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“O governo deixa uma impressão muito fraca”

Christoph Blocher, ex-ministro da Justiça e estrategista da UDC Keystone

A sucessão do ministro do Interior, Pascal Couchepin, que deixará o cargo em 31 de outubro de 2009, alimenta o noticiário no recesso de verão na Suíça.

Em entrevista à swissinfo.ch, Christoph Blocher, estrategista-chefe da UDC, maior partido do país, e ex-ministro de Justiça e Polícia, critica o governo e propõe um candidato suprapartidário.

Os sete ministros que formam o Conselho Federal (Executivo suíço) são eleitos pelo Parlamento e, pelo princípio da concordância, refletem o jogo de força dos principais partidos. Também a União Democrática de Centro (UDC) participa com o ministro da Defesa, Ueli Maurer.

Falta no Conselho Federal uma personalidade que resista à pressão sobre o centro financeiro suíço, critica Christoph Blocher, em entrevista à swissinfo.ch. Por isso, um perito financeiro deverá ser o sucessor de Pascal Couchepin, sugere.

swissinfo.ch: Qual é o perfil que deve ter o sucessor ou a sucessora de Pascal Couchepin?

Christoph Blocher: Ele deve defender a Suíça. Atualmente é exercida uma pressão incrível sobre o país. Por isso, seria importante termos alguém no Conselho Federal que entendesse algo de economia financeira e economia mundial. Para que não cedamos em tudo. Isso falta no momento.

Candidatos que, como é habitual no país, tenham feito carreira desde o município, passando pelo estado até o Parlamento nacional, portanto, não são adequados?

Não há nada contra isso. Mas, nesta situação excepcional, recomendamos ao Partido Liberal que apresente alguém de fora. Por exemplo, o presidente do Banco Nacional (central), Jean-Pierre Roth. Ele vem da Suíça francesa, não tem vínculo partidário, mas poderia ser proposto pelos liberais. Ele teria chances no Parlamento. Mas seria necessário também fazer a correspondente distribuição dos departamentos.

Estou extremamente preocupado com as ações defensivas do Governo Federal em relação ao exterior. Seja na legislação fiscal ou no sigilo bancário, a Suíça cede antes que outros o exijam.

Se os liberais não nomearem Jean-Pierre Roth, a UDC apresentará candidato próprio?

Deixamos esta questão em aberto. A UDC, obviamente, não vai apoiar qualquer candidato, uma vez que temos claramente o direito a uma segunda vaga por causa do nosso percentual de eleitores.

Se os liberais vierem com um candidato que preencha perfil referido acima, me empenharei para que a UDC renuncie a um candidato. Mas caso se repita o jogo habitual, então teremos candidato próprio.

Desde o anúncio da renúncia de Couchepin, a UDC comporta-se de forma mais cautelosa do que em outras vezes. Por que o senhor desta vez não influencia tanto a agenda política?

Tudo no seu tempo: não é preciso sempre dominar a agenda, também há momentos em que o certo é esperar.

É evidente que o Partido Democrata Cristão (PDC), que nunca joga com cartas abertas, já fez um pacto com os social-democratas e os Verdes para um governo de centro-esquerda. Tudo indica isso.

Sabemos que se nós tivermos um candidato e os liberais também apresentarem um candidato, então certamente será eleito um democrata-cristão de esquerdista.

O senhor também votaria num candidato do PDC?

O PDC também poderia pedir ao senhor Roth (que se candidate). Sério: agora temos de sair desses joguinhos de governo. O que está em questão é a Suíça e que ela defenda a sua posição. Aqui o Conselho Federal atualmente dá uma impressão muito fraca.

A única coisa importante é quem apresentar alguém para a eleição também o sustente como seu conselheiro federal!

O UBS comportou-se no mínimo à beira da legalidade nos EUA. O que o Conselho Federal então deveria ter feito diferente na problemática das ações judiciais contra a UBS?

Quem comete ilegalidades deve ser punido. Mas isso seria uma questão do UBS e não da Suíça.No mais, temos de oferecer uma estratégia que permita à Suíça continuar atendendo clientes de bancários estrangeiros sem ser criminalizada.

Isso poderia ser, por exemplo, um amplo imposto na fonte para investidores estrangeiros. Isso é algo que precisa ser imposto, visto que americanos não querem isso porque haveria um grande volume de dinheiro ilegal aplicado nos Estados Unidos. É necessário descobrir os argumentos ambíguos, mas a Suíça tem de lutar com argumentos credíveis.

Como o senhor teria reagido, quando a Suíça foi colocada na lista cinza da OCDE em abril?

Primeiro: não é determinante se Suíça está numa lista branca, vermelha ou cinza. Em segundo lugar, a OCDE nunca aprovou uma lista de cinza. O G20, portanto outros Estados aprovaram a lista.

Fomos um dos membros fundadores da OCDE. Somos membro sob a condição de que só pode haver decisões por unanimidade. Tais decisões não existem.

Ao mesmo tempo, seria necessário defender e explicar o segredo bancário. Hoje nem isso acontece. Diz-se simplesmente que o estrangeiro não entende. Como o exterior deve compreender se nem sequer o tema é explicado?

Andreas Keiser, swissinfo.ch

União Democrática de Centro (UDC): 65 cadeiras no Parlamento (28,9% do votos nas eleições federais de 2007)

Partido Social Democrata (PS): 51 cadeiras (19,5 %)

Partido Liberal (PL): 47 cadeiras (17,7 %)

Partido Democrata Cristão (PDC): 47 cadeiras (14,5 %)/52 cadeiras na bancada graças a dois partidos nanicos

Partido Verde (PV): 24 cadeiras (9,8 %)

Partido Burguês-Democrático (BDP – Parti Bourgeois-Démocratique): 6 cadeiras (surgiu de uma dissidência da UDC)

De 1959 a 2003 foi usada a chamada “fórmula mágica” para distribuir os sete cargos de ministros (conselheiros federais) que compõem o governo colegiado: 2 do PL, 2 do PDC, 2 PS e 1 da UDC

Em 10 de dezembro de 2003, Christoph Blocher é eleito ministro da Justiça para o lugar de Ruth Metzler (PDC).

2004-2007: nova “fórmula mágica”: 2 ministros da UDC, 2 do PL, 2 do PS, 1 do PDC

Em 12 de dezembro de 2007, Christoph Blocher não é confirmado no cargo. Em seu lugar, foi eleita Eveline Widmer-Schlumpf (então da UDC, hoje do BDP).

Na sequência, em 2008, a UDC passou à oposição. Widmer-Schlumpf e o ministro da Defesa, Samuel Schmid, deixam a UDC e ingressam no BDP. O Conselho Federal passa a ter dois ministros do PS, dois do PL, dois do BDP e um do PDC.

Em 10 de dezembro de 2008, Ueli Maurer (UDC) é eleito ministro da Defesa para o lugar de Samuel Schmid (BDP), que renunciou.

Conselho Federal em 2009: 2 ministros do PS, 2 do PL, 1 do PDC, 1 da UDC e 1 do BDP

Em 16 de setembro próximo, o Parlamento deve eleger um sucessor de Pascal Couchepin (PL), que deixa o cargo em 31 de outubro.

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