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"Tinha medo de fechar os olhos e não acordar mais"

O português Daniel Ferreira é uma das 18 mil pessoas infectadas pelo vírus Sars-Cov-2 na Suíça. Hoje se recuperando em quarentena, diz que o pior foi não conseguir mais respirar. A mulher e o filho já apresentam sintomas da Covid-19. E considera que o país poderia fazer mais testes, até com quem sobreviveu à doença.

Este conteúdo foi publicado em 03. abril 2020 - 12:00

A mensagem chegou na caixa postal da página Facebook da swissinfo.ch. "Sou um português emigrante na Suíça. Mecânico de aviões no aeroporto de Zurique. Neste momento infectado com covid-19 em quarentena e com uma pneumonia grave. Se estiverem interessados em algum testemunho estou disponível". Então a swissinfo.ch fez uma entrevista com ele por Skype.

Daniel Ferreira tem 30 anos e é originário de Aveiro, 70 km ao sul do Porto, no centro de Portugal. Chegou na Suíça há sete anos com a sua esposa fugindo da crise econômica. Como outros imigrantes, o começo no país foi árduo. Primeiro tiveram de aprender o alemão e aceitar qualquer emprego. Aos poucos, conseguiram montar uma vida normal e já fazer planos para o futuro.

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Hoje, o jovem já trabalha a um ano e meio como mecânico de motores de aviões em uma empresa de 900 funcionários na área do aeroporto de Zurique. A esposa também se estabeleceu: é chefe de uma equipe de funcionários encarregados de suprir automáticos no aeroporto com víveres e cafés. Vivem em um apartamento espaçoso em Winkel, um vilarejo de quatro mil habitantes no cantão de Zurique. A família foi completada há sete meses, quando nasceu o primeiro filho. "A Suíça é o país onde temos o nosso futuro", conta.

Os primeiros sintomas surgiram há duas semanas. "Notei que estava muito cansado no trabalho. Regra geral, tenho sempre muita energia, pratico desporto com regularidade e sou maratonista", lembra-se. Um dia depois passou a ter febre, 38 graus. Ligou para a empresa e disse que não se sentia bem e ficaria em casa.

Quando perdeu o olfato e o paladar e começou a ter dores por todo o corpo, ligou para o consultório. Os médicos falaram que os sintomas pareciam com os da Covid-19. E deram instruções para contactar o número de emergência médica no cantão de Zurique (0800 336 655). Ao telefone, uma médica disse que Daniel deveria ficar de quarentena, pois não pertencia ao grupo de risco. A dispensa médica foi enviada pelo correio e a recomendação de não tomar nenhum medicamento.

Porém os sintomas se agravaram. Surgiu uma tosse intermitente, dolorida, a febre aumentou e o jovem passou a acordar com falta de ar. Ao retornar à clínica, foi examinado. Os médicos e enfermeiros, trajando roupas de segurança, fizeram uma radiografia, que identificou um quadro inflamatório grave nos pulmões, típico de quem contraiu a Covid-19 e se admiraram que conseguisse ainda respirar. O teste foi feito ao ar livre, em uma praça vazia de pedestres. "Eles chegaram de máscaras, óculos, com o kit. Depois o médico enfiou esse grande cotonete na garganta e depois no nariz."

Os resultados chegaram um dia depois. "O médico me ligou e disse que o teste deu positivo. Estava com pneumonia grave nos dois pulmões. E se os sintomas se agravassem, teria de ir ao hospital". O que seguiu foi uma luta pela sobrevivência. Daniel tomava os antibióticos para tratar das enfermidades, mas tinha cada vez mais dificuldade. "Lembro de não ter dormido uma noite, pois tinha de fazer força para respirar e tinha medo de fechar os olhos e não voltar a abri-los mais".

Como se infectou? Daniel Ferreira não sabe. "No início de março a empresa já tinha adotado o sistema de segurança de dois metros de distanciamento dos funcionários e tinha desinfetante por todos os lados", lembra-se. Porém acredita que a proximidade com o aeroporto, porta de entrada no país, tenha sido um facilitador.

Daniel Ferreira se recuperou aos poucos. Hoje sente-se melhor, mas se mantém em quarentena. Já a situação para a mulher e o filho não é muito boa. Apesar de ter tomado várias precauções como afastamento dentro de casa ou a limpeza constante, acredita que os dois foram vitimados pelo vírus. "O médico me disse que seria praticamente impossível eu não contaminar as pessoas com quem vivo". Elas estão tossindo e já tem febre. O objetivo agora é dar-lhes assistência e não sair de casa. Os amigos trazem a comida fresca e põe na porta de casa.

Para o português, o surpreendente é a dificuldade de fazer o teste de coronavírus na Suíça. Apesar dos médicos considerarem que já está curado, gostaria de ter certeza que não está mais transmitindo a Covid-19. Porém os testes só são realizados quando o quadro de saúde se agrava e após ordem médica. Às pessoas saudáveis recomenda: "sigam as orientações das autoridades, especialmente respeitando o distanciamento. O coronavírus não é uma gripe. É muito mais perigoso."

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