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As regras de mercado e a maconha 'light'

Andrea R. levou dois anos para obter as licenças necessárias para enfim começar seu cultivo 'indoor' (em estufa). tvsvizzera

Desde 2017, podem ser produzidas e vendidas na Suíça substâncias de cânhamo com um baixo teor de THC. Mas o novo mercado acabou não sendo a mina de ouro que alguns esperavam.

Este conteúdo foi publicado em 01. dezembro 2020 - 10:00

O cânhamo e seus derivados com uma concentração de THC inferior a 1% não são mais considerados drogas pela lei suíça desde 2011.

Entretanto, o "boom" da chamada maconha leve, ou 'light', só veio em 2017, quando se tornou possível produzir e comercializar as inflorescências não processadas desta planta na Suíça até o teor de THC máximo de 1%.

Muitos viram uma oportunidade, um novo "Eldorado", e dos cinco produtores registrados no início de 2017, o número explodiu para 630 em 2018.

Mas de uns dois anos para cá, as coisas estão mudando.

A confirmação pode ser vista em campo, ou melhor, nos campos. O jornal Corriere del TicinoLink externo reportou recentemente que, na planície de Magadino (entre Bellinzona e Locarno), o verde da maconha está perdendo terreno para o vermelho do tomate.

Aqueles que quiserem cultivar cânhamo no cantão italiano são obrigados a notificar as autoridades. Houve três notificações desse tipo em 2016, aumentando para 12 no ano seguinte e 33 em 2018. Desde então, a tendência parece ser para baixo. No final de outubro de 2020, havia 24 notificações (mais três pendentes).

O ouro verde brilha menos

Esta evolução é muito provavelmente causada por uma das regras básicas do mercado: quando a oferta excede a demanda, o preço do produto cai. Essa é a opinião de Stefano Caverzasio, CEO da PurexisLink externo, uma empresa que atua na comercialização e processamento desta matéria-prima desde 2011. Embora ele também venda inflorescências, sua empresa se concentra principalmente em produtos processados, tais como suplementos, cosméticos e produtos farmacêuticos padrão, quase inteiramente produzidos em seu próprio laboratório em Manno, onde também existe uma pequena instalação de cultivo interior autorizada para fins de pesquisa e desenvolvimento.

"A saturação da demanda de matérias primas que estamos vendo atualmente na Suíça está de acordo com uma realidade que já é bem conhecida do outro lado do Atlântico.

Andrea Caverzasio - Purexis

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"A saturação da demanda de matéria-prima que estamos testemunhando na Suíça segue uma realidade já bem conhecida no exterior (Estados Unidos, Canadá e alguns países da América Latina), onde há um aumento das empresas que estão diminuindo ou mesmo suspendendo sua produção porque a oferta de disponível há muito excedeu a demanda", explica Caverzasio.

Toda semana a Purexis recebe dezenas de pedidos de agricultores, tanto suíços como estrangeiros, tentando posicionar um produto cujo preço de mercado despencou.
Na época de sua "legalização", as inflorescências não processadas estavam disponíveis no atacado a 5.000-10.000 francos por quilo, dependendo da qualidade. "Agora você pode remover com segurança um zero", indica Caverzasio.

O surgimento de grandes produtores, com economias de escala que ao longo dos anos ampliaram suas áreas de cultivo, na Suíça e em outros lugares, também contribuiu para esta redução.

Eles se desenvolveram principalmente em dois modelos: o primeiro é representado por empresas do setor do cânhamo que conseguiram se expandir, adquiriram outras empresas e outros terrenos e operam diretamente.

A segunda inclui grandes fazendas que alugam a terra e decidem de ano para ano se produzem ou não cânhamo, dependendo da demanda do mercado, celebrando ou cancelando acordos de cultivo.

Estas são realidades que podem permitir grandes produções de alto padrão de qualidade com as quais uma pequena fazenda dificilmente pode competir.

Como vinho

Esta hipótese também é compartilhada pelo presidente da Associação dos Horticultores do Ticino (OrTi) Andrea Zanini, que tem demonstrado constantemente na imprensa do Ticino um certo ceticismo em relação ao cultivo do cânhamo.

Ele explica que geralmente os proprietários das fazendas não lidam diretamente com esta planta, mas sublocam estufas e terras, ou a cultivam junto com terceiros.

Algumas empresas com dificuldades econômicas têm visto a cannabis como uma "linha de vida", diz ele, mas nem sempre sabendo exatamente com quem estavam fazendo negócios. "Alguns tiveram más surpresas. Ficaram gananciosos, mas nem todos que se jogaram nesse cultivo estavam à altura da tarefa e alguns ficaram com um 'buraco na água'".

"O mesmo vale para os legumes", continua Zanini. Se alguém se encontra em dificuldade, é porque não trabalha bem com vegetais. Se você não tem um bom produto, você tem dificuldade em comercializá-lo."

Isso também acontece com as uvas, acrescenta ele. Muitos plantaram vinhedos que não correram bem. "Há uma seleção natural dos que trabalham com o verde".

O retorno às culturas tradicionais também poderia ser atribuído aos preços de aluguel dos terrenos e estufas alugados para o cultivo de cânhamo. Caverzasio assinala: "Em vários casos eles eram significativamente mais altos do que os aluguéis habituais cobrados para as mesmas instalações cultivadas em vez dos vegetais tradicionais. O posterior nivelamento geral dos preços provavelmente também forçou um ajuste dos custos em direção a tarifas mais próximas às rendas agrícolas, um fator que pode ter desencorajado aqueles que alugaram para cultivar cânhamo nos últimos anos".

"A Suíça é composta de quatro coisas: absinto, cassinos, bancos e maconha".

Andrea R. - Dream project

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Encontre seu lugar no mercado

A analogia com o vinho parece ser particularmente apropriada quando se discute com o empresário Andrea R. que decidiu lançar-se, pela segunda vez, no negócio do cânhamo. A paixão com que ele fala de suas plantas, os desafios a superar e as técnicas a utilizar para que o produto final tenha uma certa qualidade e um certo sabor, não é nada diferente do que um entusiasta do vinho teria ao descrever seus vinhedos.

Andrea R. não é noviço em cânhamo. Na virada do novo milênio, quando tinha 25 anos, ele estava entre aqueles que tentaram a sorte, e muitas vezes a encontraram, produzindo e comercializando cannabis. Depois houve um período de vazio legislativo na Suíça. As inflorescências de cânhamo, mesmo com alto teor de THC, poderiam ser produzidas e vendidas, mas - pelo menos em tese - não consumidas.

Era a "era canapai", cujos 'deodorizantes para guarda-roupa', tinham tanto sucesso que as pessoas vinham em massa da Itália para comprá-los. Custa a crer que houvesse tantos guarda-roupas no mundo. Em outras cidades da Suíça, como Zurique ou Basileia, a maconha também era vendida em ingelos sachês de "chá indiano" ou "ervas de banho". 

A repressão em 2003 pôs fim a este negócio e Andrea R. voltou a ser um mecânico, pensando que a discussão legal sobre a maconha seria arquivada na Suíça por mais cem anos.

Durou bem menos que isso. O jovem com seus 45 anos agora viu a oportunidade de "reescrever o final" de sua aventura, abrindo sua loja dos sonhos, a Dream shopLink externo em Melide, e obtendo permissão para cultivar sua cannabis light dentro de casa, longe dos campos e estufas.

Este é o método que ele escolheu para conquistar seu próprio espaço em um setor que, em sua opinião, para o melhor ou para o pior, representa a Suíça. Este país - diz ele - é composto de quatro coisas: "Absinto, cassinos, bancos e maconha".

Para Andrea R., que encontramos em seu cultivo indoor, a evolução do mercado que estamos testemunhando é positiva, porque "aqueles que trabalham mal acabarão por desaparecer".

A perspectiva muda

O cultivo de cannabis, especialmente para fins recreativos, ainda encontra uma certa estigmatização na Suíça, especialmente no sul dos Alpes, mas em comparação com os anos 2000 o quadro é definitivamente diferente. Em primeiro lugar, as regras que regem sua produção e comercialização.

"A legislação suíça, apesar de alguns pontos críticos, tem mostrado até agora avançar claramente, em detalhes e muitas vezes bem à frente dos países ao nosso redor, oferecendo grandes vantagens operacionais a todas as empresas suíças do setor em comparação com as congêneres europeias, que em alguns casos ainda operam em uma situação regulatória pouco clara", diz Stefano Caverzasio.

"Quem era intolerante permaneceu intolerante", diz Andrea R., "mas agora ele tem que encarar que a maconha também é vendida no supermercado onde ele faz compras. Se isso não o faz mudar de ideia, pelo menos o faz pensar".

Em segundo lugar, o fator internacional entra em jogo com a legalização da cannabis sem restrições ao conteúdo de THC na maior parte dos EUA e Canadá. Há sinais de que tal mudança também poderia ocorrer no Velho Continente. A Suíça já começou a empreender estudos nesse sentido. Andrea R. acolheria com satisfação tal desenvolvimento, o que lhe daria a possibilidade de expandir sua oferta com produtos que prometem um renda muito menos "light". 

Caverzasio permanece cauteloso sobre possíveis avanços legislativos na Suíça. "Com base nas informações obtidas até agora das autoridades federais, espera-se um cenário suíço no qual os passos em direção ao THC permanecerão moderados, com uma vantagem inicial esperada em direção ao desenvolvimento científico sobre o mercado puramente recreativo".

Sua esperança é que possamos continuar a confirmar o valor terapêutico do cânhamo "a fim de chegarmos logo a uma estrutura comercial que garanta conteúdo constante, rastreabilidade, qualidade e segurança para os consumidores que precisam usá-lo".

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