Como brasileiros vivem com o coronavírus na Suíça

Brasileiros que moram na Suíça diagnosticados com Covid-19 contam como foi enfrentar a doença que já contaminou quase 27 mil e matou mais de 1.300 no país.

Valéria Maniero
Materiais usados pela brasileira C. que teve o Covid-19. swissinfo.ch

Eles têm menos de 60 anos, são ativos, mesmo assim, contraíram o vírus que já infectou mais de 2 milhões de pessoas no mundo todo. A brasileira Glícia Dezidério de Souza, de 40 anos, há treze anos em Genebra, foi uma delas. Em licença-maternidade por conta do nascimento da filha e ainda amamentando Giovanna, hoje com 4 meses, ela contou à swissinfo.ch como foi passar pela experiência que lhe causou febre, muita dor no corpo, na cabeça e calafrios.

"Era como se eu estivesse com dengue, mas um pouco mais forte. Não imaginava que ia pegar o coronavírus pelo fato de eu quase não sair de casa. Como eu ainda amamento a minha filha, providenciei máscaras de tecido para não correr o risco de passar para a bebê", explica.

Glícia saiu de Aracaju, no Sergipe, para tentar uma vida melhor na Suíça e realizar o sonho de adolescente de morar fora do Brasil. Hoje em dia, trabalha como caixa numa estação de serviços em um posto de gasolina.

"Era como se eu estivesse com dengue, mas um pouco mais forte", conta Glicia Deziderio de Souza, com a filha Giovanna nos braços. swissinfo.ch

Quando os sintomas apareceram, a brasileira lembra que ligou para o 0800, o número do coronavírus, relatando o que estava sentindo. Foi aconselhada a ficar dez dias em casa. Até então, existia a suspeita. Ela perguntou se poderia fazer o teste, mas disseram que não. Quando a febre chegou a 40 graus e a dificuldade para respirar apareceu, foi levada ao hospital por uma ambulância para fazer alguns exames.

"Lá, constataram que eu estava com líquido nos pulmões. Eu não tinha mais força para nada. Fiquei em observação algumas horas e voltei para casa. No dia seguinte, me ligaram dizendo que tinha dado positivo", conta ela que, já recuperada, ainda usa a máscara para cuidar da filha.

A experiência de ter tido o coronavírus deixou Glícia, que tem bronquite asmática, assustada. "Como eu tenho uma bebê, eu só pensava nela. A gente nunca sabe, né? Tem gente com boa saúde que faleceu. Eu pensei: será que a minha filha vai perder a mãe? Agora que passei por isso, o sentimento que fica é de gratidão por ter saído dessa. Só tenho que agradecer a Deus por estar viva", diz. 

Sobre o atendimento recebido no hospital e pela médica que foi vê-la em casa, ela diz "que não tem o que falar", mas acha que deveriam dar mais atenção às pessoas que entram em contato por telefone para falar dos sintomas.

"Eu tive que esperar. Só fui atendida quando senti muita falta de ar. Tive que esperar nove dias para saber se tinha o vírus ou não", conta.

"Era como se eu estivesse em coma"

Há 15 anos na Suíça, Clarissa Muniz Azevedo de Sousa, de 39 anos, proprietária de uma loja de produtos de telecomunicação em Genebra, começou a sentir os sintomas do coronavírus em 16 de março, mesmo dia em que o governo suíço anunciou o fechamento das escolas e do comércio. Dor no peito, cansaço e febre de até 40 graus que durou 11 dias. Orientada pelo médico, foi fazer o teste para saber se estava com o Covid-19 e não deu outra: quando o resultado positivo saiu, ela já estava bem fraca.

"Eram dores que eu nem consigo descrever. Não conseguia esticar a mão, a perna. Ficava na cama em posição fetal, porque não conseguia me alongar. E sentia ainda uma dor na cabeça forte como se estivessem esmagando o meu crânio", diz a brasileira, já naturalizada suíça, formada em Marketing e Publicidade no Brasil com MBA de gestão de empresas e CFC de gestão de comércio cursados na Suíça.

Clarissa contou ao swissinfo.ch que por conta da febre alta teve uma espécie de amnésia. "É como se esses dez, onze dias não tivessem existido na minha vida. Como se eu estivesse em coma. Vivia em um mundo paralelo. Estava ali, mas não estava. Não reagia, não interagia. A sensação era de vazio. Tudo muito estranho. Hoje converso com meu marido e minha sogra e eles me falam o que aconteceu", explica a brasileira, destacando que não tinha problema de saúde prévio, não fumava e costumava se alimentar bem e fazer exercícios.

"É como se esses dez, onze dias não tivessem existido na minha vida", revela Clarissa de Sousa, na foto, já curada. swissinfo.ch

No 12º dia com o coronavírus, quando a febre diminuiu e os outros sintomas acalmaram, Clarissa achou que, enfim, estava ficando boa. Mas não. Foi aí que apareceram a dor no peito e a dificuldade de respirar. Orientada por telefone a voltar ao hospital, onde fez exame de sangue e eletrocardiograma, Clarissa recebeu a notícia de que seus pulmões tinham sido atacados e ela estava com pneumonia. A partir daí, começou a tomar antibiótico e, aos poucos, foi se recuperando.

"É um vírus muito agressivo. Se você não estiver com boa saúde, não aguenta passar por isso. Não desejo para ninguém. Quem não viveu ou tem algum conhecido próximo passando por isso não leva muito a sério -há muitas pessoas nas ruas aqui e no Brasil", disse ela, que elogiou a assistência recebida tanto no hospital quanto por telefone.

"Não foi uma gripezinha", diz brasileiro que teve febre 12 dias

O pior já tinha passado quando Rodrigo Dannemann, de 49 anos, que é hipertenso e foi diagnosticado com o Covid-19, falou com a swissinfo.ch. Ele teve febre 12 dias seguidos e viu a saúde piorar dia após dia.

"Começou com uma tosse, um incômodo na garganta. Mas a tosse piorou muito à noite e tinha que me sentar para não me engasgar. Entrei no site do coronavírus e fiz um teste com umas perguntas. Recebi um pré-diagnóstico, dizendo que tinha que me dirigir a algum hospital para fazer o exame e verificar se estava ou não com o vírus. Fui testado no dia 13 de março no CHUV e recebi o resultado positivo no dia seguinte", explica Rodrigo, que recebeu a notícia por telefone com a recomendação de que precisava se isolar. 

Mas o quadro do brasileiro foi piorando e ele teve que voltar ao hospital. Após exames de sangue e testes clínicos, foi concluído que uma bactéria oportunista tinha atacado os pulmões de Rodrigo. "Foi identificada uma infecção bacteriana, que era a pneumonia. Tomei antibióticos e pude debelar a infecção finalmente", conta.

"Começou com uma tosse, um incômodo na garganta", lembra-se Rodrigo Dannemann. swissinfo.ch

Rodrigo diz que teve muita dificuldade de receber atendimento adequado. "Liguei algumas vezes para o hotline. Não me atenderam mal, mas se você não estivesse agonizando ou com dificuldade de respirar, eles desviavam", contou Rodrigo, que é brasileiro e alemão, e veio para a Suíça em 2017 para trabalhar em Lausanne na área comercial de uma organização esportiva. 

Com a piora do estado de saúde, os paramédicos chegaram a ir ao local onde Rodrigo mora para dar assistência. Segundo ele, foi "desagradável" passar por tudo aquilo. "Você fica à deriva. Não foi uma gripezinha. Nunca coloquei um cigarro na boca, nado bem. O meu histórico de atleta não me salvou", disse, rindo, referindo-se à frase do presidente Bolsonaro.

Isolada da família na própria casa e 16 dias sem abraço e beijo

Quando falou com o swissinfo.ch, a brasileira C.G.P, de 46 anos, ainda estava confinada e isolada da família num quarto da casa sem contato.  No domingo de Páscoa, depois de 16 dias, ela voltou a abraçar as filhas Luna e Sofia, de 11 e 8 anos.

Com ela, a história foi a seguinte: uns 10 dias antes de começar o confinamento na Suíça, as filhas fizeram apresentação de balé em Savigny, que reuniu 600 pessoas, e lá estava a mãe para prestigiar as meninas. Um tempo depois, ela, que é muita ativa, que faz esporte e aula de dança, que não bebia nem fumava, começou a sentir uma fraqueza e a tossir muito. Imediatamente, se isolou no andar de cima da casa para não contagiar o resto da família.

Ela, que só teve um dia de febre alta, passou a monitorar a taxa de oxigênio no sangue com um aparelho. Ligou para a central de atendimento do coronavírus e, depois, um médico de família foi à casa da brasileira para saber como estava. C. não chegou a fazer o teste, portanto, não entrou nas estatísticas de casos confirmados, mas teve coronavírus, segundo o médico.

A brasileira C.G.P volta a abraçar as filhas no dia da Páscoa. swissinfo.ch

Sobre a assistência recebida pelo sistema de saúde, C. é só elogios. "Foi excelente. Eles estavam preparados para me informar. Fizeram perguntas-chave, perguntaram de onde eu estava falando. Quando liguei e falaram que eu tinha 3 dos sintomas, disseram que eu tinha que ficar em isolamento obrigatório. O meu médico também foi muito atencioso e ligava todos os dias", disse.

C. explica como ficou a rotina da casa durante o período em que esteve doente e, de longe, ouvia o que acontecia por ali. "Meu marido preparava a comida e deixava uma bandeja na porta. Foi assim com o café, o almoço e o jantar. Eu pegava com luva, comia e colocava no mesmo lugar. Ninguém entrava no meu quarto. Quanto às meninas, eu ficava sentada no sofá e, de longe, elas me davam um tchauzinho. Como o tempo estava muito lindo, elas se filmavam no quintal e depois mandavam o vídeo. Eu estava aqui em cima, elas lá embaixo, mas nos falávamos sempre. Elas faziam fotos dos deveres e mandavam pelo WhatsApp. A mais nova dizia que estava precisando de carinho, que estava com saudades", conta C., que trabalhava no Brasil como assistente administrativa numa multinacional e está há 14 anos na Suíça, país do marido, onde trabalha como cantora de música lírica.

Para alegrar a mãe, as filhas de C. mandaram fotos dos quartos arrumados e, por debaixo da porta, passaram para ela um desenho de um peixe em que estavam escritas frases como "Você é a melhor mãe do mundo", "Eu te adoro", "Você faz muita falta".

Ter passado pela experiência foi "muito desagradável", segundo ela. "É horrível saber que tem esse corpo estranho dentro de você e que está tentando te fazer cair, te colocar no chão", diz a brasileira que, para não ficar para baixo durante o isolamento, fez meditação, alongamento, leu livros e conversou por telefone com a família e os amigos.

C. tem uma mensagem aos que estão no Brasil, país que já vê o número de casos e de mortos subir. "É diferente do vírus normal da gripe. Sou saudável, fui atleta e peguei. Então, se não se proteger, vai pegar. Ninguém está livre. Quem vê cara não vê corona", diz.

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