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Universidades suíças reforçam controles por medo de espionagem

«As universidades em todo o mundo são alvos dos serviços de inteligência e outras agências governamentais, especialmente onde a tecnologia de ponta é um elemento-chave da investigação», afirmou Günther Dissertori, reitor da ETH Zurich.
O principal prédio da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH). Keystone / Michael Buholzer

Com receio de espionagem em áreas sensíveis como inteligência artificial e biotecnologia, universidades suíças preparam um sistema nacional de triagem para estudantes e pesquisadores estrangeiros. A proposta visa unificar critérios de segurança e impedir vazamento de tecnologias críticas para países como China, Rússia e Irã.

Universidades suíças planejam reforçar a seleção de pesquisadores e estudantes para conter a espionagem de alta tecnologia por países hostis, um ano após a prisão de um acadêmico iraniano acusado de fornecer sistemas de navegação para drones e mísseis à república islâmica.

Mohammad Abedini, detido na Itália a pedidoLink externo dos EUA, trabalhou durante anosLink externo na Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL, na sigla em francês). Num ato que alguns consideraram uma troca de favores, ele foi devolvido ao Irã dias depois de o país do Oriente Médio ter libertado um jornalista italiano que havia sido preso após a prisão de Abedini.

Uma revisão feita pela associação que representa as universidades suíças está propondo uma estratégia nacional para tentar impedir que conhecimento crítico seja roubado ou usado por adversários militares. Áreas sensíveis incluem inteligência artificial, computação quântica e biotecnologia.

“Universidades em todo o mundo são alvos de serviços de inteligência e outras agências governamentais, especialmente onde a tecnologia de ponta é um elemento-chave da pesquisa”, disse Günther Dissertori, reitor da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH) e chefe do grupo de trabalho da Federação Suíça de Universidades (SwissuniversitiesLink externo) que elaborou as propostas. “Afinal, a Suíça não é uma ilha”, acrescentou Dissertori.

Segundo um relatório de 2025 do Serviço Federal de Inteligência Suíço (SRCLink externo, na sigla em francês), a China e a Rússia representam a maior ameaça de espionagem na Europa. Na Suíça, ambos os países construíram redes de agentes infiltrados que têm como alvo organizações como “faculdades, universidades e outras instituições de pesquisa”, escreveuLink externo o SRC.

Para combater essas ameaças, as propostas preveem a criação de unidades de segurança do conhecimento em todas as universidades suíças. Essas unidades avaliariam os riscos quando pesquisadores buscassem trabalhar ou trocar informações com parceiros de países de alto risco.

Elas também ofereceriam consultoria sobre questões como a limitação do acesso a dados sensíveis ou o estabelecimento de termos para o compartilhamento de tecnologia. Os pesquisadores visitantes também podem ter acesso limitado a determinados sistemas, laboratórios ou dados.

Um centro de coordenação ofereceria orientação consistente e compartilharia informações rapidamente, como a detecção, pelo SRC, de um aumento nos ataques cibernéticos direcionados a laboratórios de biotecnologia. Os critérios para admissão, recrutamento, professores visitantes e colaboração internacional seriam unificados, e os dossiês sobre candidaturas de alto risco seriam compartilhados entre as universidades.

O objetivo é impedir que candidatos apresentem candidaturas duplicadas para explorar diferenças nos critérios de seleção entre as instituições e, assim, obter acesso ao sistema acadêmico suíço. Um candidato rejeitado por uma instituição ficará impedido de se candidatar a outras.

Efeitos das avaliações de segurança

A publicação da estratégia do grupo de trabalho ocorre um ano depois de a ETH, a universidade mais bem classificada da Europa continental, ter divulgado procedimentos revisados de verificação de segurança.

As medidas da instituição, uma organização irmã da EPFL, visavam impedir que tecnologias ou conhecimentos sensíveis, que poderiam ser usados para fins civis e militares, chegassem a países sujeitos a sanções internacionais ou de alto risco, incluindo Rússia, Irã, Síria e China. A instituição afirmou que pedidos de autorização provenientes dessas regiões, ou em áreas como inteligência artificial, nanotecnologia, GPS e comunicações, já estavam sujeitos a análise e possível rejeição.

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Desde então, a ETH analisou cerca de 1.250 candidaturas no âmbito do seu mecanismo de avaliação e rejeitou mais de 80 candidatos, conforme noticiadoLink externo pelo jornal NZZ am Sonntag em outubro. Entretanto, a EPFL rejeitou 48 candidaturasLink externo este ano.

Das abordagens fragmentadas à coordenação unificada

Os procedimentos de verificação de estudantes estrangeiros na Suíça continuam fragmentados. Muitas instituições de ensino e pesquisa não conseguiram fornecer detalhes sobre as medidas de segurança ou forneceram apenas informações vagas, segundo o NZZ am Sonntag.

A Universidade de Berna informou que alterou suas políticas em julho para levar em conta o risco de vazamentos de tecnologia. Agora, novas contratações e pesquisadores visitantes estrangeiros estão sujeitos a uma avaliação para verificar o cumprimento de sanções, embargos e normas de controle de exportação. Essa mudança representa uma alteração em relação às políticas anteriores. No ano passado, a universidade havia declaradoLink externo a um jornal local que considerava apenas o domínio do idioma e a formação acadêmica. O grupo de trabalho da Swissuniversities propõe políticas unificadas para todo o setor.

Recomenda-se a adoção de um modelo holandês, com um escritório central que conecte universidades, autoridades estaduais e serviços de segurança. Este escritório também coordenaria a troca segura de informações e medidas em resposta a situações em constante mudança.

A Holanda e a Suíça, ambas pequenas nações que figuram entre as dez primeiras colocadas no Índice Global de Inovação de 2025Link externo da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, enfrentam dilemas semelhantes sobre como permanecer abertas à ciência internacional e, ao mesmo tempo, manter a segurança.

Em 2022, os Países Baixos criaram um Grupo de Contato Nacional para Segurança do ConhecimentoLink externo (Loket Kennisveiligheid) para ajudar as instituições a gerenciar ameaças como espionagem e influência secreta.

A Suíça, por outro lado, depende atualmente de um sistema gerido pelas próprias universidades, o que significa que as medidas de salvaguarda dependem da consciência e da capacidade de cada instituição.

Um centro nacional não só estabeleceria critérios comuns e garantiria que os grupos menores não fossem deixados para trás, como também ajudaria a reduzir a duplicação de esforços, disse Dissertori em entrevista publicada no site da ETH. “Isso pode ajudar a equilibrar o compromisso da Suíça com a ciência aberta, evitando ao mesmo tempo vazamentos perigosos de alta tecnologia”, disse.

Edição: Tony Barrett/vm,dos

Adaptação: DvSperling

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