Laurent Wehrli: “Manter uma conta bancária na Suíça pode se tornar mais difícil para a população suíça no exterior”
Voto eletrônico, relações com os bancos suíços, eleição para o Conselho Federal: o deputado liberal-radical Laurent Wehrli faz um balanço das pautas políticas que afetam os suíços e suíças no exterior. Na nossa série “A Quinta Suíça sob a Cúpula”, ele explica por que defende os interesses dos suíços no exterior.
Laurent Wehrli, deputado do Partido Liberal-Radical (PLR, de direita) desde 2015, é um político de perfil internacional. Ele preside a Comissão de Política ExternaLink externo do Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) e integra a diretoria do intergrupo parlamentar “Suíços do Exterior”. Aos 59 anos, é casado, pai de dois filhos e avô de duas netas. Profissionalmente, dirige uma empresa do setor de eventos, com atuação internacional.
A Quinta Suíça sob a Cúpula: Diferentemente da França ou da Itália, que concedem circunscrições eleitorais próprias aos seus cidadãos expatriados, os suíços e suíças que vivem no exterior não contam com representação direta sob a Cúpula Federal. Isso não significa, contudo, que seus interesses não sejam levados em consideração. Mais de 60 parlamentares (de um total de 246) integram o intergrupo parlamentar “Suíços do Exterior”Link externo. A cada semana de sessão, damos voz a um deles em nossa nova série “A Quinta Suíça sob a Cúpula”.
swissinfo.ch: Na sua opinião, qual foi a prioridade durante a sessão da primavera [21 de março]?
Laurent Wehrli: Evidentemente, como isso não ocorre em todas as sessões, a prioridade foi a eleição de um novo membro para o Conselho Federal. Trata-se de um momento importante, pois a composição do governo influencia suas forças e visões. É interessante observar que o novo ministro da Defesa, o centrista Martin Pfister, tem uma abertura muito pessoal para o cenário internacional, já que sua esposa é brasileira. Isso é uma boa notícia para os suíços que vivem no exterior, embora seu adversário, Markus Ritter, também demonstrasse abertura em relação à Quinta Suíça.
Vocês também debateram temas particularmente importantes para a população suíça no exterior?
Debatemos, por exemplo, as medidas propostas pela Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o colapso do Credit Suisse, destinadas a evitar um novo colapso bancário. Essa discussão pode ter um impacto indireto sobre a Quinta Suíça. Se forem impostos controles mais rigorosos aos bancos, pode ser que os suíços no exterior enfrentem mais dificuldades para manter ou abrir uma conta na Suíça. Mas é importante que as pessoas que moram no exterior possam conservar vínculos bancários com seu país de origem. Quando encontro suíços do exterior, esse é um dos temas que surge com mais frequência.
>> Nosso artigo sobre as tarifas bancárias para os suíços que vivem no exterior:
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Por que suíços do estrangeiro pagam tanto para ter uma conta?
Como o senhor enxerga a Suíça no mundo neste momento?
A situação geopolítica está passando por um momento conturbado, com o abandono do multilateralismo em favor de relações bilaterais, com um clima de polarização. Nesse contexto, a Suíça deve continuar a servir a comunidade internacional por meio de seus bons ofícios e do engajamento em defesa do direito internacional humanitário, que atualmente está sendo violado em vários conflitos. Esse papel é reconhecido e utilizado no plano internacional.
A Confederação Suíça não perdeu sua neutralidade, como alguns afirmam. Ela adotou sanções contra a Rússia, que violou o direito internacional ao invadir a Ucrânia. Apesar disso, a Rússia reconhece que cabe à Suíça presidir a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa. Ela também não revogou o mandato confiado à Suíça desde 2009 para representar seus interesses na Geórgia.
O senhor faz parte da diretoria do intergrupo parlamentar “Suíços do Exterior”. Por que se engajar em defesa do eleitorado suíço que vive no exterior?
Não me engajo em favor da população suíça no exterior pensando nela como um eleitorado que poderia me render votos. Faço isso porque meu papel como representante eleito é agir em favor de todos os suíços e suíças, estejam eles dentro ou fora do país. Como sou membro da Comissão de Política Externa e atuo há muitos anos nas relações internacionais, considero importante manter contato e representar os suíços do exterior em nossas discussões no Parlamento.
Quais são seus vínculos com a comunidade de suíços e suíças que vivem no exterior?
Fui assistente universitário nos Estados Unidos, mas isso foi há muitos anos e por um período curto. Então, não me considero um suíço do exterior. É verdade que tenho filhos que viveram fora do país, ou que ainda vivem, mas não é esse vínculo pessoal que motiva o meu engajamento em favor da diáspora.
Quais vitórias o senhor conseguiu para os interesses dos suíços e suíças no exterior?
O que mais me alegra é ter conseguido reinserir na agenda o voto pela internet para a população suíça que vive no exterior. Quando Genebra encerrou seu projeto, esse tipo de voto eletrônico ficou paralisado, impedindo muitos suíços no exterior de votar, já que não recebiam os documentos eleitorais a tempo.
Nas eleições federais de 2023, seis cantões testaram um sistema de voto pela internet que demonstrou bom funcionamento. Tenho grande esperança de que, nas eleições federais de 2027, todos os suíços que vivem no exterior possam utilizar esse sistema.
Tenho entrado bastante em contato com parlamentares contrários ao voto pela internet para fazê-los compreender a necessidade dessa solução para a comunidade suíça no exterior. Recentemente, um dos responsáveis pelo tema dentro do Partido Popular Suíço [UDC/SVP, direita conservadora], que se opõe ao voto pela internet, reconheceu que compreendia sua utilidade para a população suíça no exterior. Ele afirmou que a posição do partido poderia evoluir e apoiar um sistema de voto pela internet destinado aos cidadãos no exterior.
O senhor também teve de enfrentar derrotas?
Eu sempre espero que encontremos soluções, mas a questão da manutenção de uma conta bancária na Suíça é muito problemática. Para muitos suíços que vivem no exterior, isso continua sendo impossível devido às altas tarifas cobradas pelas instituições bancárias. Tentamos obrigar a PostFinance [instituição financeira vinculada aos Correios Suíços] a oferecer um produto específico, mas o Parlamento rejeitou a proposta. Ainda assim, contamos com boas alternativas nos bancos cantonais de Genebra e de Zurique.
Se o senhor tivesse de emigrar, qual destino escolheria?
Como tenho uma empresa na África do Sul, certamente seria um lugar para onde eu iria. No entanto, é delicado dizer para onde gostaria de ir, pois isso poderia dar a entender que não desejaria ir a outros lugares. Gosto muito do mundo e tenho muitos amigos e contatos em diferentes países.
Edição: Samuel Jaberg/fh
Adaptação: Clarice Dominguez
>> No nosso episódio anterior, entrevistamos a deputada verde-liberal Katja Christ:
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