: quase 8% da população vive abaixo da linha da pobreza, indicam as estatísticas oficiais.

As condições nesse patamar da sociedade não são fáceis na Suíça como em qualquer outro lugar do mundo, uma situação que se tornou mais grave devido à pandemia causada pelo surgimento do novo coronavírus. A exposição deste grupo à enfermidade é um fator de risco maior.

A composição social da Suíça também é um ponto a observar: um quarto da população não tem o passaporte suíços. Os candidatos à naturalização passam por baterias de testes, onde necessitam responder questões complexas sobre as tradições suíças ou difíceis entrevistas. Esse procedimento reforça a ideia de que a nacionalidade suíça é extremamente difícil de obter. 

Mas a realidade é um pouco mais complexa. Muitos estrangeiros que vivem na Suíça declaram que não ter interesse em obter a cidadania para se sentir bem integrados à sociedade. Pesquisas de opinião também revelam que muitos imigrantes preferem manter laços estreitos com seus países de origem. 

Mas estrangeiros têm desvantagens concretas. Uma delas ocorrer no momento de fazer um seguro de carro: as seguradoras podem cobrar tarifas mais elevadas dos segurados se estes, por exemplo, forem italianos. Muitos diriam: isso é discriminação. Nos países da União Europeia a prática seria considerada ilegal.

Essas diferenças podem parecer triviais, mas levantam questões sobre até que ponto a Suíça pode classificar grupos segundo sua origem, com diferentes regras e expectativas sociais em relação a eles. 

Gênero, assim como a nacionalidade, é outra dessas questões. Um leitor enviou uma questão à redação da SWI para entender:  como um país tão rico como a Suíça não dá as mesmas condições às mulheres? Uma que decide ter filhos, acaba sendo obrigada a sair do emprego e ficar em casa, para cuidar do bebê, questionou outra leitora.

Afinal, as mulheres só conquistaram o direito de voto em nível federal no ano de 1971. Além disso: o menor cantão do país, Appenzell Rodes interior, deu às mulheres o direito de voto em nível local e cantonal somente quase duas décadas depois: 1990). A desigualdade de gênero no mundo do trabalho persiste. Milhares de mulheres saíram às ruas para protestar pelos seus direitos em 2019.

Muitos consideram a licença-maternidade uma das menos generosas entre todos os países desenvolvidos do globo. A proposta de introdução da licença-paternidade enfrenta a oposição da direita conservadora. 

Mas de todas as afirmações e clichés sobre a Suíça, seguramente a mais difícil de verificar é se os suíços são um povo receptivo. "É muito difícil fazer amigos", queixou-se uma leitora. "Um país tão bonito, mas carente de calor humano". 

Talvez tenha a ver com tradições e costumes, ponderou outro leitor. Em sua opinião, os suíços têm dificuldade de fazer amizades com pessoas de outras culturas.

Mesmo assim, um fato ocorrido durante a pandemia mostra que sempre existe uma contradição: muitos habitantes do Ticino (de língua italiana) abriram suas casas para italianos que vinham trabalhar nesse cantão de língua italiana. Também foram vistos em todas as partes do país voluntários ajudando idosos com as compras ou a diminuir sua solidão.

Os suíços antipáticos? Durante a maior crise do país desde a 2a. Guerra Mundial, não faltou o calor humano e o alcance entre as diferentes culturas.

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