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Ateliê ambulante mostra como montar canivetes

O artesão em ação no centro de Milão. swissinfo.ch

O ônibus vermelho é um pedaço da Suíça sobre rodas. Ele transporta a história de um dos produtos mais conhecidos do mundo: o canivete suíço, multifuncional.

O veículo estacionado na praça, em frente a estação central de Milão, não passa desapercebido. O giro europeu do ateliê ambulante é para comemorar os 126 anos de uma das marcas mais conhecidas.

O ônibus chegou, discretamente, de manhã bem cedo, vindo da França, uma das etapas do giro de comemoração dos 126 anos do começo da aventura do suíço Karl Elsener, criador do produto que, ao longo das décadas, entraria no imaginário coletivo e no bolso de viajantes e aventureiros do mundo inteiro.

O canivete, como é conhecido hoje – foi criado como arma militar para o exército suíço- virou um companheiro inseparável de viagem e um dos símbolos da cultura de massa. E a imagem dele apoiado sobre uma montanha nevada cobre a carroceria do ônibus. A simbiose é perfeita e representa uma união duradoura.

Não por acaso, ao lado do veículo, foi montada uma parede para uma escalada artificial. E não são poucos os candidatos a subir, com cordas, ganchos e a ajuda de instrutores.

As atenções da escalada artificial são divididas com a montagem, ao vivo, de uma série de canivetes, ali mesmo, na calçada. O trabalho que apenas os operários especializados podem fazer na fábrica – ou melhor, faziam, pois boa parte do atual processo é automático – por dois dias, está ao alcance de um simples pedestre de passagem.

Por dentro do canivete

Muitos possuem o canivete como um acessório importante para a vida cotidiana, urbana ou longe da cidade. Tantos fazem coleção. Mas poucos tentam entender como ele funciona, ou melhor, como ele foi montado no começo da história de Karl Elsener, na antiga cutelaria, em Ibach, no cantão de Schwyz (centro).

“Espero que não chova. Se vier uma tempestade vai ser difícil mostrar ao público como se fabrica um canivete”, brinca Werner Kruse com o repórter da swissinfo.ch, embaixo de uma tenda para escapar do sol, de olho no céu.

Sobre a mesinha armada ao lado do ônibus estão as peças, pinos, ruelas, lâminas, abridores, chaves de fenda, saca rolhas, que servem para “construir ” o tradicional canivete como se fosse um quebra-cabeças; um alicate; uma lima; um martelo; além de uma morsa e uma prensa, equipamentos patenteados pela Victorinox. Com as mãos mais rápidas do que os olhos, ele monta um canivete, embalagem incluída, em menos de dez minutos. Já os convidados levam um pouco mais tempo.

“Esta é uma experiência muito interessante. Estivemos em diferentes lugares e a reação das pessoas de cada lugar é sempre de grande curiosidade. Em Barcelona, por exemplo, estávamos na praia. E muita gente seguia e participava, com grande atenção, a todas as etapas”, diz Werner Kruse, à swissinfo.ch, cercado de mochileiros prontos para a viagem de verão, de preferência com um canivete suíço no bolso.

“Ele tem mil e uma utilidades, parece o cinturão do Batman, serve para tudo, na hora que precisamos cortar algo, abrir uma latinha de cerveja,enfim, é uma mão na roda”, disse o brasileiro Rafael Moura, de passagem por Milão a caminho de Roma.

Passado e futuro

Dentro do ônibus foi montada uma exposição, bem protegida do calor do verão. Na prateleira são exibidos os modelos de ponta da família dos canivetes e os lançamentos dos relógios. Entre uns e outros, existe uma distância de quase um século coberta e unida com a evolução do design, das funções, da resistência e da eficiência. O primeiro relógio chegaria ao mercado apenas em 1989 com a incisão dos valores que fizeram dos canivetes um dos produtos mais conhecidos da indústria suíça.

Aparência clássica, mecanismo preciso e caixa robusta formam a base que garante a qualidade do produto. Neste período de comemorações – iniciado no começo deste ano nos Estados Unido e no Canadá – foi apresentado um despertador que reproduz , o mesmo dispositivo interno de abertura encontrado nos canivetes. Ele foi realizado em edição limitada de 2010 exemplares, em homenagem ao corrente ano.

Outros artigos, como bolsas, camisas, perfumes compõe o mostruário itinerante da evolução dos produtos, “filhotes” e derivados do sucesso do canivete. Todos eles remetem à sensação de viagem, de descoberta, de curiosidade. Em sintonia com o século 21, marcado pela era da informática, não demoraria para chegar o canivete com uma chave USB embutida, em meio às tradicionais “ferramentas” e utensílios, tais como pinças e tesouras em miniatura. O surgimento do pen-drive entre as lâminas afiadas responde aos desafios do futuro.

Canivete sustentável

O giro de comemoração da Victorinox apresenta ainda um trabalho da empresa de fundo social. O concurso “Procura-se família de grande personalidade” tem como objetivo encontrar projetos que ajudem a comunidade local. Eles podem ser de cunho social, ambientalista, econômico.

Por onde passa o giro da Victorinox, famílias podem participar e concorrer a um prêmio de dez mil euros a ser distribuído para a vencedora de cada nação. A ideia é a transmissão de valores que fizeram o fundador, Karl Elsener, acreditar no projeto pessoal e na criação de empregos, em meio à descrença geral, quando a Suíça sucumbia diante da pobreza.

A agregação de valores a iniciativas para o bem comum é sempre uma ocasião para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, vizinhos ou não, de uma rua, de um bairro, de uma cidade.

Os projetos devem conter itens que digam respeito ao design, à funcionalidade, à qualidade e à inovação. Ou seja, alguma iniciativa privada que traga benefícios para a coletividade. Enfim, valem a criatividade e a perseverança. Para os suíços do canivete, o melhor capital inicial são as boas ideias.

Guilherme Aquino, Milão, swissinfo.ch


Karl Elsener e a mãe, Victoria, abrem a fábrica – Swiss Cutler Union, assim seria chamada anos mais tarde – em Ibach-Schwyz, em 1894.

A economia do país, ao longo do século XIX, se desenvolvia, mas, havia pobreza e emigração.

Em 1891, o exército suíço recebeu o primeiro lote de canivetes criados por Karl Elsener e seus 27 operários. A concorrência que vinha de Soligen, Alemanha, quase levou a perder.

Um empréstimo o salvou da falência. O sucesso do canivete Officer’s Knife garantiu o pagamento das dívidas e abriu o caminho para o crescimento da empresa.

Em 1909, com a morte da mãe, a empresa passou a se chamar Victoria.

A chegada ao mercado do aço inox revolucionou o processo de produção do canivete suíço e, em homenagem, Karl Elsner rebatizou a indústria com o nome de Victorinox.

Os Elsener, de terceira e quarta gerações, continuam a dirigir a empresa fundada pelo pioneiro Karl e pela matriarca Victoria. 10% do capital pertence à família e os outros 90% são da Fundação Victorinox.

O canivete suíço nasceu num período de grandes invenções como a caixa-registradora, o zíper, o motor a diesel.

O canivete suíço já esteve na Lua, no ônibus espacial, no pico do Everest, no coração da florestas e em meio aos desertos e nos polos Norte e Sul. Em ambientes extremos, a invenção de Karl Elsener sempre deu provas de confiabilidade e resistência.

Em abril de 2005, Victorinox comprou a concorrente Wenger.

O giro já esteve em Paris, Bordeaux, Madri, Barcelona, Marselha, Lyon, Genebra, Basileia, Zurique e Lugano. De Milão ele partiu no dia 7 de julho rumo a Viena, Munique, Berlim, Hamburgo, Frankfurt, Bruxelas e Londres. Dois dias em cada cidade.

Todos os dias, são fabricados 25 mil canivetes suíços.

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