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Grupo que se opõe à votação digital na Suíça ganha força após falha no sistema

Imagem ilustrativa
Durante o fiasco da votação eletrônica na Basileia, as chaves eletrônicas da comissão eleitoral não eram mais compatíveis com a fechadura da urna eletrônica. Prime News Basel

Uma falha no sistema de votação pela internet na cidade da Basileia reforçou o campo dos céticos em relação às votações digitais — uma desconfiança que ecoa debates semelhantes nos Estados Unidos e no Brasil.

Nos comentários publicados no site da Swissinfo, as vozes a favor do sistema de votação eletrônica na Suíça tornaram-se raras desde o incidente ocorrido na Basileia no início de março.

“Esperemos que sejam apenas de dificuldades iniciais e que não vejamos mais problemas no futuro”, ousa dizer um usuário de nossa página em francês, defendendo o voto eletrônico.

“Afinal, a maioria dos nossos documentos já é processada em formato digital, sejam eles registros bancários, documentos fiscais, escrituras notariais ou passaportes”, completa.

Mas os demais comentários mostram-se muito mais céticos. Um usuário que não confia no voto eletrônico disse que o caso da Basileia apenas confirma sua intuição. “Sou grato por cada caso que mostra que o voto online não é seguro”, escreve ele.

Desconfiança inspirada por Donald Trump

O usuário “Sam.Washington” também defende a manutenção do sistema tradicional em papel. Ele gostaria, no entanto, de regulamentá-lo de forma ainda mais rigorosa e propõe, em particular, o seguinte: “A votação e a apuração deveriam ocorrer no mesmo dia. A apuração deveria ser realizada na presença de várias testemunhas e ser filmada.”

As reações que o debate publicado no site da Swissinfo suscita refletem as discussões acaloradas nos Estados Unidos sobre o mesmo assunto, mesmo que o sistema de voto eletrônico suíço seja diferente. Donald Trump pressiona para reformar o sistema eleitoral americano. Ele deseja a abolição do voto por correspondência e quer alterar a lei para tornar as condições do direito de voto mais rigorosas de maneira geral.

O presidente diz que quer impedir qualquer fraude eleitoral, especialmente com a aproximação das eleições de meio de mandato em novembro próximo. Na linha do usuário “Sam.Washington”, o presidente americano quer reforçar as obrigações relativas à apresentação de documento de identidade e proibir a apuração automatizada.

Temores de manipulação eleitoral

Desde que perdeu em 2020 sua primeira tentativa de reeleição para Joe Biden, Donald Trump não parou de repetir que essa eleição lhe foi “roubada”. E o presidente americano continua até hoje alimentando as dúvidas sobre o sistema eleitoral de seu país.

Quando o candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, perdeu a eleição em 2022, ele também afirmou que as urnas eletrônicas favoreceram seu adversário, Lula da Silva. “Com as urnas eletrônicas é sempre a mesma coisa nas eleições no Brasil”, comentou a usuária Rosamaria Recke no Facebook, em reação ao nosso artigo sobre o fiasco da votação digital da Basileia.

Pedido de repetição da votação

No Brasil, a denúncia de Jair Bolsonaro por fraude eleitoral foi rejeitada, encerrando assim o caso. Mas os comentários vindos do Brasil e dos Estados Unidos mostram que o sistema de votação digital suíço está agora cercado pelos mesmos temores que foram alimentados – sem base factual – por políticos como Donald Trump e Jair Bolsonaro.

A narrativa que se impõe e que encontra eco entre os internautas é a de um sistema de votação (eletrônica) suscetível de ser manipulado para produzir os resultados desejados por aqueles que o controlam.

“Hoje, é um problema tecnológico, mas quem nos garante que amanhã não usarão essa desculpa para manipular as pessoas?”, pergunta o usuário JoanBoa no espaço de debate em nosso site. Segundo ele, a falha ocorrida na Basileia é “muito grave” e exige a realização de uma nova votação para preservar a confiança na democracia, “seja ou não um verdadeiro problema técnico”.

O número suspeito de 2048

Para dois internautas, o número de 2048 votos, depositados nas urnas digitais, mas impossíveis de serem lidos devido a um incidente técnico, parece suspeito. De fato, 2048 é um número que salta imediatamente aos olhos de quem está familiarizado com o mundo digital: trata-se da décima primeira potência de 2 – e as potências de dois constituem, de certa forma, os blocos elementares do mundo digital.

“O número de 2.048 votos me parece suspeito. Isso poderia indicar um excesso de capacidade, uma limitação da solicitação ou um erro de dados na própria urna”, escreve o usuário DcPS.

Esse número também chamou a atenção dos especialistas em informática com os quais reconstituímos o incidente de Basileia, como uma possível pista. Mas, como se tratava apenas de suposições e duas investigações estão em andamento paralelamente, decidimos não abordar esse aspecto em nossa cobertura.

Por enquanto, o cantão de Basileia suspendeu até o final do ano o teste piloto de votação pela internet. Nem o Ministério Público nem a Chancelaria do Estado responsável pela votação digital fornecem mais informações. “A investigação anunciada será iniciada”, declarou na segunda-feira à Swissinfo a chanceler do Estado Barbara Schüpbach-Guggenbühl.

Edição: Samuel Jaberg/fh
Adaptação: Clarissa Levy

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