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"A espécie humana corre o risco de desaparecer"

Leonardo Boff durante o Fórum Social de Porto Alegre, em 2005.

Mudanças climáticas radicais e irreversíveis são anunciadas por pesquisadores de vários países e mesmo o Conselho de Segurança da ONU já está preocupado com o tema. O tom é cataclísmico.

O planeta Terra, como declara o teólogo brasileiro Leonardo Boff, "está confrontado a um momento complexo da sua própria história evolutiva. Entrevista swissinfo.

Entre catástrofe e ameaças de desaparecimento, Boff, membro da comissão internacional da Carta da Terra e Prêmio Nobel alternativo de 2001, aborda questões científicas, teológicas e baseadas na sua experiência de militância social, para fazer uma advertência.

Amplamente conhecido na Suíça, Leonardo Boff já foi professor visitante da Universidade da Basiléia. Ele também é doutor honoris causa em teologia da Universidade de Lund e visita regulamente o país dos Alpes para dar palestras e participar de seminários.

swissinfo: Os informes publicados sobre o aquecimento da atmosfera indicam uma situação cada vez mais alarmante...

Leonardo Boff: O Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC em inglês), no início de fevereiro, revelou que já chegamos aos limites do que pode suportar o nosso planeta. A Terra vai, irremediavelmente, viver um aumento de temperatura entre 1,8 e 6 graus Celsius. As conseqüências sobre a biodiversidade serão devastadoras. Milhões e milhões de pessoas correm sérios riscos devido às perdas nas colheitas, através de secas ou de inundações provocadas pela subida das águas dos oceanos, que será de 18 a 59 centímetros, no mínimo...

swissinfo: Devemos entender essa visão como um panorama catastrófico para o nosso futuro?

LB: Devemos ter a certeza de que somos responsáveis pela vida ou morte de nosso planeta. O futuro depende apenas de nós, do destino da nossa espécie e da nossa querida casa comum, o planeta Terra.

É possível imaginar o desaparecimento da espécie humana como resultado do seu poder de autodestruição?

LB: Inúmeros pesquisadores não excluem essa possibilidade. Posso citar alguns como Stephan Hawking ('O universo é uma casca de noz'), que prevê para 2600 o ano em que a população mundial viverá um encostando-se ao outro e que o consumo de eletricidade deixará a terra incandescente. Também o Prêmio Nobel, Christian de Duve, afirma que a evolução biológica está caminhando aceleradamente para um momento de ruptura. James Lovelock, ('A vingança de Gália') antecipa um cenário brutal: até o final do século, 80% da população humana já terão desaparecido. Os 20% restantes irão viver no Ártico ou em alguns poucos oásis em outros continentes, onde as temperaturas serão mais baixas e onde ainda cairá um pouco de chuva.

swissinfo: Acho que muitas pessoas vêm como improvável o desaparecimento da humanidade...

LB: Seria uma catástrofe biológica de magnitude incomensurável. Ver-se-ia anulado o trabalho de pelos menos 3,8 bilhões de anos, data provável da aparição da vida; e dos 5-7 últimos milhões de anos, desde que surgiu a espécie humana; e dos últimos cem anos, desde que apareceu o Homo Sapiens. Cairia todo este trabalho realizado pelo universo inteiro de energia, informações e de diferentes formas de matéria.

É preciso se lembra que, até agora, não foram identificadas cientificamente, e de forma irrefutável, outras inteligências no universo. Somos, com espécie homo, uma singularidade sem comparação no cosmo.

Contamos com um corpo de trinta bilhões de células; um cérebro com cem milhões de neurônios em contínua sinapse, complexo em sua psique e sua consciência, carregada de informações coletadas desde que irrompeu o cosmo com o chamado "Big Bang". E que se foi enriquecendo com emoções, sonhos, arquétipos e símbolos.

E com um espírito capaz de captar tudo e sentir-se como parte dele. E identificar-se com aquele que une e reúne, liga e religa todas as coisas fazendo com que não sejam caóticas, mas sim ordenadas e dando-lhes sentido e significado à existência neste mundo. E que nos faz despertar sentimentos de profunda veneração e respeito fazia a grandeza do cosmo.

Nesse sentido, a história da vida e a história da vida humana perderiam algo inestimável.

swissinfo: E como fica o homem e seu instinto de sobrevivência neste panorama quase desolador?

LB: Ainda que pareça contraditório frente à gravidade de tudo que foi feito, diria que é necessário ter paciência com o ser humano. Existe muito para aprender. Em relação ao tempo cósmico, o que ocorre no momento com a humanidade corresponde apenas a um minuto de vida.

swissinfo: Todavia a espécie humana terá tempo para aprender e ganhar em sabedoria?

LB: Tudo parece indicar que o relógio está correndo contra nós. Possivelmente já chegamos tarde demais e passado o ponto de não-retorno.

Porém, como a evolução não é lineal e conhece freqüentes rupturas e saltos para frente – produto da maior complexidade – e como existe o caráter do indeterminado e flutuante de todas as energias e toda a matéria, nada impede que ocorra o surgimento de outro nível de consciência e de vida humana capazes de salvar a biosfera e o planeta Terra.

swissinfo: Com relação ao futuro, existe uma decisão de prática atual, cotidiana e imediata?

LB: Sim. É importante mostra agora mesmo o amor à vida, ter compaixão de todos os que sofrem, realizar o mais rápido possível a justiça social necessária e amar a grande mãe Terra. Avancemos de forma acelerada, pois não temos muito tempo a perder.

swissinfo: Leonardo Boff poderia ser visto como um otimista ou um pessimista?

LB: Aposto no otimismo. Da mesma maneira com que o ser humano domesticou outros meios de destruição, o primeiro do quais foi o fogo, acho que agora ele domesticará os meios que possam destruir-lhe.

Aqui caberia, por exemplo, uma análise das possibilidades dadas pela nanotecnologia (que trabalha com átomos, genes e moléculas), que pode, eventualmente, oferecer meios técnicos para diminuir o aquecimento global e purificar a biosfera dos gases que provocam o efeito-estufa.

swissinfo: Afora os presságios fatalistas e de um realismo dramático, qual é a convicção profunda de Leonardo Boff sobre o futuro da espécie humana?

LB: Eu me oponho à idéia de que nosso destino, depois de milhões de anos de evolução, termine dessa forma, tão miseravelmente, nas próximas gerações. Haverá um salto, quem sabe, na direção daquilo que Pierre Teilhard de Chardin anunciava em 1933: a irrupção da noosfera é dizer em que estado de consciência e de relação com a natureza que inaugurará uma nova convergência de mentes e corações, assim como um novo nível da evolução humana e da história da terra.

swissinfo, Sérgio Ferrari

Leonardo Boff

Leonardo Boff, pseudônimo de Genésio Darci Boff, (Concórdia, 14 de dezembro de 1938) é um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário. Era membro da Ordem dos Frades Menores mais conhecidos como Franciscanos

Ex-frade da Igreja Católica, grande opositor dos papas João Paulo II e Bento XVI, foi punido com silêncio obsequioso pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, após defender a Teologia da Libertação sob uma leitura marxista da Igreja Católica e da Teologia com idéias contrárias à doutrina católica, quando então era prefeito o cardeal Joseph Ratzinger, atual papa. Em 1992, após ter sido silenciado novamente por Roma, finalmente deixou, sem dispensa, a Ordem Franciscana e o ministério presbiteral. Uniu-se, então, à teóloga libertacionista Márcia Monteiro da Silva Miranda.

Publicou vários livros sobre a Teologia da Libertação, entre eles o best-seller A Águia e a Galinha.

Boff também é professor de sociologia na Universidade do Rio de Janeiro (UERJ) e viaja o Brasil dando palestras sobre os temas abordados em seus livro.

Para uma opinião crítica da teologia da libertação e das idéias de Boff em particular, ver o livro Ensaios sobre a destruição da tradição cristã, do teólogo norte-americano Rama Coomaraswamy (T.A Queiroz editores, S. Paulo, 1990, tradução de Mateus Soares de Azevedo). Trata-se de uma coletânea de textos críticos sobre a nova missa, a Teologia da Libertação, o Darwinismo e a Renovação Carismática. Texto: Wikipédia em português.

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