O futuro do aperto de mão

O Coronavirus pode transformar nossos hábitos e nossas ideias do que significa "viver juntos" na Europa, escrevem os pesquisadores Ashley Mantha-Hollands e Liav Orgad.

Ashley Mantha-Hollands e Liav Orgad, pesquisadores do centro WZB Berlim

Quando perguntado sobre o aperto de mão recentemente, o principal virologista dos EUA, Dr. Fauci, disse: "Acho que nunca mais poderemos apertar a mão", referindo-se a como isso evitaria tanto o coronavírus quanto a gripe sazonal. Na Europa, onde o assunto do aperto de mão tem sido um campo minado nos últimos anos, esta exigência médica pode levar a uma mudança cultural muito necessária. 

Nas sociedades europeias cada vez mais diversificadas, o aperto de mão tornou-se essencial para o "viver juntos"

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Em 2010, uma mulher argelina teve sua naturalização negada na França por não apertar a mão do funcionário masculino da Prefeitura de l'Isère. Em 2016, um escrivão civil em Bruxelas recusou-se a realizar um casamento quando a noiva se recusou a apertar sua mão durante a cerimônia. Na Holanda, uma candidatura para um cargo de motorista de ônibus foi rejeitada em 2017 porque a pessoa recusou-se a apertar a mão de passageiros e colegas do sexo feminino. 

E na Suíça, a recusa em apertar a mão levou a cidade de Lausanne a rejeitar um requerimento de cidadania em 2018. A cidade de Therwil, no cantão da Basileia-Campo, chegou a impor uma multa de CHF 5.000 (US$ 5.150) e serviços sociais aos pais cujos filhos se recusaram a apertar as mãos de uma professora na escola. Simonetta Sommaruga, a atual presidente da Suíça (então ministra federal da Justiça), afirmou ferozmente que o aperto de mão é "parte da cultura suíça". As autoridades educacionais foram mais explícitas - "uma professora tem o direito de exigir um aperto de mão".

A política mais rigorosa de aperto de mão na Europa se dá na Dinamarca. Em dezembro de 2018, o aperto de mão chegou às manchetes quando a Dinamarca aprovou uma lei que tornou o aperto de mão obrigatório em todas as cerimônias de naturalização. A recusa em apertar a mão do prefeito ou de outros funcionários na cerimônia pode terminar com a negação da cidadania. Curiosamente, desde o início da pandemia, a Dinamarca congelou todas as cerimônias de cidadania sob o slogan "sem aperto de mão, sem cidadania".

Na superfície, o aperto de mão é apenas uma forma de saudação, não sendo fundamentalmente diferente de acenar, sorrir ou fazer uma reverência (ou, se preferir, bater com o cotovelo, acenar com a cabeça e beijar ao ar). No entanto, nas sociedades europeias cada vez mais diversificadas, o aperto de mão tornou-se essencial para o "viver juntos". 

O princípio da convivência chocou a Europa em 2014, quando a Corte Européia de Direitos Humanos defendeu a proibição da burqa francesa. O tribunal decidiu que a questão de saber se uma mulher "deve ser autorizada a usar um véu facial completo em locais públicos é uma escolha da sociedade". Segundo o tribunal, a convivência exige um mínimo de interação social e de vida comunitária, conforme definido pelo Estado. 

Cobrir o rosto em público é visto agora sob a perspectiva da crise da Covid-19, como um ato de dever cívico para proteger os membros mais vulneráveis da sociedade. Áustria, Eslováquia, Alemanha e França recomendaram ou implementaram a obrigatoriedade do uso de máscaras em espaços públicos. As máscaras nos permitem participar da vida pública, e não se afastar dela. O importante é facilitar a participação na vida pública, não se se pode ver o sorriso de uma pessoa; não podemos nos ater a uma noção fixa para entender o que significa viver juntos. 

A crise da Covid-19 desestabilizou temporariamente nossas interações sociais, trazendo assim uma oportunidade de refletir sobre saudações alternativas nos modos de vida europeus. Em vez de se agarrarem a convenções passadas, os formuladores de políticas deveriam ser mais tolerantes com diferentes modos de saudação e razões para diferentes códigos de vestimenta. A obrigação de não apertar a mão e cobrir o rosto por causa da pandemia mostra que estas etiquetas não são tão necessárias à vida social como se tem presumido. 

Artigo publicado originalmente no Verfassungsblog 

As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente dos autores, e não refletem necessariamente a posição da swissinfo.ch.

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