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De Lausanne a Bangcoc: a vida da rainha Sirikit da Tailândia

A rainha-mãe da Tailândia, Sirikit, e outros membros da família real tinham laços estreitos com a Suíça.
A rainha-mãe da Tailândia, Sirikit, tinha laços estreitos com a Suíça. EPA/RUNGROJ YONGRIT

A Tailândia ficou em luto após o falecimento, aos 93 anos, da rainha Sirikit, mãe do atual rei do país. Tendo vivido na Suíça, a monarca que faleceu no fim de outubro, tinha laços profundos com o país alpino.

Por mais de seis décadas, a rainha Sirikit foi casada com o monarca mais antigo da Tailândia, o rei Bhumibol, que faleceu em 2016. Eles ficaram noivos na cidade suíça de Lausanne, a rainha Sirikit frequentou uma escola particular na capital do cantão de Vaud e deu à luz em uma clínica em Lausanne. O casal real se estabeleceu na região de Lavaux, no Lago Genebra, de 1960 a 1961, em uma época que viajavam regularmente pela Europa.

O retrato da rainha Sirikit, cercado por flores e velas, está atualmente exposto em toda a Tailândia, que iniciou um período de luto nacional de um ano em 25 de outubro. Ela reinou por sete décadas sobre 65 milhões de cidadãos tailandeses – um recorde de longevidade.

Internada em Bangcoc após um derrame, Sirikit faleceu “pacificamente” no Hospital Chulalongkorn, batizado em homenagem ao ancestral comum do casal, em 24 de outubro, de acordo com o Gabinete da Casa Real Tailandesa. Ela “sofreu várias doenças” enquanto estava no hospital desde 2019, incluindo uma recente infecção no sangue.

Encontro em Paris

Sirikit tinha apenas 16 anos quando o futuro rei — que cresceu em Lausanne desde os cinco anos — a conheceu em Paris, em 1948. Ela era uma das duas filhas do príncipe Chandaburi Suranath Kitiyakara, embaixador siamês na França.

Sirikit e Bhumibol eram primos, ambos descendentes do rei Rama V, que morreu em 1910.

Sirikit estudou música clássica e francês. Bhumibol a incentivou a concluir seus estudos em uma escola particular em Lausanne, antes de ficarem noivos no verão de 1949 em Pully, onde mora a família do futuro monarca.

O casamento aconteceu em Bangcoc, em 28 de abril de 1950. Sirikit tornou-se rainha em 5 de maio de 1950, com a coroação de Bhumibol, que ficaria conhecido como Rama IX.

Em 1961, a revista L'Illustré apresentou o casal na sua capa com o título "Adeus, Suíça".
Em 1961, a revista L’Illustré apresentou o casal na sua capa com o título “Adeus, Suíça”. L’Illustré

Mais tarde, a fotogênica rainha apareceria nas capas de revistas de moda. Ela se tornou a musa do estilista Pierre Balmain. E também era a modelo favorita do marido quando ele começou a se dedicar à pintura e à fotografia.

Retorno à Suíça em 1950

Três meses após o casamento e a coroação, Bhumibol retornou a Lausanne para concluir seus estudos de Direito. O jovem casal mudou-se para a mansão Vadhana, em Pully, uma casa batizada em homenagem à avó do rei, viúva de Rama VII, que na época morava em Bangcoc, onde seu marido havia falecido em 1935. A mansão foi demolida posteriormente.

Após concluir seus estudos, o rei Bhumibol retornou a Bangcoc em um trem noturno e um navio em novembro de 1951. A revista L’Illustré apresentou o casal em sua capa com a manchete “Adeus, Suíça”.

Antes de partir para Bangcoc, a rainha Sirikit deu à luz em Lausanne a princesa Ubol Ratana, que nasceu na clínica Montchoisi em 5 de abril de 1951.

Ela teve mais três filhos, todos nascidos em Bangcoc: o príncipe Maha Vajiralongkorn — agora rei Rama X —, a princesa Sirindhorn e a princesa Chulabhorn.

O Rei e a Rainha da Tailândia Bhumibol Adulyadej e Sirikit Kitigakara com a sua filha Ubol Ratana, que nasceu a 5 de abril de 1951, em Lausanne, na Suíça.
O Rei e a Rainha da Tailândia, Bhumibol Adulyadej e Sirikit Kitiyakara, com a sua filha Ubol Ratana, que nasceu a 5 de abril de 1951, em Lausanne, na Suíça. KEYSTONE/PHOTOPRESS-ARCHIV/Str

Em 1956, regente do reino

Seis anos após o casamento, o rei Bhumibol foi obrigado a cumprir seus deveres monásticos — como todo jovem budista deve fazer — no outono de 1956. Descalço, com a cabeça raspada e vestindo uma túnica laranja, ele teve que mendigar comida nas ruas da capital tailandesa e viver como outros monges em um mosteiro. Durante esse período, a rainha Sirikit assumiu a regência do reino, dedicando-se aos seus novos deveres reais.

Admirada pelos cidadãos tailandeses, 20 anos depois, o governo tailandês mudou a data nacional do Dia das Mães para coincidir com seu aniversário, em 12 de agosto. Ela também ocupou cargos beneficentes, como presidente da Cruz Vermelha tailandesa.

Vivendo entre os vinhedos de Lavaux

Em 15 de julho de 1960, a família real desembarcou em Genebra a bordo de um Boeing 707 da Pan Am. Com seus quatro filhos, eles se mudaram para a Villa Flonzaley, alugada em Puidoux, na região de Lavaux; sua comitiva de 50 pessoas ficou hospedada em um hotel local. Não era um momento para férias, mas para visitas às capitais europeias e encontros com as cabeças coroadas da Europa.

No Reino Unido, eles se encontraram com a rainha Elizabeth, que ofereceu um baile em Londres. Em seguida, visitaram os reis da Dinamarca e da Noruega, e o rei Baudoin da Bélgica — com quem o casal conversou em francês, assim como fizeram com o presidente da França, Charles de Gaulle, em Versalhes. Depois, foi a vez da rainha Juliana da Holanda, do general Franco em Madri e até mesmo do papa João XXIII no Vaticano.

Naquela época, a rainha Sirikit convidou o estilista Pierre Balmain para sua casa em Lavaux para criar seus trajes cerimoniais. Ele estava acompanhado por jornalistas da revista Paris Match, que dedicou sua cobertura à rainha.

Sirikit também era fã de joias caras. A família real tailandesa, que possui um terço das terras de Bangcoc, é extremamente rica. Mas o casal não possuía iates ou aviões particulares. Eles preferiam viajar em companhias aéreas comerciais.

Visita ao Palácio Federal da Suíça

Em 29 de agosto de 1960, o casal foi recebido no Palácio Federal em Berna. O presidente suíço Max Petitpierre lembrou os laços entre os “dois países, que eram tão diferentes, mas unidos em seu amor pela liberdade”.

O Presidente suíço Max Petitpierre, à direita, com o casal real tailandês Bhumibol Adulyadej, ao centro, à direita, e Sirikit Kitigakara, à esquerda, em frente ao edifício do Parlamento Federal em Berna, Suíça.
O Presidente suíço Max Petitpierre com o casal real tailandês em frente ao Parlamento Federal em Berna. KEYSTONE/PHOTOPRESS-ARCHIV/Str

O governo de Vaud também os recebeu no Château Saint-Maire, um castelo em Lausanne que serve como sede do governo cantonal. Após uma visita à feira local Comptoir Suisse, um jornal de Vaud escreveu que a rainha Sirikit parecia “particularmente interessada em utensílios domésticos e máquinas de lavar”.

Após o Natal nos Alpes suíços, a família real voou para Bangcoc em 17 de janeiro de 1961. O casal voltou à Suíça apenas uma vez, para uma visita à Exposição Nacional Suíça em Lausanne, em outubro de 1964. E até sua morte em 2017, o rei nunca mais viu o país de sua infância. Ele descreveu a nação alpina como um lugar “onde éramos residentes suíços normais como os outros e onde levávamos uma vida simples de pessoas comuns”.

De acordo com o protocolo oficial, a rainha Sirikit será cremada em uma pira de sândalo em Bangcoc em outubro de 2026, um ano após sua morte. Membros do governo e funcionários públicos vestirão roupas pretas até sua cremação, enquanto sua alma ascende ao céu. Os turistas na Tailândia também devem mostrar respeito e observar um certo grau de contenção por um período de 90 dias.

Edição: Pauline Turuban/fh
Adaptação: Clarissa Levy

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