The Swiss voice in the world since 1935

Tofu suíço e comida vegana falham ao buscar escala nacional

Cartaz com a palavra "closed"
No setor de tecnologia da alimentação: 2,5% das startups criadas na Suíça em 2021 foram liquidadas até 2025. EPA/HAYOUNG JEON

A Suíça viu um crescimento de 65% nas start-ups de tecnologia alimentar entre 2021 e 2025, mas o entusiasmo esbarrou em margens apertadas e concentração do mercado nas redes Migros e Coop.

A Suíça lidera o ranking mundial de inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI/WIPO) há 15 anos consecutivos. Grande parte desse domínio deve-se ao elevado número de patentes que o país gera, apesar de seu pequeno tamanho. A nação alpina possui o maior número de patentes registradas per capita, e a tecnologia alimentar (foodtech) é o segundo setor com mais patentes, atrás somente da indústria farmacêutica.

Os empreendedores do setor alimentício contam com o apoio do governo e de entidades como a Innosuisse e o Swiss Food & Nutrition Valley, que auxiliam com financiamento, espaço para escritórios, aluguel de equipamentos especializados e eventos de networking. As regulamentações suíças também estão atualizadas no que respeita a novos alimentos, como a carne cultivada em laboratório, e o país é um polo de embalagens alimentícias, com universidades e empresas dedicadas ao desenvolvimento de novas embalagens sustentáveis.

Conteúdo externo

Entre 2021 e 2025, o número de startups suíças de foodtech cresceu 65%, mas as oportunidades mais fáceis surgidas com o boom pós-pandemia – como delivery de comida, alternativas à carne e o reaproveitamento de resíduos (upcycling) – já não estão mais disponíveis.

“Vários segmentos que, nos últimos anos, receberam um influxo rápido de startups – como delivery, supermercados online e agricultura vertical – estão agora passando por um processo de racionalização. Isso naturalmente leva à consolidação do mercado, à medida que os atores estabelecidos integram cada vez mais empresas menores ou emergentes às suas estratégias de crescimento, e os modelos de negócio passam a ser testados de forma mais rigorosa”, afirma Giulio Busoni, da Porsche Consulting, sediada em Milão, e um dos autores do Swiss FoodTech Ecosystem Report 2025.

De acordo com esse relatório, cerca de 2,5% das startups de foodtech criadas na Suíça em 2021 haviam sido liquidadas até 2025. As rodadas de investimento e financiamento para startups suíças de foodtech e agritech também caíram acentuadamente nos últimos meses. 

Mesmo em escala global, o setor vem atraindo menos capital de risco do que durante o pico do período pós-pandemia: em 2025, os investimentos mundiais chegaram a cerca de US$ 6,2 bilhões (4,8 bilhões de francos), em comparação com US$ 49,2 bilhões em 2021.

A Swissinfo conversou com quatro empreendedores que compartilharam suas experiências sobre os desafios de atuar no setor de tecnologia alimentar em um mercado cada vez mais competitivo.

Enfrentando pesos-pesados

Há quatro anos e meio, Lukas Rösch sonhava em mudar a percepção do tofu na Suíça. “Ele tinha um problema de imagem, porque as pessoas achavam que faltava sabor, tinha uma consistência estranha, meio borrachuda, e ainda era responsável pelo desmatamento no Brasil”, contou.

Mostrar mais
Pessoas com guarda-chuva, animal de estimação e um policial

Mostrar mais

Clima necessita redução do consumo de carne

Este conteúdo foi publicado em Carne domina a dieta suíça, mas para atingir as metas climáticas até 2050, mudanças são necessárias. Apesar do aumento no consumo de frango, é crucial reduzir a carne e optar por mais vegetais. O caminho é longo, mas essencial.

ler mais Clima necessita redução do consumo de carne

Rösch havia acabado de concluir seus estudos em administração e trabalhava para uma startup especializada em vender produtos veganos online. Era 2020, e as pessoas estavam gastando mais com produtos de supermercado, já que os restaurantes estavam fechados devido às restrições da Covid-19.

Ele viu aí uma oportunidade de criar uma startup com um amigo de escola, que produzia e vendia tofu. Após tentativas e erros, eles desenvolveram um produto que, acreditavam, poderia resgatar a reputação insossa do tofu. “Desenvolvemos um produto muito macio, nada mastigável. Combinamos isso com uma variedade de marinadas, como molho barbecue e mostarda, e utilizamos soja cultivada localmente”, diz Rösch.

Assim nasceu a startup Ensoy, e, como o produto era fabricado e lançado no leste da Suíça, longe dos grandes centros urbanos como Zurique, ganhou um valor de novidade e atraiu ampla cobertura da imprensa. Rösch conseguiu fornecer o tofu da Ensoy para restaurantes e, por fim, construir uma rede de 250 estabelecimentos parceiros.

Rösch
O objetivo de Rösch era vender o seu tofu nos maiores supermercados da Suíça, Migros e Coop. Yvonne Aldrovandi

Rösch investiu suas próprias economias para tirar a Ensoy do papel. Após dois anos de operação, conseguiu obter um empréstimo bancário em condições favoráveis para expandir a startup, mesmo sem ter levantado capital de risco.

O grande momento da Ensoy veio quando a empresa garantiu um contrato de seis meses para fornecer à Migros, uma das maiores cadeias de supermercados da Suíça, ao lado da Coop. “Antes de criar minha startup, um dos objetivos era vender para a Migros ou para a Coop, porque essa é a única forma de ganhar escala. E eu estava certo, porque mais do que dobramos nossa produção depois do contrato com a Migros”, diz ele.

Rösch contratou três novos funcionários para aumentar a produção e atender aos volumes exigidos pela Migros. No entanto, a empresa ainda não estava gerando lucro. “Quanto mais você produz, mais dinheiro deveria ganhar. Mas não era isso que estava acontecendo, porque nossos custos salariais também aumentaram”, conta Rösch.

Após seis meses, a Migros decidiu não renovar o contrato, já que as vendas ficaram abaixo do esperado, e Rösch precisou demitir os três funcionários. A Ensoy também perdeu alguns clientes entre as lojas de produtos orgânicos, que se decepcionaram com a parceria da empresa com o gigante de supermercados suíço Migros.

Essas lojas tentam se diferenciar vendendo produtos que seus clientes não encontram em outros lugares, e agora o tofu da Ensoy estava à venda em toda parte. O golpe final para a startup foi o fracasso de um acordo com um novo parceiro, que acabou não se concretizando na última hora. “Agora eu estava sob pressão do banco. Foi, portanto, o momento de dizer: ‘OK, tentamos e fracassamos’”, diz Rösch.

Rösch teve de encerrar sua empresa em 30 de novembro de 2025 e vender todo o equipamento de produção de tofu. “Os maiores varejistas de alimentos da Suíça, Migros e Coop, têm suas próprias fábricas internas de alimentos ou são proprietários de fabricantes como o grupo Bell e a Hilcona. Eles sempre comprarão o tofu dessas empresas, a menos que eu consiguisse vendê-lo mais barato, o que nunca será o caso. Por isso, encontrar um investidor, quando existem empresas produzindo tofu pela metade do preço que nós, foi difícil”, diz ele.

Rösch estima ter gastado cerca de 150 mil francos (US$ 195 mil) de suas economias e de empréstimos feitos junto à família. Ele não recebeu salário nos primeiros seis meses e, ao final, conseguiu reservar para si, no máximo, quatro mil francos por mês. Em 2024, o salário bruto mediano mensal para um emprego em tempo integral na Suíça era de 7.024 francos.

Alta qualidade, margens pequenas

Outra empreendedora que sabe o quanto é difícil escalar uma startup de alimentos é Céline Neuenschwander. Em 2023, ela criou a startup Flow Hummus, que entrega bowls (refeições prontas servidas em tigelas) veganos de café da manhã e almoço em escritórios da cidade de Zurique.

Ela identificou uma oportunidade após o fim das restrições da pandemia de Covid-19, quando os escritórios buscavam incentivos para trazer seus funcionários de volta ao trabalho presencial. “A Flow Hummus foi concebida como uma cantina digital para escritórios sem cozinha ou opções de comida fresca”, diz ela. “As empresas podiam encomendar bowls frescos e saudáveis por meio de uma loja virtual, e recebê-los preparados e entregues diretamente no local de trabalho.”

Mostrar mais
Legumes em bandejas

Mostrar mais

Soluções para o clima

Legumes ajudam a agricultura suíça a combater as mudanças climáticas 

Este conteúdo foi publicado em Agricultores plantam lentilhas e grão-de-bico para enfrentar as mudanças climáticas. As leguminosas são resistentes à seca e ricas em proteínas, mas seu cultivo é bastante desafiador.

ler mais Legumes ajudam a agricultura suíça a combater as mudanças climáticas 

Depois do impulso inicial, o crescimento começou a desacelerar devido a margens de lucro menores do que o esperado. Neuenschwander enfrentou um desafio estrutural: produzir e entregar alimentos frescos e saudáveis implica custos significativamente mais altos. “Comida é negociada como qualquer outra commodity”, diz ela. “Ingredientes altamente processados, baratos e com longa validade tendem a gerar as maiores margens e retornos – embora não sejam necessariamente os mais saudáveis.”

Apesar de um modelo operacional altamente enxuto, Neuenschwander decidiu encerrar o negócio após quase três anos. “Sim, foi um momento decisivo na minha vida, em que muitas coisas se combinaram. No entanto, aprendi muito, tanto no plano profissional quanto no pessoal. No final, isso me levou ao meu próximo passo: ingressei na Venturelab, a maior aceleradora da Suíça, onde apoio startups de classe mundial em sua jornada de crescimento”, afirma.

Rumo à internacionalização

Mark Essam Zahran estudou arquitetura na universidade, o que despertou seu interesse pela agricultura vertical, que consiste no cultivo de plantas em camadas dispostas verticalmente, a fim de aproveitar melhor o espaço limitado. Ele ficou impressionado com a quantidade de terra necessária para produzir alimentos.

“Todas as cidades do mundo, onde vive a maior parte da população, ocupam cerca de 3% da superfície terrestre, enquanto 40% das terras são necessárias para alimentar todo mundo. Nesse sentido, se pensarmos a arquitetura como a arte de dominar o espaço, veremos que simplesmente não usamos de modo suficientemente eficiente o espaço de que já dispomos”, afirma.  

Zahran
Um obstáculo que Zahran vê em muitas startups do setor alimentício é que elas se concentram apenas no mercado suíço. Gaya Earth

Zahran iniciou sua trajetória empreendedora com uma startup de agricultura vertical chamada Yasai, que cultivava ervas por meio de um sistema vertical interno, sem solo. Contudo, a disparada dos preços da energia após o início da guerra na Ucrânia, em 2022, levou a uma perda de confiança dos investidores nesse modelo de negócio. “Enfrentamos dificuldades para atrair o capital necessário para alcançar uma economia de escala”, conta ele.

Pelo menos 15 empresas europeias de agricultura vertical declararam falência até o fim de 2023 e, de acordo com o Relatório Global de Investimento da AgFunder 2025, os investimentos em novos sistemas agrícolas (incluindo fazendas verticais) caíram 53% em 2024 em comparação ao ano anterior.

Em 2024, Zahran vendeu sua empresa para a GreenState, a maior companhia do setor de agricultura vertical na Europa, e fundou, em 2025, a startup Gaya Earth. A empresa comercializa cacau em pó misturado com cogumelos funcionais, apresentado como uma alternativa mais saudável ao café. Todos os fundadores da Gaya estão em sua segunda ou terceira experiência empreendedora.

“Há certas coisas que não se aprendem em livros: é preciso vivenciá-las. E é por isso que tem grande valor poder trabalhar com pessoas que já cometeram seus erros, adquiriram percepções e aprendizados, e aprender com elas”, diz Zahran.

Um dos principais entraves que ele identifica em muitas startups de alimentos é o foco exclusivo no mercado suíço. Segundo ele, o mercado suíço, com nove milhões de consumidores, é muito pequeno, altamente regulado e refém do duopólio das duas grandes redes de supermercados, que podem ditar os termos de qualquer parceria.

Mostrar mais

“Acho que as startups suíças do setor alimentício deveriam ter uma ambição global desde o início. Se você olhar para startups suíças bem-sucedidas como a Planted, verá que eles se internacionalizaram rapidamente, o que lhes permitiu crescer mais depressa”, afirma Zahran. A empresa suíça Planted fabrica substitutos vegetais para carne e já captou mais de 100 milhões de francos desde sua fundação, em 2019.

Zahran enxerga um futuro promissor em mercados emergentes, como o Oriente Médio e o Extremo Oriente, onde a preocupação com a saúde vem crescendo. Ele também vê o “selo suíço” como uma vantagem competitiva nesses novos mercados. “Os consumidores de lá tendem a preferir marcas suíças porque confiam no controle de qualidade da Suíça. Foi assim que a Nestlé conseguiu se estabelecer na China com seus alimentos para bebês, e agora nós podemos nos apoiar nos ombros desses gigantes”, diz ele.

Marca primeiro, produto depois

Enquanto alguns chegaram ao fim de sua jornada no mundo das startups de alimentos ou embarcaram em uma segunda tentativa, outros estão apenas começando sua trajetória empreendedora. A belga-holandesa Sien van Boven, radicada em Lucerna, acaba de lançar a Lentl, uma startup que produz uma pasta à base de lentilhas. Recentemente, ela ganhou 40 mil francos em uma competição de startups organizada pelo Banco Cantonal de Lucerna. A recém-chegada ao empreendedorismo decidiu investir primeiro na construção da marca, antes mesmo de ter sua linha de produtos pronta para a venda.

Sien de Cima
Encontrar um parceiro que pudesse produzir a pasta de lentilhas que ela queria não foi tão fácil quanto van Boven pensava que seria.   Sien van Boven

“Marca e design são tudo. Por isso, mesmo antes de saber se o produto e a ideia de negócio realmente iriam funcionar, investi nos serviços de uma agência profissional de design”, afirma van Boven.

Ela deixou de produzir as pastas de lentilha em casa e agora trabalha em uma cozinha profissional. Encontrar um parceiro capaz de fabricar o produto exatamente como ela queria não foi tão simples quanto imaginava. “Você não encontra um parceiro de produção simplesmente usando o Google, porque os que aparecem ali geralmente são grandes fabricantes e talvez não tenham interesse em produzir pequenos lotes para você. Às vezes, é preciso praticamente se vender para eles, mesmo sendo você o cliente”, explica.

Van Boven está ciente dos riscos de fracasso e acompanha de perto outras empresas e fundadores do setor de startups de alimentos. “Isso te mantém alerta. Acho que sempre esperamos não cometer os mesmos erros. Mas, no fundo, é isso que é empreender: correr riscos e manter a esperança.”

Edição: Virginie Mangin/ts

Adaptação: Karleno Bocarro

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR