Suíça como modelo da democracia: estudantes originários de países em desenvolvimento assistem a votação em praça pública no cantão de Appenzell Rhodes exterior. Dodis.ch

O ano simbólico da descolonização da África. Em 1960, 17 países conquistam a independência das potências coloniais. A Suíça estabeleceu rapidamente relações diplomáticas com os novos Estados. O lema era "cooperação". Mas a política externa do país estava voltada para os interesses econômicos, o que trazia contradições como era o caso com a África do Sul.

Este conteúdo foi publicado em 18. julho 2020 - 09:00

"É preciso estar ciente de que, nesta fase de desenvolvimento, o africano ainda não mostra sua verdadeira face. Ele próprio ainda não o sabe, porque ainda não encontrou o seu caminho. Sua atitude crítica em relação à Europa não precisa ser permanente.

Durante esse período de transição, no entanto, seu interior está aberto a todo tipo de sussurros, especialmente aqueles que são "anticolonialistas", anti-europeus, anti-ocidentais. Parece ser, portanto, de particular importância que nos próximos anos se mostre claramente aos africanos que o seu futuro está na cooperação com o mundo ocidental. Mas isso requer recursos substanciais, tanto humanos como de capital.

Relatório do embaixador suíço, Edwin Stopper. em fevereiro de 1960.

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Em 1960, exatamente 60 anos atrás, a evolução política na África se acelerou. Já em janeiro, os círculos diplomáticos internacionais começaram a falar do "Ano Africano" ou "Ano da África", tendo em vista as aspirações de independência das colônias. Em dezembro de 1960, nada menos que 17 países, a maioria deles ex-colônias francesas na África Ocidental, haviam conquistado a independência.

A descolonização teve um forte impacto sobre a comunidade internacional. "A maré do nacionalismo africano varre tudo o que está por vir e coloca um desafio às potências coloniais, que devem se redimir pelos anos de injustiça e crimes cometidos contra o nosso continente", criticou Kwame Nkrumah, presidente de Gana, em um discurso feito em outubro de 1960 na Assembleia das Nações Unidas.

Enquanto a onda anticolonial levantava muitas esperanças de um futuro melhor para a África, ela abriu outras fissuras no continente. Uma delas foi a crise do Congo. A ex-colônia belga mergulhou no caos e recebeu uma das maiores missões na história da ONU. Na África do Sul, o massacre de manifestantes pacíficos em Sharpeville, em 21 de março de 1960 pela polícia, marcou o início do progressivo isolamento internacional do regime

Reconhecimento urgente

No final dos anos 50, a África desempenhou um papel subordinado para a Suíça, tanto do ponto de vista político quanto econômico. As empresas suíças começaram nessa época a desenvolver suas atividades no continente. Até então, apenas em alguns setores - produção de cacau em Gana, produção de algodão no Egito e produção de ouro na África do Sul - as relações comerciais tinham alguma importância.

Suíços na África

Os primeiros suíços chegaram à África no século 17, como resultado de expedições holandesas. Mais tarde, mercenários suíços participaram de várias operações militares em solo africano, e contribuíram para a conquista da Argélia, Marrocos e do Congo durante o período colonial. Alguns comerciantes suíços também eram ativos no comércio de escravos naquela época. Além disso, inúmeros missionários suíços foram para a África no século 19.

Após a 2ª Guerra Mundial aproximadamente dez mil suíços estavam vivendo na África. A maior colônia, com cerca de dois mil membros, encontrava-se na Argélia, no início da década de 1950. Após sua independência, a África do Sul tornou-se o centro mais importante da presença suíça no continente: 8600 suíços estavam vivendo na África do Sul até o final de 2017.

Fonte: Dicionário Histórico da Suíça

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Mas os acontecimentos de 1960 forçaram Berna a reagir. O reconhecimento diplomático dos novos Estados "é um problema urgente", escreveu Max Petitpierre, na época ministro suíço das Relações Exteriores. "Até então, a Suíça tinha sido capaz de lidar com suas relações com colônias africanas através dos escritórios de advocacia em Londres, Paris ou Bruxelas", afirma Sacha Zala, diretor do Centro Suíço de Pesquisa de Documentos Diplomáticos (Dodis). "Em 1960, Berna deve criar uma nova rede de missões diplomáticas."

Este artigo faz parte de uma série dedicada às "Histórias da Diplomacia Suíça", em colaboração com os Documentos Diplomáticos da Suíça (Dodis). O centro de pesquisa Dodis, um instituto da Academia Suíça de Humanidades e Ciências Sociais em Berna, concentra-se na história da política externa suíça e das relações internacionais desde a criação do Estado Federal em 1848. Dodis

Como o caminho para a independência dos novos países estava dentro de um quadro legal "regular" - ou seja, com o consentimento das potências coloniais - a Suíça pode fazer rápidos progressos com reconhecimento diplomático.

Nova corrida à África

Além dos ajustes diplomáticos e técnicos, a reação da Suíça era também uma expressão de interesses políticos e econômicos concretos. "A independência dos estados africanos oferecia à Suíça a oportunidade de participar da nova corrida pela África", ressalta Yves Steiner.

"Seremos capazes de intensificar nossas relações comerciais e de investimento através do aumento do contato direto com esses países [...]. A existência de proteção diplomática torna essas áreas mais atraentes comercial, industrial e financeiramente para a nossa economia", escreveu o diplomata suíço Edwin Stopper, que estava em missões de averiguação na África no início dos anos 1960.

Nos anos seguintes, Berna entrou em negociações comerciais com vários países africanos. Em março de 1962 foi concluído um acordo de comércio, proteção de investimentos e cooperação técnica com a Tunísia, que deveria servir de modelo para acordos similares assinados no mesmo ano com o Níger, Guiné, Costa do Marfim e Senegal. Seguiram-se outros acordos.

Passado não colonial

Em suas relações com países recém-criados, Berna tinha uma vantagem: na África, a Suíça não era vista como uma potência colonial. "Ela é conhecida pela neutralidade. As pessoas sabem que ela não tem um passado imperialista nem colonial, e a tratam com confiança", observou o embaixador Raymond Probst no final de uma viagem à África Ocidental.

Aos olhos da diplomacia suíça, a boa imagem da Suíça no continente africano podia ser um antídoto para a influência comunista, que Berna via como a "verdadeira ameaça". "As chances de sucesso para os comunistas são muito maiores na África do que em qualquer outro lugar", disse Petitpierre em uma conferência de embaixadores em 1960.

E ele continuou: "Acredito que a Suíça pode dar uma contribuição positiva porque há confiança em suas instituições democráticas e porque esta superou as dificuldades decorrentes de sua alteridade".

Em termos concretos, Berna oferecia apoio na resolução de conflitos políticos no continente africano. O caso mais conhecido dizia respeito ao papel da diplomacia suíça nas negociações que levaram aos Acordos de Evian, firmado entre os nacionalistas argelinos e o governo francês, em março de 1962. Era um pré-requisito para a independência da Argélia.

Em 1960, a Suíça, embora não fosse membro das Nações Unidas, também respondeu ao pedido do então secretário-geral, Dag Hammarskjöld, para fornecer assistência técnica, médica e administrativa no âmbito da missão da ONU na República Democrática do Congo.

Os inícios da cooperação

Por outro lado, o crescente foco da Suíça na África também fazia parte de um compromisso firmado na cooperação internacional para o desenvolvimento. "A abordagem suíça não se baseia apenas em interesses específicos, mas também nos princípios da solidariedade", observou Ives Steiner.

Em 1960, foi criado o Serviço de Cooperação Técnica, que centralizou as atividades de apoio ao desenvolvimento no Departamento de Política Federal, posteriormente no ministério suíço das Relações Exteriores (EDA, na sigla em alemão). No ano seguinte, o Parlamento aprovou um aumento substancial dos créditos para cooperação técnica, e disponibilizou 60 milhões de Francos para um período de três anos.

Enquanto a cooperação para o desenvolvimento da Suíça inicialmente se concentrava principalmente nos países asiáticos, especialmente Nepal e Índia, a África logo passou a ser o foco do envolvimento suíço.

Berna se concentrava em países pequenos "onde a assistência da Suíça era relativamente mais significativa e seus efeitos mais fáceis de monitorar". A ajuda na África se concentrou inicialmente na Tunísia e Ruanda, "uma região verde montanhosa que se assemelha ao Emmental", depois em Camarões e Dahomey, e nos anos 70 no Quênia e Madagascar.

Devido ao forte engajamento da Suíça em Ruanda, o genocídio da minoria Tutsi lá, em 1994, deu origem mais tarde a muitas discussões sobre o significado e os limites da cooperação para o desenvolvimento.

África do Sul como hipoteca

No entanto, o relativo sucesso da Suíça em lidar com a descolonização na África no início da década de 1960 teve um lado controverso: as estreitas relações econômicas e financeiras com a África do Sul e a recusa em aderir às sanções da ONU contra o regime racista do apartheid em Pretória.

Embora alguns políticos suíços tivessem condenado essas relações já 1968, o setor privado continuava fazendo negócios com um país boicotado pela comunidade internacional.

"A Suíça continua decepcionando a África, embora pudesse ser um exemplo para a África. A África apenas exige a aplicação dos altos princípios fundamentais, que tornaram a Suíça uma potência, na África", observou o secretário-geral da Organização da Unidade Africana, Diallo Telli, em 1971, em conversa com o embaixador em Adis Abeba, Heinz Langenbacher.

"Os círculos empresariais suíços devem ser convencidos de que seu envolvimento nas áreas dominadas pelos brancos [Telli referia-se à então Rodésia e à África do Sul] é estreito e imediatista, e um dia o tiro sai pela culatra."


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