The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter

Sophie Michaud Gigon: “Temo uma ‘trumpização’ da democracia suíça”

Sophie Michaud Gigon
A deputada verde Sophie Michaud Gigon considera que a diáspora não está suficientemente representada no Parlamento, “talvez porque não se cruza com essas pessoas todos os dias na rua ou no mercado”. Swissinfo / Katy Romy

Sophie Michaud Gigon, deputada dos Verdes, luta para que a população suíça no exterior possa exercer seu direito de voto. No âmbito da nossa série de entrevistas “A Quinta Suíça sob a Cúpula”, ela explica por que esse engajamento lhe é tão precioso.

Sophie Michaud Gigon é a voz das consumidoras e dos consumidores sob a Cúpula Federal [Parlamento Federal], para a qual foi eleita em 2019. A conselheira nacional [deputada] dos Verdes, de 50 anos, dirige a Federação Romanda dos Consumidores desde 2017. Essa função marca seu engajamento político, iniciado ainda na infância, quando, aos 7 anos, vendia adesivos para apoiar o WWF.

Feminista e esportista, a ex-jogadora de vôlei faz parte do FC Helvetia, a equipe de futebol das mulheres parlamentares em Berna, desde a sua criação. Em sua atuação política, ela também se engaja em favor da diáspora suíça no âmbito do grupo interparlamentarLink externo “Suíços do Exterior”.

Diferentemente da França ou da Itália, que concedem circunscrições eleitorais próprias aos seus cidadãos expatriados, os suíços e suíças que vivem no exterior não contam com representação direta sob a Cúpula Federal.

Isso não significa, contudo, que seus interesses não sejam levados em consideração. Mais de 60 parlamentares (de um total de 246) integram o grupo interparlamentar “Suíços do Exterior”Link externo. A cada semana de sessão, damos voz a um deles em nossa nova série “A Quinta Suíça sob a Cúpula”.

Swissinfo: Qual foi a sua principal prioridade durante esta sessão [de 8 a 26 de setembro]?

Sophie Michaud Gigon: Abordamos importantes pautas econômicas que ilustram bem a oposição entre os “pequenos” e os “grandes”: as pequenas empresas frente aos grandes grupos, ou os consumidores frente às multinacionais. Estou pensando particularmente no projeto do Conselho Federal [Executivo Federal] que visa facilitar as ações coletivas na Justiça.

Após anos de debate, o Parlamento enterrou uma possibilidade que é amplamente difundida em outros países da Europa: a de se unir para recorrer à Justiça quando há um prejuízo coletivo. É uma verdadeira decepção.

Qual foi o tema mais importante para a comunidade suíça no exterior?

Para mim, o tema mais importante da sessão para a Quinta Suíça foi a votação da iniciativa “200 francos são suficientes”. Felizmente, as duas Câmaras rejeitaram o texto, que pretendia reduzir a taxa de rádio e televisão de 335 para 200 francos por ano. Essa taxa financia, entre outras coisas, cerca de metade do orçamento da Swissinfo.

É claro que, como toda grande estrutura, a Sociedade Suíça de Radiodifusão e Televisão (SSR) [da qual a Swissinfo faz parte] pode ser reformada. Mas essa iniciativa representa um grande risco para a nossa democracia, assim como o plano de austeridade do Conselho Federal, que ameaça a Swissinfo. Temo uma “trumpização” da democracia suíça.

É fundamental, tanto para os suíços no exterior quanto para os que vivem no país, poder contar com uma diversidade de meios de comunicação que investiguem e verifiquem os fatos, para que seja possível agir, e também votar, com pleno conhecimento de causa.

Como a senhora vê a Suíça no mundo neste momento?

A posição da Suíça está fragilizada. As tarifas de 39% impostas pelos Estados Unidos, e o fracasso das negociações conduzidas pelo Conselho Federal para evitá-las, abalaram a confiança que se podia ter na posição da Confederação Suíça no cenário internacional.

Como parlamentares, também recebemos cerca de uma dezena de e-mails por semana relacionados ao conflito israelo-palestino. Muitas pessoas criticam a postura de inação do governo suíço. Elas questionam por que nenhuma sanção é aplicada contra o governo israelense pelos crimes cometidos em Gaza, quando a legislação permitiria tal medida.

Como deputada dos Verdes em um Parlamento de maioria conservadora, devo admitir que compartilho o sentimento de indignação e impotência expresso por essas cidadãs e cidadãos suíços.

Por que a senhora se dedica a defender os interesses do eleitorado dos suíços no exterior?

Luto para que os suíços e suíças no exterior possam exercer plenamente seus direitos democráticos. É alarmante constatar que o grupo mais numeroso em nosso país é daqueles que se abstêm de votar.

Os cidadãos não devem deixar o exercício da democracia apenas para nós. Eles precisam se interessar por ela, cobrar uma prestação de contas. E nós, parlamentares, devemos poder responder por nossos atos e votos. É fundamental que continuemos sob vigilância.

Por isso, é essencial que os membros da diáspora interessados em votar possam, de fato, exercer esse direito e receber seu material eleitoral a tempo.

A senhora precisou enfrentar derrotas ao defender os interesses da população suíça no exterior?

Quando vejo o atual desequilíbrio das forças políticas no Parlamento, considero que a Suíça está se isolando e vejo nisso uma derrota. A iniciativa sobre a expulsão de criminosos estrangeiros, que retratava ovelhas negras, assim como a iniciativa de proibição da burca, lançaram uma sombra sobre a credibilidade da nossa democracia moderna. Os suíços e suíças no exterior tiveram de constatar o quanto a imagem do nosso país foi prejudicada por esse tipo de questão.

A senhora considera que os interesses dos suíços no exterior são suficientemente representados no Parlamento?

Não, nem sempre. Primeiro, porque muitas vezes se esquece que essa diáspora existe e é numerosa. Talvez também porque se trata de pessoas que não encontramos no dia a dia, no mercado ou na rua. Os parlamentares federais são muito acessíveis, mas os expatriados vivem em outros lugares e estão menos presentes em nossa rotina. Há um certo aspecto de “o que os olhos não veem o coração não sente”.

Se a senhora tivesse de emigrar para o exterior, para qual país iria?

No Quebec ou em algum lugar à beira-mar. Gosto muito do Canadá e de suas paisagens vastas. As pessoas são muito simpáticas. Em certos lugares, tem-se a impressão de estar nos Estados Unidos, embora hoje esse país exerça um papel de oposição em relação à potência americana.

Eu também seria muito feliz à beira-mar, por exemplo no litoral do Atlântico, embora fosse sentir falta das paisagens montanhosas, dos lagos e dos pastos arborizados do meu país.

Edição: Samuel Jaberg/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR