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Genebra se torna hub de iniciativas cidadãs

Como sede europeia das Nações Unidas, "Genebra internacional" é mais do que alguns protestos sobre os direitos humanos. © Keystone / Salvatore Di Nolfi

Genebra está sendo o berço de diversas iniciativas individuais inovadoras, que têm como objetivo encarar os novos desafios que a cidade e o mundo estão enfrentando. A SWI swissinfo.ch apresenta três dessas iniciativas e seus idealizadores.

Este conteúdo foi publicado em 25. fevereiro 2021 - 15:30

Rocio Restrepo fugiu da Colômbia e chegou à Suíça em 1999, trazendo consigo dois diplomas universitários e anos de experiência profissional. Mesmo assim, foi-lhe dito que suas qualificações não eram válidas e, por isso, não pôde inserir-se no mercado de trabalho em Genebra.

Ao invés de culpar a sociedade, Restrepo decidiu dedicar-se à conscientização dos órgãos governamentais e das empresas privadas. Seu objetivo era mostrar a realidade de mulheres imigrantes com vasta experiência profissional e como elas podem ser inseridas no mercado de trabalho.

“Decidi procurar mulheres que tiveram experiências similares à minha (80 mulheres inicialmente) para ouvi-las e, então, criei a associação Découvrir (que significa “descobrir”) para lutar contra o desperdício de profissionais qualificadas”, disse Restrepo em entrevista.

Os primeiros anos da associação foram difíceis. A Découvrir não teve nenhum tipo de reconhecimento por parte das autoridades, e Restrepo precisou lutar para provar sua relevância. Durante o primeiro ano, a associação não ultrapassou os 40 membros.

No entanto, seus esforços foram recompensados. Atualmente, a associação ampara mais de 700 mulheres por ano em diferentes cantões da Suíça. Restrepo afirma que algumas empresas estão revendo seus requisitos para a contratação, como, por exemplo, a necessidade de possuir visto de residência permanente (visto C) ou nacionalidade suíça, ambos de difícil acesso para imigrantes.

O mundo de amanhã, para Restrepo, “deve dar a todos a mesma oportunidade de utilizar seus conhecimentos e experiências de maneira justa, sem discriminação de gênero, língua ou nacionalidade”.

Restrepo é apenas uma das pessoas apresentadas no livro mais recente do autor e blogger suíço Zahi Haddad, chamado 126 Hearts Beating for International Geneva (126 Corações Batendo pela Genebra Internacional).

Ao ser entrevistado, Haddad elogiou a vitalidade e a eficácia de organizações civis como a Découvrir. Para o autor, sua flexibilidade e habilidade de intervir rapidamente permitem que a organização tenha um impacto direto em diferentes áreas.

O autor explica que essas iniciativas não apenas almejam mudar a situação mais imediata da vida das pessoas, como também buscam influenciar positivamente a mentalidade da população e oferecer à humanidade uma nova maneira de ver o mundo, que permita a todos viver em harmonia. “A importância de tais abordagens está crescendo, principalmente durante este momento excepcional que vivemos, devido à atual crise sanitária resultante da disseminação da Covid-19.”

“O mundo que nós sonhamos não será alcançado mudando uma lei ou outra, e sim através de uma transformação fundamental na percepção que temos das coisas”, acrescenta.

As iniciativas mencionadas no livro possuem como objetivo a promoção de sociedades mais humanas e igualitárias.

A “Casa da Esperança” pela paz

Após retornar de uma viagem aos territórios de Israel e Palestina em 2015, o casal Mehra e David Rimer fundou a associação B8 of Hope (A Casa da Esperança). Durante sua viagem à zona de conflito, esse casal mulçumano/judeu encontrou ativistas engajados na busca por um diálogo pacífico.

“Nós descobrimos rapidamente a existência de dezenas de grupos, tanto em Israel quanto na Palestina, que estão lutando pela disseminação de uma cultura de paz. Atualmente, nós apoiamos 16 ONGs em ambos os lados”, relembra Mehra.

Algumas dessas organizações representam famílias de vítimas que perderam seus filhos no conflito, ou, ainda, combatentes palestinos e soldados israelenses que depuseram suas armas e adotaram o lema "resistência conjunta para viver em paz". 

A B8 of Hope procura “angariar apoio para os defensores da paz entre os israelenses e palestinos que têm coragem de expressar suas convicções”, afirma Mehra.

“Esses ativistas acreditam que o que aconteceu já aconteceu, e que, se não podemos mudar o passado, então nós devemos viver no presente e olhar coletivamente e com otimismo para o futuro”, acrescenta.

De refugiado a investidor do meio ambiente

O terceiro projeto destacado no livro é o de Nhat Voung, que chegou como refugiado em Genebra quando era apenas um bebê, em 1980. Sua família foi para a Suíça fugindo da guerra entre o Vietnã do Sul e o Vietnã do Norte. Vuong, então, cresceu em Genebra e graduou-se como engenheiro na Faculdade de Altos Estudos Comerciais da Universidade de Lausana.

Em entrevista à SWI swissinfo.ch, Vuong relembra o momento de sua vida que mudou sua visão de mundo radicalmente: "Após conseguir o passaporte suíço em 1995, fui com minha família visitar nosso país de origem e, pela primeira vez, me vi diante das tragédias da pobreza, da privação e da violação dos direitos de crianças à educação e a uma vida decente. Isso me fez perceber que nós, na Suíça, vivemos em uma bolha e que, durante nosso cotidiano, esquecemos as dificuldades enfrentadas por outros povos".

“Foi uma experiência dolorosa e me motivou a refletir sobre o que eu poderia fazer para ajudar os outros”.

Por acaso, Vuong deparou-se com uma propaganda sobre uma nova tecnologia inventada por um engenheiro espanhol, que purificava a umidade do ar, transformando-a em água potável.

“De imediato, pensei em ajudar os refugiados, principalmente porque essa descoberta se deu na mesma época que o crescimento do conflito na Síria que provocou o deslocamento de muitos sírios para o Líbano. Eu tinha certeza de que essa máquina não deveria ficar parada em uma garagem.”

Nhat Vuong, cidadão suíço de ascendência vietnamita, no campo de refugiados sírios em Trípoli, Líbano, em 2019 Nhat Vuong

Antecipando uma futura escassez de água no mundo, Vuong criou a organização não-governamental Water Inception e começou a receber doações através de mecanismos de financiamento coletivo, o que lhe permitiu arrecadar cerca de 30 000 francos suíços (34 000 dólares). Então, comprou o primeiro aparelho e o instalou em um campo de refugiados sírios, em Tripoli, norte do Líbano. Em breve, aproximadamente 500 litros de água potável serão produzidos diariamente a partir da umidade do ar. O processo como um todo durou dois anos.

Vuong também é o fundador de uma startup lançada em 2019, que tem como objetivo financiar seus projetos de humanitários. Com um parceiro vietnamita, ele fabrica produtos ecofriendly no Vietnã e os exporta para o resto do mundo.

Sua primeira produção foi a de canudos feitos a partir de batata e tapioca, que podem ser consumidos ou reciclados após o uso. Além disso, também criou máscaras sanitárias antibactericidas reutilizáveis, cujo uso foi aprovado na Suíça e que estão agora disponíveis para venda nos correios.

Vuong acredita que as novas regulamentações a serem implementadas pela União Europeia no próximo mês de janeiro proibindo a venda de qualquer objeto feito de plástico e não reutilizável aumentarão a demanda pelos seus produtos.

Adaptação: Clarice Dominguez

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